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A pretensão de impor temas

Noções e histórias de um mestre do marketing político

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Meu amigo José Paulo Fernandes-Fafe, com quem tive a sorte de poder trabalhar e aprender, acaba de lançar em Portugal o livro “Marketing político, Noções e outras histórias“, pela Primebooks.

A obra destrincha as aventuras e desventuras do trabalho de comunicação em campanhas eleitorais, muitas vezes demonizado, mas sem o qual seguramente as decisões do eleitorado seriam mais difíceis de serem tomadas. O marketing em si jamais é do mal – mas sim o caminho que alguns profissionais da área preferem percorrer.

Mais do que servir como uma espécie de manual, o livro de Fafe (que, como filho de diplomata, teve o privilégio de conviver com personalidades como Fidel Castro) coloca algumas coisas em seu devido lugar. Por exemplo, a dimensão do profissional de marketing num trabalho como esse – que nada mais do é que conhecer o quanto mais possível as pessoas, seu entorno e contexto e extrair daquilo a linha comunicativa que orientará a campanha.

Para meu orgulho, pude colaborar com um grão de areia falando um pouco sobre o marketing digital e suas aplicações em eleições. Para sorte do marketing político, temos alguém qualificado e ético como Fafe para nos contar sua técnica e histórias impagáveis.

O estado da mídia 2017

Saiu o State of the News Media, documento anual que desde 2004 o Pew Research entrega com um raio x da mídia nos Estados Unidos – ou seja, os números podem ser considerados uma espécie de “eu sou você amanhã” evia de regra acabam se replicando em outras partes do globo, exceções à parte (pensou em exceção, pense em Japão).

A pesquisa mostra que a circulação dos jornais (incluindo as versões digitais) recuou ao equivalente ao que se tirava no começo dos anos 50 – uma curiosidade: a revista O Cruzeiro vendia mais de um milhão de exemplares no Brasil nessa época, número superior ao da revista de maior circulação hoje.

Por óbvio, as notícias não estão mais só nos jornais, além de uma infinidade de opções concorrerem com o hábito de consumir notícias.

Em contrapartida, o estudo mostra avanço dos canais “allnews” (também um fenômeno brasileiro) e da TV fechada.

Fake news e jornalismo colaborativo

De repente, o mundo descobriu que estamos todos em perigo de extinção por causa da disseminação de notícias falsas – apenas mais um dos efeitos colaterais do avanço tecnológico e da possibilidade de qualquer pessoa ser um publicador. Nossos filhos correm sério risco de vida e a própria democracia, como a conhecemos, será destruída.

Quer dizer então que nunca houve distribuição de informações inverídicas até o advento das redes sociais?

Faz-me rir. Isso aconteceu desde sempre, dos rabiscos nas cavernas à oralidade, chegando à imprensa propriamente dita (ofício aliás criado para defender interesses muitas vezes com base em argumentos tortuosos e pouco afeitos à verdade).

Seres humanos mentem o tempo todo, distorcendo a realidade de acordo com seuus interesses. No caso específico das fake news de nosso tempo, o chequinho em dólares por clique pago pelo Google basta – mas é óbvio que a manipulação pode atender a propósitos bem menos paroquiais e patrimonialistas. Como ocorreu desde sempre.

A notabilização desse furo no modelo ‘as notícias são para todos’, que provocou furor entre acadêmicos (entre eles, esse que vos fala) e popularizou o conceito de jornalismo colaborativo que Dan Gillmor e Jay Rosen tão bem descreveram há mais de dez anos, não significa que o jornalismo das pessoas está em xeque.

As noticias falsas surgiram muito antes, no âmbito do dito jornalismo profissional. Não é preciso percorrer muitos quilômetros, aliás, para encontrar expoentes dessa vertente em qualquer canto. O tal jornalismo profissional é bonito, mas infelizmente é para poucos.

A utopia do jornalismo colaborativo não se encerra com a epidemia de falsidades distribuídas via novas plataformas. Os seres humanos continuam tendo o direito de relatar/analisar/comentar/distribuir fatos, sejam jornalistas de ofício ou não. A questão é que estes, e já faz tempo, podem ter muito mais alcance do que os players do mercado – justamente os mesmos que, em seu momento, compartilharam suas próprias inverdades.

Aí mora uma outra questão interessante deste debate. Voltarei a ela.

Pesquisa Brasileira de Mídia 2016

Feita pelo Ibope por encomenda da Secom do Governo Federal, a Pesquisa Brasileira de Mídia é provavelmente o principal instrumento de aferição dos hábitos de consumo de notícias dos brasileiros. E anualmente as notícias que chegam trazem alguma surpresa.

De acordo com dados do documento mais recente, a TV ainda é o meio mais usado pela população para se informar sobre o Brasil (89% como primeira ou segunda opção), seguida pela internet (49%). Depois, com 30%, vem o rádio. Os jornais chegam a 12%, enquanto as revistas atingem 1%.

O documento é extenso e merece ser dissecado com calma, mas dados saltam aos olhos, como a informação de que 63% disseram ouvir rádio em aparelhos convencionais (17% o fazem pelo celular – e só 14% no carro). Outro dado que subverte o senso comum: por esta pesquisa é O Globo, não a Folha de S.Paulo, o jornal mais lido do pais – e eles são seguidos por Supernotícia e Extra.

A edição 2016 ouviu 15.050 pessoas em todo o país em entrevistas domiciliares realizadas de 23 de março a 11 de abril – os resultados só foram divulgados agora.

Notícias falsas, outro calcanhar de Aquiles do Facebook

Não é somente o absurdo controle do que as pessoas veem, mas a responsabilidade de evitar que notícias falsas circulem dentro do Facebook. Eis a nova fronteira do questionamento ao maior serviço de rede social do mundo – justiça seja feita, obviamente nem o Google está sujeito a se livrar desse triste papel.

Ao Gizmodo a empresa nega que tenha desenvolvido métodos para impedir a disseminação de boatos a não ser a autodeclaração de usuários que se sintam ofendidos por um conteúdo específico. Também, para seu criador a falsidade responde por mero 1% do conteúdo postado no site.

O tema, evidente, ganhou força após a eleição de Donald Trump, quando a rede chegou a ser considerada ‘culpada’ pelo resultado.

A verdade, infelizmente, está em nós: no ramo das notícias, sensacionalismo e bobagens sempre terão mais engajamento do que jornalismo sério e acurado. Culpe os seres humanos.

Triunfo de Trump põe em xeque estratégia eleitoral de Hillary

O desfecho da eleição americana colocou em xeque uma estratégia do marketing político tão controversa quanto famosa por ter dado com os burros n’água em outras oportunidades: a campanha democrata torrou US$ 33 milhões (ou 68% de todo o custo da empreitada) em anúncios, na TV e na internet, que tinham como único objetivo desconstruir o republicano Donaldo Trump, enfim vencedor.

Na web, nada menos do que todas as dez peças mais compartilhadas pelos usuários partiram da campanha de Hillary Clinton, mas não falavam dela – ressaltavam desatinos verbais do adversário, convidando o receptor das mensagens a confrontar suas convicções morais (veja outros comerciais da eleição americana).

Os conteúdos (em outra decisão polêmica do ponto de vista comunicacional) muitas vezes foram conduzidos sem porta-voz, ou seja, era da boca da própria Hillary que partiam as críticas ao adversário. Enquanto o tiroteio corria frouxo, a agenda positiva foi deixada de lado – e o país ficou sem saber o que Hillary realmente podia fazer pela América.

Durante muito tempo acreditou-se, no Brasil e no mundo, que o caminho escolhido pela campanha democrata era fadado ao fracasso. Análises mais recentes (inclusive a de um pesquisador brasileiro) mostraram, porém, que quem bate não necessariamente perde. Desta vez, mais uma vez, perdeu.

Impossível não voltar a refletir sobre a eficácia deste surrado método e a conclusão, imediata, de que cada eleição tem uma história.

A mídia social refém das efemérides

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Felizmente essa era parece estar acabando, mas a ficha demorou a cair – pensei que trataríamos eternamente a gestão de presença de marcas no Facebook e no Twitter (para ficar apenas em duas das redes mais importantes) como se fossem prioritariamente mera agenda de efemérides inventadas.

Saudar, em nome de outrem, a passagem de datas obscuras, inexistentes e – principalmente – que não fazem parte do dia a dia das pessoas se transformou numa espécie de regra não escrita da mídia social, deixando uma legião de reféns de publicações aparentemente obrigatórias. Obrigatórias?

No fundo, tudo fica parecendo aquela velha agenda de papel Pombo – nos perguntávamos de onde tinham tirado aquele Dia da Dona de Casa, para ficar num exemplo esdrúxulo.

No afã de participar da conversa das redes, criou-se uma disputa quase obsessiva pela lembrança de datas. Neste caso, e falando especificamente do Facebook, há um problema ainda mais grave: com a entrega de conteúdo proporcionada pelo site (no qual um post tem duração média de 36 horas nas timelines), via de regra a “homenagem” é vista no dia seguinte. Ou seja…

Uma boa fatia do caráter júnior que muita gente ainda credita ao trabalho de mídia social diz respeito a essa agenda inútil. Nesse ambiente, o que é realmente importante se confunde com a bobagem – e como a bobagem costuma ter mais capilaridade, tudo desaparece.

Assumindo a hipótese de que esse planejamento editorial visa dar mais visibilidade às presenças digitais, esbarramos em outro problema grave: até que ponto é eficaz abrir o leque atrás de números robustos, permitindo a entrada de gente que pouco ou nada tem a ver com sua audiência?

A burocracia, onde quer que esteja, atravanca os processos. Num ambiente de relacionamento, apesar das convenções, surpreender também é bem-vindo.

Caminhemos juntos

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É impressionante como o PR tradicional, a despeito de todas as ressalvas dia após dia, continua negligenciando a presença digital. Preocupamo-nos com todas as pontas da construção da imagem na comunicação corporativa, do discurso ao relacionamento, e entregamos a gestão on-line aos deus dará – como se nós mesmos não estivessémos embedados nesse mundo que há muito tempo deixou de ser um “outro lugar” – mas sim uma extensão de nossa vida real.

Enquanto isso acontece, observa-se o desfacelamento de um modelo off-line (e a perda de relevância da mídia formal está aí para demonstrar) que – por não querermos ou, principalmente, não sabermos enfrentar – serve apenas à uma parcela cada vez menor das necessidades comunicacionais.

Mas o caminho inverso também pode ser verdadeiro (e me incomoda sobremaneira): sob o manto protetor da suposta modernidade, muitas vezes revestimos as tarefas de PR digital em trabalho reservado a uma casta de iluminados que, talvez por dominar termos em inglês que nem ela própria sabe o que significam exatamente, constitue praticamente um exército de alienígenas dentro das agências. Qual a real diferença de um trabalho de relacionamento com players off-line e on-line, por exemplo? Pois é.

A conclusão, óbvia, é que são trabalhos indissociáveis e que precisam caminhar juntos. Há especificidades, evidente, mas no final das contas os caminhos (e as pedras) são bem parecidos.

Por mais que você insista em desvalorizar um ou outro, é inexorável: algo estará sempre faltando se essas estratégias não caminharem juntas e, de preferência, exercidas por times, não por fragmentos que se tenta colar a fórceps.

A narrativa de marca e a construção de uma comunicação de verdade

A fragmentação abriu uma gigantesca janela de oportunidade para se contar histórias. Se por um lado essa descontextualização também é um risco, ofereceu múltiplas oportunidades para a narrativa de marca.

A guerra aos adblockers

A Folha de S.Paulo acaba de anunciar que impedirá o acesso a seu site para usuários que utilizem adblockers, ou seja, os bloqueadores de anúncios que inclusive são ofertados em versão padrão por alguns brownsers.

A medida já vinha sido discutida no âmbito da ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e parte da conclusão lógica que, ao não ser exibida, a publicidade não poderá ser cobrada do anunciante.

Quase simultaneamente a Forbes americana divulgou um estudo que estima em US$ 12 bilhões as perdas dos veículos com essa funcionalidade até 2020.

Aqui cabem duas observações: a primeira, mais preocupante, é o fato de a publicidade ainda jogar esse papel tão determinante na sobrevivência de quem vende jornalismo e tem tanta dificuldade em se reinventar e criar novas receitas.

A segunda: o passo é natural e está longe de ser uma medida desesperada. É apenas mais um dos milhares de furos na tubulação em que o conserto, entretanto, é sempre incerto. É óbvio que é possível burlar esse tipo de iniciativa – e os usuários da rede provaram ano após ano que criar embaraços não é suficiente.