De volta ao planeta off-line

Acabo de saber que o repórter Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, encerrou as atividades de seu blog no site do jornal por considerar “praticamente impossível conciliar reportagem investigativa com o abastecimento de um blog”.

“A investigação jornalística exige tempo, sigilo, dedicação e concentração. Uma só reportagem demanda, às vezes, duas ou três semanas de trabalho. Nesse período, o repórter precisa se manter focado na pauta, o que exclui outras atividades”, justificou em seu último post. Hmmm…

Engraçado que acabo de dar um bom exemplo de uso da rede (a história do egípcio Ahmed Daher, abaixo) e me cai no colo esta, que é precisamente o oposto.

Repórteres de papel ainda não entenderam que, por trás do palco e do holofote do blog, existe uma comunidade criada por eles mesmos em torno dos interesses e temas presentes em seus cotidianos. E que esta comunidade, se tratada com reciprocidade e respeito, é capaz de ajudá-los nas investigações jornalísticas mais espinhosas e trabalhosas.

Vaz deixou o mundo on-line vociferando contra o que chamou de “verdades apontadas por blogueiros”, a quem acusou de “sair copiando tudo o que outros colegas fizeram de bom naquele dia” _copiando? Mas meu deus, a plataforma blog pressupõe que se mostre o que a blogosfera está dizendo sobre os mesmos assuntos que você, criatura!).

O repórter volta ao planeta off-line questionando uma suposta limitação sobre o tamanho dos textos _não há consenso sobre isso no meio_ que era obrigado a redigir no blog. “O leitor do blog também espera notas mais curtas, com informações quentinhas. Ele não quer nem mesmo rolar a tela. São três ou quatro parágrafos, no máximo.” E critica o caráter opinativo da blogosfera (“Também não gosto de fazer comentários. Prefiro levar a informação ao leitor, para que ele tire as suas conclusões).

Ninguém é obrigado a blogar, evidente. Mas há conceitos dentro do ambiente on-line que não podem ser reduzidos a comparações com o bom e velho papel. Se fizessemos o oposto, pobre papel, não?

Com a saída de Vaz da rede, perde o público. Ele, porém, perde infinitamente mais.

7 Respostas para “De volta ao planeta off-line

  1. Concordo com a sua análise.

  2. “acabo de dar um bom exemplo de uso da rede (a história do egípcio Ahmed Daher, abaixo) e me cai no colo esta, que é precisamente o oposto”

    Se habitue. Uma coisa não invalida a outra. Termos hoje um jornalismo de gatilho rápido, hipoteticamente participado, quase sem mediação, com djeeing de notícias, não obsta a que se façam matérias de investigação que duram 1, 2, 3 semanas.

    Por outro lado, pense nisto. Não discuto que Vaz perde. Mas pense no que ganha. No tempo que ele ganha.

  3. Paulo,

    Acho que o erro foi tomar o blog como uma coluna informativa nos moldes do jornal papel. O ato de blogar é que se tornou hercúleo por uma imposição que não é exatamente uma exigência de sua plataforma.

    A possibilidade de reunir pessoas off-line é irremediavelmente mais pobre…

    abs

  4. Caro colega

    Sei o quanto perco com o fim do blog, mas o amigo acima lembra bem: vou ganhar tempo. O fato é que eu não estava conseguindo fazer bem as duas coisas (blog e jornal). E sou exigente comigo mesmo. O fundamentel para mim são as reportagens especiais que publico no Correio. O texto de despedida pode ter um pouco do ranço de um velho escriba, ou de um “repórter de papel”. Fazer o quê? São 30 anos de hábito. Comecei a escrever nos verdes anos. Um abraço!

  5. Lúcio,

    Entendo perfeitamente sua ligação com o papel. A minha vem de longe (não de tão longe, é verdade), são 15 dos 18 anos nesta profissão. Somos da tinta, não tem jeito.

    Somos de papel, sim. Mas é que as novas mídias podem fazer tanto pelo aprimoramento dele que, hoje, considero uma boa dose de atividade on-line também indispensável para o exercício da reportagem investigativa em produtos impressos.

    Tenho certeza de que você voltará.

    abs e sucesso

  6. Companheiro,
    O blog é bem diferente do trabalho realizado pelo Lucio, se nao o bem conhece nao atire dessa forma, muito mais que um blog que parte de pressupostos virtuais, o senhor Lucio, convalida as informações que lhe chegam, nao as publicando de imediato transformando num disse-me-disse. Acompanho o mesmo ha um certo tempo, e vejo credibilidade em suas pontuações e nao meras expectativas de possibilidades… enfim, blogeiro é blogeiro

    • Profeta,

      Concordo contigo e até já conversei com o Lucio sobre o tema. O objetivo deste texto foi provocar a repórter a continuar exibindo o brilhante trabalho que desempenhou na web.

      abs

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