Arquivo do mês: outubro 2008

O fim do jornalismo em debate

Vários textos legais e com discussões bacanas sobre os próximos passos do jornalismo já estão disponíveis na página oficial da conferência que discutiu o tema na Universidade de Bedfordshire, na Grã-Bretanha (todos em inglês).

Textos como o interessante “O futuro da objetividade“, que questiona precisamente esse paradigma do jornalista.

Destaco ainda o trabalho de Paul Lashmar sobre a crise das hipotecas nos EUA (o subprime). De seu ponto de vista, o caso foi, mais que um fracasso de instituições financeiras, um fiasco da reportagem investigativa _incapaz de localizar o problema e alertar seus leitores.

A questão do diploma e os jornalistas militantes

A discussão sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo segue rendendo pano pra manga. O STF está na iminência (a quantos meses tenho escrito isso, meu deus?) de julgar a matéria.

A primeira coisa que me chama a atenção hoje, anos após o início da pendenga, é que a maioria das vozes que se levantam para discutir o tema _sejam elas de sindicalistas ou de acadêmicos_ partem seguramente de pessoas com minúscula atuação prática na área.

Alguns, mesmo com pequeníssima passagem por algo que se assemelharia a uma redação, batem no peito, posam de especialistas, dão sugestões e conselhos ao debatores. Coitadinhos.

Também concordo que a Fenaj, por pior que seja constituída sua diretoria (uma cambada de barnabés que mamam nas “assessorias” de órgãos públicos), deveria capitanear o processo de regulamentação e fiscalização da profissão.

Afinal, foi o desinteresse dos jornalistas militantes (não os de meia-pataca, de biblioteca ou de repartição pública) que propiciou o estabelecimento desta desordem vergonhosa que hoje representa os jornalistas brasileiros.

Talvez, com uma missão de verdade à vista, os processos eleitorais e de gestão dentro da Fenaj sejam encarados com seriedade por quem dedica seu dia ao trabalho jornalístico de verdade _os que metem a mão na massa, não os que vêem a massa em cima da mesa e, de barriga vazia, desandam a criticá-la sem propriedade alguma). Eu me incluo na crítica: sempre, em 18 anos de profissão, me recusei a participar dos pleitos da entidade nacional, mesmo tendo mais de uma década como profissional sindicalizado e em dia com suas obrigações financeiras _que é o que, no fundo, importa a estas instituições.

Pior é a própria Fenaj, que nesta segunda distribuiu nota aos professores de jornalismo brasileiros com o título cafona “Aos mestres, com carinho”, no qual insinua que sempre esteve por trás de projetos que visam melhorar a qualificação do ensino da disciplina. Outra mentira.

Repito aqui: o ensino de jornalismo nada tem a ver com a exigência ou não de um diploma para exercê-lo. Eu, assim como muitos de vocês, quero uma faculdade melhor, preocupada com a discussão acadêmica sim, mas dona de recursos humanos capaz de gerir as necessidades técnicas do ensinamento deste trabalho.

Quando publicitário tenta imitar jornal, o resultado é sempre uma catástrofe

Só hoje, lendo a coluna de Carlos Eduardo Lins da Silva na Folha de S.Paulo, fiquei sabendo do auto-atentado contra a credibilidade jornalística perpetrado pelos três grandes jornais brasileiros na semana passada (Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo), que colocaram suas capas (inteiras, sob um constrangedor esclarecimento “capa promocional”) a serviço de um anunciante.

Consultei os alfarrábios aqui (sabiamente, os jornais durante a minha ausência foram “arquivados” na portaria do prédio) e fiquei estarrecido. O pior é que se trata de uma discussão muito antiga. É impossível que pessoas com experiência nesta profissão desconheçam o estrago que esse tipo de publicidade pode provocar entre seu público leitor.

Por isso, vou me prender a outro aspecto da questão: é bem verdade que a publicidade garante a tão decantada independência dos veículos jornalísticos, mas se torna ridícula quando tenta imitar o jornalismo. Falo especificamente do anúncio do Banco do Brasil que ofensivamente buscou, a exemplo de outras tantas peças desastradas desse tipo na história, imitar a primeira página dos dois principais jornais brasileiros.

Publicitário mal sabe fazer anúncio, imagine jornal. Se Estado e Folha fossem diagramados da forma como aparecem no anúncio do banco estatal, não passariam de jornalecos de fundo de quintal. Ali está tudo errado, e neste momento falo apenas do ponto de vista gráfico: fontes equivocadas, entrelinha incompatível, brancos insuportáveis em títulos, texto sem título, enfim, toda sorte de absurdos.

Nem entro no mérito do texto, porque afinal de contas ele não é jornalístico mesmo (apesar de os publicitários terem se achado o máximo ao pensar que estavam fazendo um lide).

Este novo episódio de subserviência dos jornais à publicidade também serve a nós, que estamos estudando mais de perto os projetos gráficos e suas implicações, como um ótimo exemplo de coisas a não serem feitas jamais se estivermos pensando em bom jornalismo. E me arriscaria a dizer aos publicitários que eles também, se estiverem pensando em boa publicidade, ou precisam riscar essa fórmula da caderneta ou aprender a fazê-la.

Churrasco, jornalismo e futebol

Nicolás Scheck, Adhemar Valles, Alec Duarte e Raul Tavani no Los Leños, em Montevidéu

Nicolás Scheck, Adhemar Valles, Alec Duarte e Raul Tavani no Los Leños, em Montevidéu

Tirando eu, esta aí de cima é verdadeiramente uma mesa de notáveis. No sentido horário, da esquerda para a direita, Nicolás Scheck (um dos herdeiros do jornal uruguaio El Pais), Adhemar Valles, diretor adjunto do jornal, e Raúl Tavani, o mais brilhante cronista esportivo do país.

Juntos compartimos um assado no clássico Los Leños, em pleno centro de Montevidéu, numa conversa de horas temperada com jornalismo e futebol.

Falamos das tiragens dos jornais brasileiros _os hoje modestos 300 mil da Folha de S.Paulo (para quem já vendeu 1 milhão de exemplares nos anos 90), por exemplo, são demasiado para os padrões uruguaios. o El Pais só anabolizou suas vendas com uma série de fotografias históricas compradas de um arquivo independente e “esquecido”. Hoje, este suplemento semanal é coqueluche por estas bandas (por sinal, outro dia recusaram-se a me vender o jornal numa banca porque a coleção de fotos já tinha acabado…).

Cidade 12 vezes menor que São Paulo, Montevidéu tem, além do El Pais, mais dois jornais, os tablóides El Observador e La República. É evidente que, pelo próprio tamanho do país, todos eles são nacionais. Apesar disso, meus companheiros de churrasco acham que falta concorrência no mercado.

Pode ser uma opinião de quem veste demasiadamente a camisa, mas de fato o El Pais parece anos-luz à frente de seus competidores diretos.

Do jornalismo, a conversa foi para o futebol. E como não relembrar casos do goleiro Manga, que defendeu o Nacional (um dos dois maiores clubes uruguaios) na década de 70 e até hoje é considerado um dos maiores ídolos da equipe. Manga não pagava nem o combustível do carro. Parava nos postos, pedia para encherem o tanque, dizia “eu sou o Manguinha” e ia embora. Todo um personagem…

O final ideal para a turnê sul-americana deste blog, que a partir de agora volta a se ocupar de temas nacionais.

Senac também “ensina” jornalismo agora

No meio da discussão sobre a exigência ou não de um diploma específico na área para se trabalhar em jornalismo (que o STF está na iminência de julgar), agora é o Senac quem oferece o curso de graduação na área, a ser cumprido em quatro anos.

Segundo a instituição, seus formandos serão aptos a trabalhar em “jornais, revistas, editoras, portais e sites de jornalismo e entretenimento, redes de televisão, departamentos de comunicação de empresas, assessorias de imprensa, redator autônomo”.

Uma seleção de blogs jornalísticos uruguaios

Deixo hoje três dicas de blogs jornalísticos uruguaios que, de alguma forma, têm contribuído com o debate dos assuntos de maior relevância nacional.

O que mais me chamou a atenção, por ser pícaro e raivoso, é o Cursos Paralelos. Sempre que pode, bate na grande imprensa e nos jornalistões.

Os outros dois se ocupam mais de opinião e informação geral: Bustismos e Actualidad Uruguaya.

Para ler e pensar.

Quando o público manda um recado ao jornalismo

Algumas situações nos surpreendem mesmo depois de anos militando no jornalismo _no meu caso, desde 1990 (ou seja, 18 anos ininterruptos de trabalho em redações) e colocam em xeque essa coisa muitas vezes libertária que leva jovens à faculdade com o ideal de “melhorar o mundo e defender os oprimidos”.

A questão é quando o público (nosso leitor) não quer que o mundo melhore nem que os oprimidos sejam defendidos. Agora aqui no Uruguai está acontecendo uma situação exatamente assim.

Na sexta-feira, David Martins, 27 anos, suspeito apenas por “rodear” comércios de uma rua suburbana de Montevidéu (depois, descobriu-se, tinha uma longa folha corrida desde 2001 com assaltos, furtos e tráfico de drogas) foi morto dentro de uma viatura policial por estrangulamento. É a manchete dos jornais sérios, como o El Pais, desde então.

Resumidamente: Martins foi abordado por um carro de polícia nas proximidades de um cybercafé, discutiu com os policiais, cuspiu na cara de um, bateu na cara de outro. Eram 17h40. Menos de um hora depois, na porta do Hospital Filtro (aliás, palco de uma tragédia em 1994 quando dois manifestantes morreram durante um protesto contra a extradição de espanhóis acusados de pertencerem ao ETA), foi constatada a morte de Martins. Segundo os oficiais, ele teve um mal súbito e desmaiou, mas a autópsia confirmou o estrangulamento.

Já são cinco os policiais presos pelo crime e, agora, surgiu um novo personagem na história: o patrulheiro Javier Arenaza, que deu a cara para bater e denunciou seus colegas pelo crime. Nem preciso dizer que ele já foi ameaçado de morte diversas vezes e virou um herói na imprensa local.

Porém a reação das pessoas (sejam os vizinhos ao local do crime, sejam leitores, telespectadores, ouvintes ou usuários) é, a princípio, a de apoio aos policiais acusados pela morte do desajustado. “Eu pagaria para que a polícia reagisse assim sempre que somos roubados”, disse uma comerciante.

O espírito é, de certa forma, o mesmo que tem sido demonstrado nas seções de cartas dos jornais e fóruns na Internet. Há um entendimento generalizado de que a polícia foi agredida e de que David Martins “teve o que mereceu”.

Diante de situações assim, você se pergunta se o jornalismo existe realmente para promover justiça social e defender “os oprimidos”. É o que o público quer?

O jornal que virou sorvete

Surpresa na chegada a Colonia del Sacramento, cidade fundada em 1680 por portugueses numa região que, bem depois, viraria o Uruguai: o pequeno jornal local, La Colonia, que existe desde junho de 1901, se prepara para o verão e anuncia seu ingresso no ramo… das sorveterias.

Isso mesmo: dona do único periódico da cidade histórica de cerca de 120 mil habitantes que gravita em torno de Buenos Aires (fica a apenas uma hora de ferry de Puerto Madero, e por isso os argentinos dominam a paisagem aqui), a empresa jornalística estréia agora no comando de uma das principais sorveterias da cidade à beira do Rio da Prata e que fervilha no verão.

Os sorvetes se somam agora, além do jornal, aos negócios de impressão (esse sim, normal e absolutamente dentro do que se poderia imaginar), livraria e papelaria. Pelo jeito, o La Colonia quer dominar o mundo…

O mais curioso é que tudo funciona no mesmo endereço, um pequeno prédio de três andares. Lá em cima é a gráfica, a redação (minúscula) fica no andar intermediário, e agora livraria e papelaria coexistem com a simpática lojinha de sorvetes, que só não provei porque faz algum frio aqui por estas paragens.

Espera-se que o “helado” seja melhor do que o próprio jornal, cuja manchete da edição desta terça-feira relata o drama do garoto Santiago, que sofre de uma doença rara e conseguiu, após um rega-bofe beneficente organizado num clube local, reunir o dinheiro necessário para ser operado na Argentina.

Esse mesmo convescote, por sinal, rendeu outra notícia ao jornal: uma briga nas cercanias do clube terminou em tiroteio e morte do marinheiro Alcides Soto, algo raro na capital nacional das multas de trânsito (Colonia é, disparado, o município uruguaio que mais arrecada com infrações de trânsito).

O dinheiro das multas, por sinal, será muitíssimo bem aplicado, segundo o prefeito Walter Zimmer: a avenida General Flores (onde fica a redação-gráfica-papelaria-livraria-sorveteria) ganhará os primeiros semáforos da cidade. Promessa é dívida!

O diploma de jornalista na Argentina. Que diploma?

No momento em que o STF está na iminência de votar a obrigatoriedade (ou não) de um diploma específico para o exercício do jornalismo, e aproveitando que sigo aqui pela Argentina, procurei consultar jornalistas amigos para saber como a questão é tratada aqui.

Pasmem: para ser jornalista na Argentina não é preciso nem sequer um diploma universitário. Isso mesmo, qualquer um, de qualquer área. Basta, apenas, comprovar que se trabalha (ou se trabalhou) na profissão, inclusive em atividades correlatas _como diagramador ou fotógrafo, por exemplo.

Radical demais, mas não deixa de colocar uma boa pitada nesta discussão. Afinal, que atire a primeira pedra quem considera _e pode sustentar essa opinião com argumentos sólidos_ o jornalismo brasileiro superior ao argentino. No mínimo, diria que estão no mesmo nível (sendo benevolente conosco, para dizer a verdade).

O fato de não existir exigência de diploma não significou o fim da carreira como uma disciplina acadêmica, pelo contrário. No país, há centenas de opções de cursos (que duram os mesmos quatro anos que os cursos brasileiros). E estas faculdades estão cheias de gente em busca de informação que possa auxiliar seu trabalho futuramente nas redações.

Entrementes, no Brasil, a Fenaj segue sua campanha pró-diploma sustentada no fragilíssimo pilar da regulamentação.  Ora, a regulamentação nada tem a ver com o diploma em si, mas sim com metodologias de acesso e controle profissional que muito bem poderiam ser supridas por um órgão que fiscalize as práticas dos jornalistas militantes (especificamente no campo da ética).

Como vimos, as faculdades de jornalismo não acabaram nem perderam alunos apenas porque um diploma não é necessário para se trabalhar na profissão. O caso argentino prova isso e derruba mais uma das bobagentas argumentações dos que defendem a obrigatoriedade de um pedaço de papel para exercer esta função altamente técnica.

A garota se tornou mais famosa do que a mala

Maria del Luján Telpuk, ex-agente aeroportuária, descobriu mala de dinheiro que colocou o atual governo argentino em maus lençóis

María del Luján Telpuk, ex-agente aeroportuária, descobriu mala de dinheiro que colocou o atual governo argentino em maus lençóis

Já é clássico no jornalismo: uma notícia pode ganhar ainda mais interesse se um de seus protagonistas é, digamos, interessante de se ver.

A Argentina assiste a apenas mais um exemplo dessa máxima. Aqui, a ex-agente policial aeroportuária María del Luján Telpuk se transformou numa celebridade não apenas por ter sido a responsável pela apreensão de uma mala com US$ 800 mil no aeroporto Jorge Newberry (o Aeroparque), em Buenos Aires, em agosto do ano passado _o dinheiro, presumivelmente, tinha sido enviado pelo governo venezuelano para a campanha de Cristina Kirchner, que acabou eleita presidente argentina.

A última de Telpuk (que foi capa da Playboy local em fevereiro e virou dançarina de palco da versão argentina do “Patinando com as Estrelas“) reverberou na imprensa local. Ela acusa o FBI de chantageá-la a mudar seu depoimento e vincular o empresário Guido Antonini, que viajava ao lado de outras pessoas no pequeno avião com a valiosa bagagem, ao venezuelano Franklin Durán, detido e processado nos EUA sob a acusação de atividades ilegais de espionagem a serviço do governo de Hugo Chávez.

Segundo a ex-policial (que hoje também trabalha numa empresa privada de segurança, conforme revelou anteontem num programa popular da TV local), os agentes norte-americanos lhe ofereceram “um emprego de modelo numa das mais importantes agências de Miami“. Telpuk bateu o pé e não mudou suas declarações.

Qualquer coisa que a dublê de modelo e agente de segurança diga ou faça ganha grande repercussão local. Nessas ocasiões, seu lindo rosto estampa páginas dos diversos jornais portenhos (só para lembrar: apenas nos últimos seis meses, Buenos Aires ganhou mais dois diários pagos em papel, um movimento certamente sem precedente no mundo).

A “garota da mala”, como ficou conhecida, eclipsou o próprio escândalo político por trás do incidente e que colocou os governos dos EUA e da Argentina em confronto.