A democracia dos stickers

A comunicação digital é tão dinâmica que nem bem saímos das fraldas dos emojis e já somos atropelados pelos stickers, a última palavra em interação visual dentro de plataformas fechadas de mensagens eletrônicas – que, em bom português, significa WhatsApp.

Assim como o emoji, não é demais imaginar que a cultura do sticker – recurso liberado pela ferramenta em princípios de novembro e que já se transformou numa epidemia entre seus usários – transborde para todas as outras instâncias de comunicação digital.

O passo seguinte, é claro, é sua adoção pelo mundo off-line, aquele em que as “velhas mídias” emulam suas parentes mais descoladas e recorrem a seus recursos em anúncios de revista ou TV, por exemplo.

Mais do que a surpreendentemente veloz adoção, os stickers têm um caráter democrático que o emoji não foi capaz de trazer. Afinal de contas, há um longo processo para a aprovação e disponibilização de um emoji que passa principalmente pela avaliação de uma terceira parte.

O sticker, por outro lado, já nasceu com o DNA do DYU (faça você mesmo). Estão pipocando soluções para sua personalização, o que jogou muito a favor dessa popularização em tão pouco tempo. Não há dúvida de que hoje já se constituem em peças indispensáveis a um bom enxoval de comunicação.

Até a próxima novidade…

A privacidade vai sair do armário

Faço parte do grupo (ainda) restrito de pessoas que creem no retorno da privacidade à moda. Não estamos falando aqui, é claro, dos padrões que nós os quarentões estávamos acostumados antes da explosão da tecnologia.

Há um aspecto irreversível dessa revolução, que é a coleta de nossas informações, o tempo todo e em todos os dispositivos, que em boa medida ainda é a moeda de troca para uma série serviços digitais que pagamos assim, oferecendo dados.

Isso, para o bem e para o mal, não só irá continuar como incrementar. Não tem pra onde fugir: sua TV, seu celular e outros equipamentos domésticos ou públicos (como seu fogão ou o painel de voos do aeroporto) irão te espionar por toda a eternidade tentando decifrar padrões de comportamento (a famosa jornada do consumidor) que signifiquem, posteriormente, oportunidades de negócios e de relacionamento para marcas e pessoas.

Não tenho dúvida, porém, de que a era da superexposição – o turning point que, em algum momento no princípio dos anos 2000 transformou a internet de uma plataforma anônima para outra em que nome e sobrenome passaram a ser obrigatórios – está com os dias contados. Em outras palavras, sair por aí exibindo-se em redes sociais será considerado cafona e pretensioso. Aposto com você.

Por isso falei sobre a privacidade voltar à moda. O termo é exatamente esse: algo que ficou pra trás mas, nada como o tempo, renasce não das cinzas, mas do bolor. A própria moda tem inúmeros exemplos dessa eterna reinvenção de “grandes” novidades. A tecnologia também possui, em menor escala, indicações de que alguns caminhos têm volta – a predileção pelo uso do WhatsApp, uma rede fechada, por exemplo, sinaliza na direção da busca por ambientes menos vigiados.

A questão sobre ausência de privacidade que mais me atormenta em nosso tempo é a qualidade que temos de, voluntariamente, fornecer uma série de informações sem que elas tenham sido solicitadas. Do lugar onde estamos almoçando ao destino de férias, esses dados podem ser tão os mais nocivos quanto os furtos em massa de dados a que todas as semanas tomamos conhecimento.

A privacidade, tenha certeza, vai sair do armário e voltar pras ruas. Essa não é uma tendência para 2019, mas fique de olho.

Os apps e a interação com as pessoas

Um aplicativo, convenhamos, é um produto de difícil aderência como peça estratégica de comunicação digital porque exige, por óbvio, que o público o possua em seu smartphone.

E como você convence as pessoas a baixar uma aplicação?

Há dois meios básicos. O primeiro é oferecer um serviço realmente indispensável (exemplo, Waze). O outro é ir direto ao bolso, acenando com vantagens pecuniárias para quem instalar o app (caso de promoções só acessadas via aplicativo).

Simultaneamente a esse cenário árido, o avanço da tecnologia PWA reabilitou, em boa medida, o app como peça de enxoval de comunicação. Por meio dela, é possível mimetizar na web as funcionalidades de um aplicativo, acabando com downloads e proporcionando ao usuário a mesma experiência, só que web based.

Tudo isso para mencionar um bom podcast da eMarketer que discute precisamente quais são os maiores erros que cometemos na interação com as pessoas via app.

O primeiro vídeo do YouTube

 

Fez anos dias desses: em 23 de abril de 2005, um imberbe Yakov Lapitsky (um dos criadores do site) aparecia em frente à jaula dos elefantes no zoológico de San Diego naquele que se converteu no primeiro vídeo publicado no YouTube – um negócio comprado pelo Google pouco mais de um ano depois por US$ 1,65 bilhão.

Hoje, o site de armazenamento de vídeos conta com mais de um bilhão de usuários diários.

 

Notícias falsas, mas não tão críveis

Estudo de Andrew Guess, Brendan Nyhan e Jason Reifler antecipado pela primeira edição da revista New Yorker em 2018 demoliu mais um mito: o de que as notícias falsas distribuídas via redes sociais em 2016 foram preponderantes para a inesperada (até por ele mesmo) vitória de Donald Trump, enfim eleito o presidente 45 dos Estados Unidos.

Combinando dados de tráfego da internet um mês antes e uma semana depois da eleição a uma entrevista com 2.525 pessoas, o levantamento conclui que 27,4% dos americanos a partir dos 18 anos se depararam com ao menos uma notícia falsa relacionada ao pleito em suas timelines.

A questão é que quase 60% das visitas a sites disparadores de fake news partiu da parcela de 10% que se encontra em posições extremas – à direita ou à esquerda – do espectro político e, portanto, já têm opinião formada.

Uma pesquisa anterior, de Hunt Allcott e Matthew Gentzkow, já havia detectado que cada americano adulto foi impactado por pelo menos uma notícia falsa durante a eleição – entretanto, apenas 8% desse universo acreditou de fato no que estava lendo.

Uma outra descoberta interessante de Guess, Nyhan e Reifler diz respeito aos serviços de checagem de notícias (conhecidos como ‘fact-checkers’). De acordo com o estudo, só grandes consumidores de notícias (logo, pessoas muito bem informadas) costumam ler as verificações disponibilizadas pelos fact-checkers – o que significa que eles não prestam o serviço mais relevante, que é esclarecer os incautos.

Há ainda uma questão importante sobre as fake news e que acabou tangenciada depois que veio à tona a participação russa no que se pode chamar de manipulação da eleição: a notícia falsa impulsionada pelas redes sociais não nasce como tentativa de interferir num processo eleitoral, mas sim com cunho totalmente monetarista – mais visitas representam mais clicks em banners e, portanto, mais remuneração de serviços como o Google Ads.

Desta forma, o recurso não é (principalmente não é, insisto nisso) uma estratégia de pessoas interessadas em influenciar num processo eleitoral, mas sim em anabolizar sua conta bancária. Pense nisso nesse 2018 antes de sair clicando em links por aí.

O fracasso da saga Star Wars

Em agosto de 1980, quando a internet ainda engatinhava e era coisa de falcões e universidades de elite nos EUA, uma crítica de cinema publicada pela revista Manchete (então uma das mais importantes do Brasil, com tiragens próximas a 500 mil exemplares) anunciava ao mundo que a saga Star Wars não teria pique para “emplacar o século 21” como anunciara seu produtor, George Lucas.

A opinião que faria José Haroldo Pereira entrar para a história como péssimo crítico, na verdade, não deveria estar contida na crítica – mais que um juizo de valor, trata-se de uma tentativa de premonição, de adivinhação que não cabe numa análise. É a clássica opinião de bar.

Não é, portanto, uma exclusividade da internet e das redes sociais.

manchete

 

Livrai-nos de todo o mal

“Organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil” e “dar às pessoas o poder de construir uma comunidade e aproximar o mundo”. Diante de tanta coisa errada na atuações dos dois gigantes da tecnologia, é quase impossível não soltar uma gargalhada ao relembrar as missões de Google e Facebook. Noam Cohen discorre sobre a cada vez mais perversa influência desses negócios na vida digital.

Redes sociais e pouco críveis

kantar

No topo, revistas impressas. No chão, as redes sociais. Pesquisa de credibilidade nas notícias feita pela Kantar mostra que os usuários começam a desconfiar mais das informações que recebem via mídia social.

Porém, um problema que faz com que a conta dificilmente feche é que a maioria das pessoas se informa pelas redes sociais. Isso significa que, apesar do desconfiômetro estar ligado, elas estão mais expostas a manipulações.

O Twitter, os robôs e a política

Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP) tenta quantificar uma ação que a cada dia ganha mais musculatura no Twitter: o uso de robôs para influenciar no debate político.

“O estudo tira do campo da hipótese a informação de que todos usam robôs – esquerda, direita e centro – para propagar suas ideias”, diz Marco Aurélio Ruediger, diretor da DAPP.

A constatação do estudo é de que pelo menos 20% das conversações na ferramenta são motivadas ou aquecidas por mensagens automáticas,  representando “uma ameaça real para o debate público, representando riscos, no limite, à democracia”.

A interferência de atualizações automatizadas esteve no cerne da disputa eleitoral de 2016 nos Estados Unidos – que culminou com a eleição do empresário Donald Trump.

 

 

Noções e histórias de um mestre do marketing político

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Meu amigo José Paulo Fernandes-Fafe, com quem tive a sorte de poder trabalhar e aprender, acaba de lançar em Portugal o livro “Marketing político, Noções e outras histórias“, pela Primebooks.

A obra destrincha as aventuras e desventuras do trabalho de comunicação em campanhas eleitorais, muitas vezes demonizado, mas sem o qual seguramente as decisões do eleitorado seriam mais difíceis de serem tomadas. O marketing em si jamais é do mal – mas sim o caminho que alguns profissionais da área preferem percorrer.

Mais do que servir como uma espécie de manual, o livro de Fafe (que, como filho de diplomata, teve o privilégio de conviver com personalidades como Fidel Castro) coloca algumas coisas em seu devido lugar. Por exemplo, a dimensão do profissional de marketing num trabalho como esse – que nada mais do é que conhecer o quanto mais possível as pessoas, seu entorno e contexto e extrair daquilo a linha comunicativa que orientará a campanha.

Para meu orgulho, pude colaborar com um grão de areia falando um pouco sobre o marketing digital e suas aplicações em eleições. Para sorte do marketing político, temos alguém qualificado e ético como Fafe para nos contar sua técnica e histórias impagáveis.