A mídia social refém das efemérides

calendas

Felizmente essa era parece estar acabando, mas a ficha demorou a cair – pensei que trataríamos eternamente a gestão de presença de marcas no Facebook e no Twitter (para ficar apenas em duas das redes mais importantes) como se fossem prioritariamente mera agenda de efemérides inventadas.

Saudar, em nome de outrem, a passagem de datas obscuras, inexistentes e – principalmente – que não fazem parte do dia a dia das pessoas se transformou numa espécie de regra não escrita da mídia social, deixando uma legião de reféns de publicações aparentemente obrigatórias. Obrigatórias?

No fundo, tudo fica parecendo aquela velha agenda de papel Pombo – nos perguntávamos de onde tinham tirado aquele Dia da Dona de Casa, para ficar num exemplo esdrúxulo.

No afã de participar da conversa das redes, criou-se uma disputa quase obsessiva pela lembrança de datas. Neste caso, e falando especificamente do Facebook, há um problema ainda mais grave: com a entrega de conteúdo proporcionada pelo site (no qual um post tem duração média de 36 horas nas timelines), via de regra a “homenagem” é vista no dia seguinte. Ou seja…

Uma boa fatia do caráter júnior que muita gente ainda credita ao trabalho de mídia social diz respeito a essa agenda inútil. Nesse ambiente, o que é realmente importante se confunde com a bobagem – e como a bobagem costuma ter mais capilaridade, tudo desaparece.

Assumindo a hipótese de que esse planejamento editorial visa dar mais visibilidade às presenças digitais, esbarramos em outro problema grave: até que ponto é eficaz abrir o leque atrás de números robustos, permitindo a entrada de gente que pouco ou nada tem a ver com sua audiência?

A burocracia, onde quer que esteja, atravanca os processos. Num ambiente de relacionamento, apesar das convenções, surpreender também é bem-vindo.

Caminhemos juntos

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É impressionante como o PR tradicional, a despeito de todas as ressalvas dia após dia, continua negligenciando a presença digital. Preocupamo-nos com todas as pontas da construção da imagem na comunicação corporativa, do discurso ao relacionamento, e entregamos a gestão on-line aos deus dará – como se nós mesmos não estivessémos embedados nesse mundo que há muito tempo deixou de ser um “outro lugar” – mas sim uma extensão de nossa vida real.

Enquanto isso acontece, observa-se o desfacelamento de um modelo off-line (e a perda de relevância da mídia formal está aí para demonstrar) que – por não querermos ou, principalmente, não sabermos enfrentar – serve apenas à uma parcela cada vez menor das necessidades comunicacionais.

Mas o caminho inverso também pode ser verdadeiro (e me incomoda sobremaneira): sob o manto protetor da suposta modernidade, muitas vezes revestimos as tarefas de PR digital em trabalho reservado a uma casta de iluminados que, talvez por dominar termos em inglês que nem ela própria sabe o que significam exatamente, constitue praticamente um exército de alienígenas dentro das agências. Qual a real diferença de um trabalho de relacionamento com players off-line e on-line, por exemplo? Pois é.

A conclusão, óbvia, é que são trabalhos indissociáveis e que precisam caminhar juntos. Há especificidades, evidente, mas no final das contas os caminhos (e as pedras) são bem parecidos.

Por mais que você insista em desvalorizar um ou outro, é inexorável: algo estará sempre faltando se essas estratégias não caminharem juntas e, de preferência, exercidas por times, não por fragmentos que se tenta colar a fórceps.

Agências de notícias, um raio x

Praticamente 30 anos depois do primeiro trabalho do gênero, a academia brasileira volta a se debruçar sobre o tem em “Agências de Notícias: perspectivas contemporâneas brasileiras”, e-book que já está a disposição para download (ele não é gratuito: em troca exige acesso a informações pessoais de seu perfil no Google e um longo cadastro).

A coletânea reúne artigos de oito autores que pretende traçar uma linha do tempo que vai da estruturação desse tipo de empreendimento jornalístico até o momento atual, no qual pontuam no cenário experiências alternativas (e enviesadas) que de toda forma oxigenaram o formato surgido muito antes da crise do jornalismo tradicional – paradoxalmente, justamente para conter custos e que teve como efeito colateral maligno a pasteurização do conteúdo midiático.

Visite o Webmanario no Twitter!

Se as coisas por aqui, por uma série de fatores, andam um tanto paradas, não é o caso de meu perfil no Twitter – onde sigo falando e compartilhando bastante os temas da revolução da comunicação que se desenrola diariamente diante de nossos olhos. Apareça por lá e também participe dessa conversa!

Redes sociais e ad blockers ameaçam jornalismo tradicional

Uma combinação entre ascensão das redes sociais, migração para o mobile e rejeição da publicidade digital está impactando como nunca antes – como se isso fosse possível – a indústria de notícias e produção de conteúdo tradicional. As descobertas estão em mais uma rodada do relatório Digital News, realizado anualmente pela Reuters.

Desta vez, 50 mil consumidores de notícias em meios digitais foram ouvidos e, entre os resultados, está a espantosa constatação de que nada menos do que 51% deles admitem recorrer às redes sociais para se informar. Um terço dos participantes da pesquisa admite que recorrerá a um ad blocker (bloqueador de anúncios on-line) para se livrar de “visitas indesejadas” enquanto navega.

Mas tem mais: entre os que falam inglês (um mercado ultracompetitivo), só 9% se dizem dispostos a pagar para leer conteúdos – esse número pode até dobrar em países com idiomas menos globais, caso do Brasil.

O relatório completo pode ser consultado aqui.

A narrativa de marca e a construção de uma comunicação de verdade

A fragmentação abriu uma gigantesca janela de oportunidade para se contar histórias. Se por um lado essa descontextualização também é um risco, ofereceu múltiplas oportunidades para a narrativa de marca.

O Spotlight britânico

‘Attacking the Devil’ (disponível na Netflix) é uma espécie de Spotlight britânico. O documentário reconstrói a primeira grande campanha de um jornal do Reino Unido, liderada pelo editor Harry Evans, que revelou a barbárie provocada pela prescrição de medicamentos a base de talidomida, outro triste legado do nazismo.

Evans colocou à disposição do assunto a equipe Insight, editoria de investigação do Sunday Times (ainda hoje o jornal mais vendido do país), para expor ao público os horrores da má-formação de crianças cujas mães se submeteram a tratamentos com o uso da talidomida – então prescrita como ‘milagrosa’ contra os enjoos das primeiras semanas de gravidez.

Disclaimer: Evans é, ele próprio, uma das vítimas (sua filha foi afetada pela substância).

O trabalho do grupo de jornalistas desafiou a justiça britânica, que havia colocado o tema em sigilo – o que impedia, na prática, sua divulgação pelos jornais – e evidentemente chocou a Grã-Bretanha, jogando luz nos procedimentos nada íntegros da indústria farmacêutica.

A propósito, a editoria Insight existe até hoje, colecionando outros grandes furos no currículo.

Os pobres meninos da internet

É assustadora a quantidade de líderes e gestores de marcas (públicas e privadas) que ignoram o que fazem seus “meninos da internet” – afinal de contas, pensam eles, esse trabalho consiste apenas em colecionar memes, distribuir cards alusivos a efemérides desconhecidas e (claro!) entreter o público que recorre a esse meio para se manifestar.

Nesse cenário, basta o primeiro incremento do volume de água no traseiro para começarem as ordens estapafúrdias: metralhadora de posts no Facebook, cards no Instagram, flood no Twitter. Tudo ineficaz, mas a história é sempre a mesma. Num momento de crise, quem dá as cartas no digital costuma ser quem menos entende do assunto.

E por que não entende? Voltamos ao começo deste texto: “É assustadora a quantidade de líderes e gestores de marcas (públicas e privadas) que ignoram o que fazem seus ‘meninos da internet’…”

Quem não tem convívio diário com o digital está cometendo dois erros de gestão de comunicação: o primeiro, mais óbvio, é que ela precisa ser integrada. Não existe ação on-line sem correspondência off-line, ainda que seja apenas (viva!) com a realidade.

Mais do que isso, é nessas “propriedades digitais” (tirando o site oficial, bem sabemos que as propriedades na verdade são de outrem…) que a imagem pública das marcas está sendo moldada mais intensamente – e onde corre mais riscos de sofrer dano.

Enquanto isso, os “meninos da internet” estão lá, desamparados. São lembrados, isso sim, quando viram piada nas redes por terem cometido algum erro.

Tenho orgulho de supervisionar operações nas quais o social media ocupa uma sala contígua à do presidente (ou mandatário) – e o acompanha diariamente em eventos externos e internos. Essa atividade só vai deixar de ser júnior se for tratada com a importância que possui. Não adianta amarrar todas as pontas (mídia, investidores, comunidade) e simplesmente deixar a mais visível delas (e à qual todos os outros públicos têm acesso) ao sabor dos acontecimentos.

A guerra aos adblockers

A Folha de S.Paulo acaba de anunciar que impedirá o acesso a seu site para usuários que utilizem adblockers, ou seja, os bloqueadores de anúncios que inclusive são ofertados em versão padrão por alguns brownsers.

A medida já vinha sido discutida no âmbito da ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e parte da conclusão lógica que, ao não ser exibida, a publicidade não poderá ser cobrada do anunciante.

Quase simultaneamente a Forbes americana divulgou um estudo que estima em US$ 12 bilhões as perdas dos veículos com essa funcionalidade até 2020.

Aqui cabem duas observações: a primeira, mais preocupante, é o fato de a publicidade ainda jogar esse papel tão determinante na sobrevivência de quem vende jornalismo e tem tanta dificuldade em se reinventar e criar novas receitas.

A segunda: o passo é natural e está longe de ser uma medida desesperada. É apenas mais um dos milhares de furos na tubulação em que o conserto, entretanto, é sempre incerto. É óbvio que é possível burlar esse tipo de iniciativa – e os usuários da rede provaram ano após ano que criar embaraços não é suficiente.

Interfaces amigáveis

Grande exemplo do uso de dados na confecção de interfaces amigáveis: um infográfico que mostra toda a atividade da marinha mercante durante 2012, com atenção para dados como produção de CO2 e total de contâineres transportados.