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Sujar a cidade e ganhar a eleição

Lembram de Virginia Reginato, a Tia Coty, prefeita de Viña del Mar (Chile) que patrocinava um blog jornalístico crítico dos candidatos que sujavam as cidades do país na campanha política (sem citar Virginia, a porcalhona-mor disparado)?

Pois bem: ela se reelegeu para um período de mais quatro anos à frente da belíssima cidade litorânea com uma votação recorde de 79% _a maior obtida por um prefeito reeleito no Chile.

Na comemoração, champanhe demi-sec e frases do tipo “o importante é ganhar”.

Êlaiá…

O jornalismo enxerga mas é cego quando quer

Os blogs ditos jornalísticos não conseguem, muitas vezes, se livrar das mesmas mazelas que afligem a imprensa tradicional. Como patrocínios e apoios que, se não posso apontar como suspeitos, cravo como aqueles do tipo que inviabilizam a credibilidade de qualquer um _e, lembrem-se, a credibilidade é a principal moeda do jornalista.

Vejamos o caso do jornalista chileno Raúl Gutiérrez, que escreve na Web sobre as coisas da “Grande Valparaiso”, como ele define em seu blog.

Valparaiso, para quem não sabe, é a cidade do coração dos chilenos. Foi aqui que o maior expoente literário do país (e um dos mais importantes do planeta), Pablo Neruda, concebeu boa parte de sua obra. Está à beira do oceano Pacífico, com andorinhas, pelicanos e outras aves cantando, voando e se alimentando o dia todo. É, ainda, a cidade dos “ascensores”, funiculares que fazem o transporte público ao topo das dezenas de morros densamente habitados que a cercam.

Pois bem, voltando a Gutierrez: seu blog, que trata de temas do cotidiano de cidades como Viña del Mar, uma conurbação com Valparaiso metida à besta (com direito a cassino municipal incluído), tem no topo um banner da prefeitura da cidade onde está estampado o rosto (por sinal, onipresente na cidade) da prefeita Virginia Reginato _blogueira “oficial” da municipalidade que só se licenciou da rede porque concorre à reeleição no pleito que aqui se realiza no dia 26 de outubro.

Esa eleição, por sinal, faz a gente sentir orgulho de iniciativas como as que varreram a propaganda incômoda das ruas de São Paulo. Por toda parte, o que se vê são panfletos, bandeiras e abomináveis cartazes colocados em cada esquina.

O blog de Gutierrez registra isso, via texto de outro jornalista, sob o adequado título de “Chile convertido en  un chiquero“, que dispensa tradução. Mas não cita “Dueña” Virginia, que aparece em dois de três tipos de qualquer sujeira eleitoral que você possa imaginar.

Virginia Reginato, prefeita de Viña del Mar, no Chile, emporcalhou a própria cidade

Virginia Reginato, prefeita de Viña del Mar, no Chile, emporcalhou a própria cidade

Daí eu, que cheguei agora por aqui e, algumas horas depois, cansado de tanto ver a cara da alcadesa (o nome em espanhol é belíssimo, vai…) em todas as esquinas procuro um blog local para conhecer o que se fala nesta cidade e descubro que quem transformou o Chile num chiqueiro foram os outros candidatos, não a prefeita Virginia _que não é citada no texto publicado num blog que fala sobre o cotidiano da cidade gerida por ela e que, curiosamente, é patrocinado pela dita cuja.

Em jornalismo, não basta ser honesto. Tem de parecer honesto também. Sempre.

Mejor no hablar de ciertas cosas

Ignacio Chehade, diretor do blog jornalístico chileno Cuarto Poder, escreve ao Webmanário para contestar o post “O marasmo político chileno e a blogosfera deles“, publicado neste espaço no sábado. Curiosamente, ele se dirige em inglês _revelador do ponto de vista do abismo que separa o Brasil da América Latina (podemos conversar em espanhol-português sem problemas, não?)

Diz Chehade que não é “exatamente assim” minha análise sobre o momento político chileno (ontem foi o aniversário de 20 anos do plebiscito que sacou o general Augusto Pinochet do poder). Porém ele toca exatamente no ponto que observei: fala que, “para as novas gerações”, acostumadas a viver num país democrático, tudo o que diz respeito ao passado serve apenas para provocar “divisão social e raiva”. “É por isso que, para tratar de um tema irracional como a raiva, optamos por deixar o passado pra trás”, ele diz.

É bem por aí. Se pudessem, os chilenos apagariam os anos entre 1973 e 1988 da história.

Os jornais em papel seguem essa toada: o diário El Mercurio, o principal do país, relatou hoje a comemoração (que reuniu cerca de 80 mil pessoas no estádio Nacional, de triste memória _na ocasião do golpe, o recinto foi usado como campo de concentração, prisão e tortura) com uma foto no meio da primeira página e um texto interno discreto que destaca o chamamento da presidente Michelle Bachelet à manutenção da Concertación (a aliança de centro-esquerda que sacou Pinochet do poder).

É que por ora há um candidato independente, Sebastián Piñera, da RN (Renovación Nacional). Ele sim, atira para todos os lados e toca numa ferida nítida para um visitante temporário, como eu: a escalada da violência (a criminalidade é real hoje no Chile) e também da inflação (só no mês passado, o principal índice de preços ao consumidor subiu 1,1%).

Hoje, passeando pelo Palacio de la Moneda, foi possível perceber ainda as grades que, ontem, protegeram o prédio presidencial (bombardeado no golpe de 11 de setembro de 1973 e onde Salvador Allende, o presidente legal, se suicidou) de eventuais protestos.

Não, eles não ocorreram. Pior: o que deveria ser a celebração da vitória do “não” na votação de há 20 anos virou ato de campanha de milhares de postulantes às vagas de alcalde (prefeito) e concejales (vereadores) das 34 comunas (municípios) que formam a capital chilena.

O passado, efetivamente, ficou para trás.

O marasmo político chileno e a blogosfera deles

O dia 5 de outubro também tem, a exemplo do Brasil, uma importância histórica para os chilenos (país onde estou desde hoje, e até o dia 9, antes de seguir viagem a Buenos Aires). Prometi que ia falar um pouco mais de jornalismo e comunicação nos tempos de Internet nestes países, né? Então lá vamos nós.

Amanhã completam-se 20 anos que o povo do Chile deu um rotundo não à ditadura do general Augusto Pinochet, que governava o país com mãos de ferro desde 1973 à custa de muito sangue e da morte do presidente legalmente constituído, Salvador Allende _para nós, a data marca os 20 anos da promulgação da atual Constituição (motivo de orgulho ou de muxoxo? Sei não…)

Pois bem: a política ainda é um tema tabu no Chile. Basta virar os olhos para a blogosfera. O maior diretório de blogs do país apertado entre o Pacífico e os Andes não aponta uma única bitácora sobre o tema (nem o blog jornalístico mais engajado, o Cuarto Poder, parece se ocupar como deveria do tema). Estranho, não? Nem tanto, ainda mais se levarmos em conta que, desde Pinochet, política é um assunto resolvido para os chilenos.

Resolvido graças à Concertación, aliança de centro-esquerda criada para enfrentar a ditadura e que, desde o citado  plebiscito de 1988 (que negou a Pinochet a possibilidade de permanecer no poder, propiciando eleições livres), ganhou absolutamente todas as disputas eleitorais (dos concejales _os vereadores deles_ à presidência).

Até hoje, escreve o diário local La Tercera neste sábado, o plebiscito influencia o comportamento do eleitor chileno. Aqui, a questão segue sendo dizer apenas “sim ou não”. E os candidatos da Concertación têm recebido o polegar afirmativo há duas décadas, numa letargia de discussão de propostas que desemboca na mais modorrenta previsibilidade eleitoral.

Mais triste para a oposição (e este blog, que parece saído da década de 70, revela bem esse sentimento) é a
constatação de que os sucessores de Pinochet seguiram ipsis litteris sua cartilha na condução da economia, para alguns estudiosos um ponto fundamental no salto qualitativo que deve levar a nação ao Primeiro Mundo em mais uma década, quando o plebiscito que sacou o general completará 30 anos e, provavelmente, a dominação da Concertación também.