Arquivo do mês: outubro 2008

O jornalismo sem jornalistas. E sem diploma.

Hoje apresentei no Unifai a palestra “O Jornalismo sem Jornalistas – Perspectivas para a Difusão da Informação do Brasil“. Um resumo dos passos que o jornalismo cidadão deu de 11 de setembro de 2001 até agora _a constatação, infelizmente, é que foram poucos.

Quando a gente fala de colaboração no Brasil, então, o cenário fica ainda mais trágico. A moderação, justificada pelo mainstream como indispensável, falhou todas as vezes que precisava agir. Ao mesmo tempo, a noção de notícia do público dito comum, pífia, não ajuda a relação a amadurecer.

Mais marcante ainda, porém, é a postura do jornalismo profissional, que segrega o colaborador-cidadão, o desconsidera, se nega a dialogar. Oferece pitadas de interação apenas para o caso de ser cobrado por isso.

Falamos ainda de diploma. E que o STF deve derrubar a exigência. Mas o jornalismo é uma função que tem um aspecto técnico (e litúrgico) muito forte. A queda da obrigatoriedade de se fazer um curso específico não exclui as especificidades da profissão. E o diferencial que a formação pessoal, aliada ao ensino acadêmico, podem fazer por ela.

Jornalismo não pode ser literatura

O texto jornalístico, quem diria, foi apontado como gênero literário por professores e especialistas que, desde ontem, participam do 1º Congresso Internacional de Jornalismo de Málaga, na Espanha. Nada mais equivocado.

Primeiro que a própria natureza do trabalho, em que textos precisam ser cortados e/ou condensados às pressas para se adequar a espaços físicos (leia-se: centimetragem de matérias) muitas vezes impróprios impede qualquer tipo de paralelo com a literatura _terreno onde, todo o oposto, o autor passeia, descreve e divaga o quanto quiser.

É perigosíssima comparação deste tipo, pois leva muito jornalista a se pressupor um artista, passo este decisivo para abraçar o nariz de cera de vez e jogar a objetividade e agilidade do texto no lixo.

Jornalismo e literatura não podem se misturar. Isso não significa que queremos textos ruins em nossos jornais. Apenas defendo uma estrutura de narrativa que privilegie o tempo exíguo do leitor, conte o milagre e o nome do santo logo de cara e acabe com todo suspense e dúvidas em segundos.

O contrário do que é desejável na literatura.

De volta ao planeta off-line

Acabo de saber que o repórter Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, encerrou as atividades de seu blog no site do jornal por considerar “praticamente impossível conciliar reportagem investigativa com o abastecimento de um blog”.

“A investigação jornalística exige tempo, sigilo, dedicação e concentração. Uma só reportagem demanda, às vezes, duas ou três semanas de trabalho. Nesse período, o repórter precisa se manter focado na pauta, o que exclui outras atividades”, justificou em seu último post. Hmmm…

Engraçado que acabo de dar um bom exemplo de uso da rede (a história do egípcio Ahmed Daher, abaixo) e me cai no colo esta, que é precisamente o oposto.

Repórteres de papel ainda não entenderam que, por trás do palco e do holofote do blog, existe uma comunidade criada por eles mesmos em torno dos interesses e temas presentes em seus cotidianos. E que esta comunidade, se tratada com reciprocidade e respeito, é capaz de ajudá-los nas investigações jornalísticas mais espinhosas e trabalhosas.

Vaz deixou o mundo on-line vociferando contra o que chamou de “verdades apontadas por blogueiros”, a quem acusou de “sair copiando tudo o que outros colegas fizeram de bom naquele dia” _copiando? Mas meu deus, a plataforma blog pressupõe que se mostre o que a blogosfera está dizendo sobre os mesmos assuntos que você, criatura!).

O repórter volta ao planeta off-line questionando uma suposta limitação sobre o tamanho dos textos _não há consenso sobre isso no meio_ que era obrigado a redigir no blog. “O leitor do blog também espera notas mais curtas, com informações quentinhas. Ele não quer nem mesmo rolar a tela. São três ou quatro parágrafos, no máximo.” E critica o caráter opinativo da blogosfera (“Também não gosto de fazer comentários. Prefiro levar a informação ao leitor, para que ele tire as suas conclusões).

Ninguém é obrigado a blogar, evidente. Mas há conceitos dentro do ambiente on-line que não podem ser reduzidos a comparações com o bom e velho papel. Se fizessemos o oposto, pobre papel, não?

Com a saída de Vaz da rede, perde o público. Ele, porém, perde infinitamente mais.

Política via teclado

A última edição da Wired (aquela revista maluca referência na Web e que em papel tem um design pra lá de arrojado, do tipo ame-o ou deixe-o) conta em detalhes uma história cujo moral você já imagina: turbinado pelo poder mobilizador das redes sociais, alguém fez alguma coisa acontecer.

O alguém em questão é o ativista político egípcio Ahmed Daher, 27, engenheiro civil de profissão. Milita partidariamente desde a vida off-line, sempre contra a Situação _o Egito é governado pelo mesmo mandatário, Hosni Mubarak, desde que Daher nasceu.

Ligado ao partido El-Ghad, o mais estruturado opositor do militar Mubarak, Daher utilizou o Facebook (rede social de quem volta e meia o Orkut, um de seus concorrentes menos expressivos, copia utilitários) para organizar um protesto pacífico no Cairo.

Em questão de dias, arregimentou mais de 70 mil pessoas para sua comunidade no site de relacionamento, foi perseguido, ameaçado e preso. A manifestação (e sua mensagem por democracia no país africano) foi um sucesso. O mensageiro, definitivamente, ajudou.

Jornalismo participativo é tirar foto de pôr-do-sol?

O Globo iniciou nesta semana uma campanha agressiva para incentivar seus leitores a participar da elaboração do conteúdo não apenas de seu site, mas também do jornal (o uso de conteúdo produzido pelo usuário no jornalão, aliás, já tinha sido identificado pelo Webmanário há meses).

Porém pelo que diz o editor-executivo de interatividade do Globo Online, Aloy Jupiara, não se deve esperar nada além do já manjado “meu-cachorro-fez-xixi-no-poste”, que é o conceito de notícia que boa parte das pessoas “de fora” da profissão possuem _pena, tenho de admitir, que há muitos dentro da profissão com esse mesmo nível de entendimento.

“Se o leitor tira a foto de um lindo pôr-do-sol com o celular, ele pode mandar direto para o email
eureporter@oglobo.mobi”, diz Jupiara ao Comunique-se. Meu deus do céu: então quer dizer que a participação que queremos do leitor é uma foto de pôr-do-sol?

É por essas e por outras que o jornalismo participativo, especialmente no Brasil, segue apenas como um doce oferecido pelo mainstream ao seu público. Não há a disposição de contar com conteúdo jornalístico, apenas uma área (em boa medida restrita) para dar aos usuários a possibilidade de brincar de interação, de fazer as vezes de jornalista.

O jornalismo participativo empacou, é fato. Nesta sexta-feira, a partir das 10h, falarei justamente sobre esse tema durante o 7º Simpósio Multidisciplinar “Identidades Brasileiras: olhares cruzados” do Unifai (Centro Universitário Assunção), em São Paulo.

Sujar a cidade e ganhar a eleição

Lembram de Virginia Reginato, a Tia Coty, prefeita de Viña del Mar (Chile) que patrocinava um blog jornalístico crítico dos candidatos que sujavam as cidades do país na campanha política (sem citar Virginia, a porcalhona-mor disparado)?

Pois bem: ela se reelegeu para um período de mais quatro anos à frente da belíssima cidade litorânea com uma votação recorde de 79% _a maior obtida por um prefeito reeleito no Chile.

Na comemoração, champanhe demi-sec e frases do tipo “o importante é ganhar”.

Êlaiá…

Reflexões perdidas num microblog qualquer

Uma de minhas diversões prediletas _afora a utilidade profissional_ é usar o Summize (sim, sou velho e me recuso a dizer “Twitter search”…) para ver o que as pessoas estão falando sobre determinadas coisas. Quando a palavra-chave é jornalismo, sempre acontecem surpresas. Como neste domingo eleitoral quase morto numa cidade em que, como a minha, o jogo político já está resolvido.

Fico sabendo, por exemplo, por meio do usuário acarvalho, que o jornal Lance fez mais uma das suas e publicou uma absurda história sobre Rubens Barrichello e a Ferrari. Não foi a primeira _nem será a última_ do periódico direcionado ao público infanto-feminino-aborrescente.

Filosófico, devilbesideyou diz não ver sentido em “fazer jornalismo e ter um blog sobre moda”. Ué, qual o motivo? Jornalismo de moda não existe? Ou não é serviço? Jornalismo não pode ser fútil? Sempre o velho preconceito…

SolCamargo anuncia que pode preparar uma biografia de seu ídolo na profissão. Quem seria??

Em dois posts amargos (porém verdadeiros) marielegoes decreta: o jornalismo não compensa. Muito menos para quem largou outro curso de graduação por ele…

A última do domingão é do colega David Butter: “As únicas coisas interessantes que li sobre jornalismo nos últimos 10 anos foram cartas de demissão. Sem exagero. O resto é chaaaaaaaato.”

Quase concordo com vocês…

A praga do control c + control v revisitada

É a maior crítica à plataforma on-line, não tem jeito. As facilidades de reprodução de palavras ou blocos de texto pelo computador transformam a Internet, muitas vezes, no paraíso da cópia. A culpa, evidente, não é da plataforma, mas dos desprovidos de idéias e vergonha na cara.

A jornalista e pesquisadora Raquel Recuero dá um bom exemplo ao relatar que texto de sua lavra foi copiado descaradamente pelo governo federal num edital.

Nas faculdades, é constante o número de trabalhos de alunos executado com base em propostas de outros, que têm seu trabalhado surrupiado sistematicamente.

Mais feio ainda é o jornalismo, atividade profissional em que o texto é a ferramenta básica, forrado de textos absolutamente copiados. E isso não ocorre apenas no on-line: recentemente, detectei em dois jornais impressos cópias de textos originalmente publicados na Web.

Recuero indica, por sinal, o site Plagiarism Detect, que varre a Internet em busca de cópias de frases e parágrafos inteiros.

Ladrões de palavras, tremei.

Projeto em Jornalismo Impresso I – Aula nove

Nesta sexta-feira (24/10), a volta de quem não foi: após 15 dias de ausência física, nos revemos em carne e osso na nossa sala 103 às 8h para preparar a próxima _e não menos importante_ visita que receberemos em 14 de novembro: Edson Rossi, que comandou várias revistas da Abril e agora está à frente do lançamento de mais um produto impresso: a revista Fut!, da mesma editora do jornal Lance.

Em nossa aula desta semana vamos atualizar alguns números sobre o mercado de jornais e perspectivas para o futuro do negócio. Afinal, não sei se vocês perceberam, há uma crise econômica em curso _e certamente o comportamento dos leitores e os investimentos no setor sofrerão alterações.

Caberá a Rossi, em novembro, contar essa mesma história sob o ponto de vista de quem, exatamente neste momento de turbulência, colocou nas bancas um novo produto impresso.

Voltando ao nosso encontro de amanhã, será que os países emergentes terão fôlego para manter em alta a tiragem dos jornais? E os investimentos em jornalismo on-line, não tenderiam a ganhar com a crise por causa da própria plataforma, muito mais barata (lembrem-se que o processo industrial de um jornal, ou sua impressão e logística de distribuição, consomem pelo menos 40% do dinheiro disponível).

Hora de discutir também, com mais detalhe, nossas idéias para o produto impresso do semestre que vem. Temos três sugestões de noticiosos gerais, e cinco projetos segmentados. A coisa vai chegando ao seu final, hora pensar nas respostas às indagações sobre propósito/público/conteúdo/nome.

Enfim, ainda dará tempo de, como inspiração, avaliarmos a catastrófica “capa promocional” do Banco do Brasil que emprestou as primeiras páginas dos principais jornais brasileiros há 15 para, ainda por cima, cometer um erro de informação crasso em sua manchete fake fabricada por uma agências de publicidade.

Para quem ainda não terminou o livro “O Destino do Jornal”, última chamada: teremos uma aula inteira só para discuti-lo, e seu resumo será ainda o trabalho de final de semestre (com pelo menos 10 mil caracteres).

Até lá.

O estranho caderno especial do Estadão

O Estado de S.Paulo soltou um caderno especial bastante esquisito nesta quarta. Em papel especial e sob o título Made in Brazil, o produto de 28 páginas em formato diferenciado (lembra o 3030, aqui citado algumas vezes) é um folhetim institucional da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (doravante designada Apex), estatal sob responsabilidade de Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

As reportagens (são várias e envolveram produção de foto, em menor escala) são assinadas por freelances especialmente para o centenário jornal paulistano.

Os títulos são genéricos (enfraquecendo pautas que, a distância, pareceram boas, ao menos em seu conceito) e, no geral, tecem loas ao trabalho da agência pública.

O problema é que não há expediente nem a informação (talvez sobre a manjada tarja “informe publicitário”) sobre a motivação do caderno.