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O fracasso da saga Star Wars

Em agosto de 1980, quando a internet ainda engatinhava e era coisa de falcões e universidades de elite nos EUA, uma crítica de cinema publicada pela revista Manchete (então uma das mais importantes do Brasil, com tiragens próximas a 500 mil exemplares) anunciava ao mundo que a saga Star Wars não teria pique para “emplacar o século 21” como anunciara seu produtor, George Lucas.

A opinião que faria José Haroldo Pereira entrar para a história como péssimo crítico, na verdade, não deveria estar contida na crítica – mais que um juizo de valor, trata-se de uma tentativa de premonição, de adivinhação que não cabe numa análise. É a clássica opinião de bar.

Não é, portanto, uma exclusividade da internet e das redes sociais.

manchete

 

Allende, JB e coragem, 40 anos depois

No dia em que a deposição do presidente chileno Salvador Allende completa 40 anos, é sempre bom relembrar a aula de coragem e jornalismo que Alberto Dines, comandante do finado Jornal do Brasil, deu na edição do diário que relatava o golpe.

A notícia sobre a manobra que jogou o Chile num período sombrio com nome e sobrenome, Augusto Pinochet, não poderia ser o título principal da capa do periódico, ordenou a censura pilotada pela ditadura brasileira.

Pois bem, Dines criou o jornal sem manchete.

jb_allende

Fox News, Revolução Islâmica e Carnaval

Pacotão de jornalismo na Ilustríssima (suplemento do jornal Folha de S.Paulo) de ontem.

A melhor do cardápio é um perfil de Roger Ailes e de como ele construiu a Fox News, a TV dos conservadores, mas também dos americanos brancos, interioranos e de baixa escolaridade.

O festival jornalístico do caderno prossegue com o relato do repórter Roberto Feith, que em 1979 cobriu a Revolução Islâmica no Irã e se lembra do idealismo (tragicamente interrompido, diga-se) de sua tradutora, a universitária Nasrin.

Finalmente, e para matar a saudade, um pouco dos bastidores do Carnaval da Manchete – ou de como a publicação de uma revista na quarta-feira de cinzas arruinava a folia dos jornalistas daquela mítica redação da Bloch.

O portal sem manchete

Jornal impresso sem manchete já tínhamos visto (e faz tempo), mas neste último plantão testemunhei o portal de notícias sem título forte _pra mim, inédito.

Sensacional, segue valendo tudo o que falei há três anos.

Domingo é um dia especialmente árduo para o jornalismo on-line, e entregar uma homepage sem algo que pareça artificialmente importante (como a posição da manchete) é transparente e não faz mal ao leitor.

A resposta de São Paulo à capa de O Pasquim

Foi muita coincidência, e não dá pra deixar de falar: no dia em que eu, provocado, relembrava a histórica manchete de O Pasquim “Todo paulista é bicha”, o jornal popular Meia Hora chegava às bancas (a poucas, procurei e não achei) de São Paulo.

O tabloide popular é um sucesso no Rio e, agora, tenta repetir a fórmula na terra do spray (sim, até a garoa evoluiu).

E qual a capa do kit promocional (ou seja, os jabás enviados às redações e formadores de opinião) do jornal? A manchete “Todo paulista é virado“, na verdade uma marmita com o próprio prato, clássico da cidade.

Impossível não morrer de rir.

Esclarecimento necessário: não recebi a quentinha do Meia Hora, mas desejo ao produto muitos anos de vida nestas bandas.

(via @leogodoy)

A arte de publicar um palavrão na manchete com elegância

Chamou a atenção, nesta semana, a manchete de anteontem do New York Post, tabloide nova-iorquino normalmente desprezado.

A novidade era escrever shit (merda, em inglês) recorrendo a símbolos como $, # e !. Graficamente, funcionou bem.

A matéria a que se refere o título é essa aqui (tudo a ver, portanto).

Nós não precisamos de manchetes, não é?

O Webmanario perguntou nas últimas três semanas a seus leitores se um jornal impresso precisa ter manchete sempre. Trocando em miúdos: se é obrigatório, a quem faz jornalismo em papel, determinar que um assunto é mais importante do que outros na construção de uma primeira página.

A maioria absoluta (61%) optou pelas duas alternativas que se complementavam, “Depende: desde que tenha uma informação realmente relevante”, que recebeu 34% das escolhas, e “Não, a manchete é uma convenção. O importante é distribuir bem os assuntos na primeira página”, com 27% _registre-se que a alternativa “Claro, jornal sem manchete está incompleto” alcançou 26% das preferências (“Não sei, nunca tinha pensado nisso” bateu em 13%).

Leia também: Reinventar o jornalismo ou o jornalista?

Quando eu respondo “não” ou “depende” à indagação “um jornal impresso precisa ter manchete sempre?”, eu claramente estou refutando um modelo que vigora desde que o jornalismo é jornalismo. Seria hora da tal da reinvenção?

houve jornal sem manchete, mas era dia 26 de dezembro, pleno Natal. Conta como ousadia, claro, mas reforça bastante a citação do colega Roger Modkovski de que “os jornais partem do falso pressuposto de que todos os dias há acontecimentos a serem noticiados”.

Tudo bem, ousado. Mas porque prescindir de um assunto capaz de chamar mais atenção e, portanto, ser mais promissor como produto?

Tanto é verdade que os jornais não podem navegar ao sabor dos acontecimentos como é mais que sabido que é preciso possuir na agulha material especial/investigativo para tirar o veículo da agenda. São esses os tais “diferenciais” que, além de pautar o jornalismo eletrônico, seguram uma manchete.

Mas ok, a pergunta da enquete _criticada por conter poucas opções e respostas muito fechadas_ era ainda mais existencial. Precisamos viver sob o domínio da manchete? E, além disso, qual a autoridade de quem manchetou?

Vinicius Bruno me lembrou que o “gatekeeping”, ou a escolha do que entra na edição, é meramente subjetivo. Quem é você para me dizer o que é mais importante? “Eu sou o editor, sou preparado e pago para isso, e se o leitor não gostou é porque ele é um idiota”, respondeu, certa vez, Paulo Francis.

Brilhante, mas talvez só Francis tivesse essa autoridade _acho que nem ele.

A semana de reflexão sobre o aconteceu ontem termina hoje. Foram dias de intenso debate e troca de informação. Em todas as frentes on-line.

Onde, aliás, esta conversação prossegue.

Nada mais desatualizado do que o jornal de hoje

Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, escreve hoje em sua coluna no jornal impresso sobre um fenômeno trazido com o avanço tecnológico: mais e mais leitores, enfim, “descobriram” subitamente que o jornal de hoje é feito, na verdade, ontem.

Silva ilustra sua tese com frases que recebe diariamente do público consumidor do periódico, como as que se seguiram à manchete “Avião com 228 a bordo some no mar no trajeto Rio-Paris”, que dava o mesmo tratamento noticioso, na última terça-feira, a uma informação amplamente conhecida desde as primeiras horas da manhã do dia anterior.

Leia também: Aconteceu ontem – Alguns escritos sobre o estado do jornalismo impresso

“A manchete seria boa em 1921 [ano de fundação da Folha] quando não havia TV e internet. Hoje, parece mais um jornal de ontem. Todo mundo já sabia” e “A manchete principal da Folha de hoje explica por que o jornal impresso está, cada vez mais, perdendo espaço para outras mídias” foram algumas das manifestações.

É um novo dilema de uma velha mídia: como o produto concebido para ser o registro histórico do dia que passou conseguirá ser atraente para um público que, não bastasse a possibilidade de se informar em tempo real, o faz sob demanda e ao alcance de um clique.

Há saídas, todas ousadas e arriscadas _como a própria não obrigatoriedade da manchete, motivo de enquete neste site (aliás, clique no link abaixo e dê a sua opinião sobre o assunto).

Vamos tratar bastante do tema nesta semana no Webmanario.

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

A primeira página

Quer ver a capa de hoje de cerca de 500 jornais pelo mundo? Este é apenas um dos recursos que o Newseum tem. Essa aí de baixo é do Yedioth Ahronoth, de Tel-Aviv (Israel). Juro.

Capa do Yedioth Ahronoth, de Tel-Aviv