Perguntas sem resposta

“Nenhuma pergunta sem resposta”. A frase, uma espécie de mantra de quem gerenciou comunidades on-line no princípio dos 2000, foi por mais de um década uma espécie de regra não escrita do ofício de administrar a presença e a atuação de marcas e governos em serviços de redes sociais.

Da mesma forma que o avanço da tecnologia e a possibilidade de democratizar o acesso e a distribuição de notícias (por meio do que se habituou chamar de jornalismo participativo), acreditou-se que efetivamente estávamos ingressando numa era da história da humanidade onde todos, graças a dispositivos ao alcance das mãos, transformaríamos o mundo num lugar melhor e mais justo para se viver.

Um mundo em que as pessoas estariam realmente interessadas em compartilhar experiências, em trazer a público indagações legítimas, em registrar fatos do dia a dia sem viés, em fazer parte de comunidades simplesmente por acreditar e querer pertencer, por algum motivo, a um grupo específico.

Nesse cenário, “nenhuma pergunta sem resposta” era a senha para as marcas que tinham decidido descer para o play e brincar. Se você não agisse como um pitbull das redes sociais, perseguindo os usuários em busca de mais um check no gerenciamento de comunidade, estava fazendo aquilo errado.

Mas a era da inocência acabou. O jornalismo participativo se converteu numa voz enviesada e no núcleo principal da distribuição de notícias falsas, e a pressão pela interatividade total se mostrou um equívoco. O motivo: infelizmente as pessoas não tinham só boas intenções ao se relacionar com as marcas. Associado a isso, funcionalidades como a possibilidade de edição de comentários (presente em Facebook e Instagram) transformaram a área de comentários num perigoso e pantanoso terreno.

É triste, mas não é o fim: por óbvio existe (ainda bem!) legitimidade na maior parte dos relacionamentos digitais, mas é evidente que o fim da era da inocência precisou trazer, embutida, uma reorientação estratégica para fugir das cascas de banana que o tempo todo são jogadas para que marcas e governos escorreguem. Assim como a notícia falsa, há a interação falsa, enviesada e com objetivos nada edificantes.

No mundo digitalm, algumas perguntas podem (e devem) ficar sem resposta.

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