Lições do NYT no Twitter

Ainda hoje, passados nove anos, o uso do Twitter em empreendimentos jornalísticos ainda gera dúvidas. Paradidgma em tudo o que faz, o New York Times compartilhou algumas certezas (e incertezas) sobre essa rede social tão jornalística quanto tempo real – a minha favorita, com o Pinterest bem de perto.

Primeiro mito: o NYT não interage com críticas. Elas ficam lá, sem resposta, numa atitude tão… antissocial!

Segundo mito: muitas vezes o título original publicado no site funciona melhor do que uma versão adaptada para o ambiente de 140 caracteres.

A reflexão toda foi publicada pelo NiemanLab.

O fim das entrevistas na portaria

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Abro o jornal e me deparo com a seguinte notícia:

“O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, instruiu os seguranças do ministério a não permitir que repórteres, fotógrafos e cinegrafistas fiquem na portaria do prédio durante a sua chegada.”

Notícia?

Por que diabos isso deve ser comunicado ao público? Talvez para que ele saiba as condições precárias em que a notícia muitas vezes é obtida?

Entendo ainda que a determinação do ministro possa ser vista como um cerceamento ao exercício da profissão. Mas não é o caso, obviamente.

As relações entre fonte e jornalista precisam de algumas mínimas regulamentações de convivência. É salutar.

A pré-história do jornalismo on-line

Em 1993, um e-mail registrou os jornais americanos que possuíam versões eletrônicas (nada mais do que o conteúdo impresso convertido em DOS para BBS). Eram apenas 22 – sem o The New York Times.

Uma bomba na redação – 37 anos antes do Charlie Hebdo

O ataque ao Charlie Hebdo não foi o primeiro a uma publicação, digamos, satírico-anarquista. Em 1977, a sede da revista espanhola El Papus (em muito parecida com o semanário francês) foi palco de um atentado a bomba quando ocorria a reunião de pauta (outra semelhança). O zelador do prédio morreu e outras 17 pessoas ficaram feridas.

Não houve condenados pelo crime, atribuído a um grupo de extrema-direita que já havia feito ameaças a jornalistas da publicação – lembremos que a Espanha recém havia saído dos sombrios 40 anos de ditadura sob as mãos de ferro de Franco. Um cenário onde a intolerância grassava.

O documentário “El Papus, anatomia de um atentado“, revisita esse clima de terror, tenta explicar o porquê da impunidade e, especialmente, reverencia a irreverência da publicação, capitaneada pelo trabalho de talentosos cartunistas (como o jornal francês). A El Papus acabaria fechando as portas em 1986.

“Como não sabiam desenhar, tinham de usar uma arma. Dizem que a caneta tem mais poder que a arma. Claro que não, a arma é mais poderosa”, diz um entrevistado a certa altura.

Profético.

Charlie Hebdo eterno

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Os criminosos que perpetraram a chacina do semanário francês Charlie Hebdo, que inspirou gerações de jornalistas-cartunistas pelo mundo (como a nossa turma de O Pasquim), não sabem o que fizeram.

Na tentativa de calar, notabilizaram e globalizaram uma mensagem que tem o desprendimento, muito antes da liberdade, como o maior trunfo.

Mais Charlies Hebdos virão. E o original ingressou numa santificada galeria. Certamente não era isso que queriam os matadores.

ATUALIZAÇÃO: Para ilustrar o que escrevi acima, o advogado do Charlie Hebdo informou nesta quinta que a próxima edição da publicação (moribunda como vários outros impressos e estagnada em 60 mil exemplares) terá 1 milhão de cópias.

Em busca da credibilidade perdida

Não é só a Petrobras: o jornal japonês Asahi Shimbum, um dos maiores do mundo (põe todos os dias nas ruas cerca de 10 milhões de exemplares), criou o
“The Committee for Restoration of Trust and Resuscitation.”

Em resumo, busca desesperadamente reaver a sua credibilidade perdida após a descoberta de uma série de passos em falso em coberturas importantes como o tsunami seguido de crise nuclear de Fukushima, em 2011.

Nem é preciso dizer que presidente e diretoria caíram depois que veio a público que o ombudsman do jornal havia sido censurado justamente por criticar seus acidentes de trabalho.

As melhores narrativas jornalísticas de 2014

Listas são sempre polêmicas – ainda mais quando se propõem a elencar os melhores. Melhores para quem, cara-pálida?

Esta relação aqui, no entanto, é bem honesta. Primeiro, destaca o ressurgimento do áudio (numa era de pirotecnia) como uma boa plataforma para contar histórias. Quem diria: voltamos ao podcast.

A lista tem várias outras boas iniciativas que brilharam no ano passado. Vê lá!

Vá para o Twiter

Neste final de ano as novidades que surgirem eu vou postar no Twitter. Acompanha lá!

A publicidade, o jornalismo e Cuba

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Tenho uma relação muito especial com Cuba – é um dos lugares onde mais aprendi com as pessoas. A notícia de que o isolamento imposto pelos EUA pode estar chegando perto do fim me traz de novo a sensação que tive desde a primeira vez que coloquei meus pés na ilha. Ela irá precisar de tudo durante e após a transição, inclusive de comunicação e jornalismo.

Minha amiga Flavia Marreiro, a brasileira que melhor conhece Cuba, escreveu um artigo bastante interessante sobre o assunto. Enquanto no mundo todo o modelo de jornalismo sustentado pela publicidade está em xeque, ele jogará um papel crucial na redemocratização cubana – onde a publicidade privada é proibida.

Vale ler e entender outros desafios que o país têm daqui por diante.

Tiros na corrupção

Num ano em que o holofote sobre a corrupção está mais aceso do que nunca, impossível não lembrar a tragédia protagonizada por Budd Dwyer – secretário do Tesouro do estado da Pensilvânia que, diante das câmeras, se matou após condenado por supostamente receber propina de US$ 300 mil para autorizar a contratação de um serviço público.

Dwyer foi deputado e senador, mas se notabilizou na vida pública como o implacável chefe do tesouro estadual que descobriu – e conseguiu que fossem devolvidos aos cofres estaduais – uma farra de gastos pessoais do governador Dick Thornburgh, no começo dos anos 80. A festa incluía servidores fazendo supermercado e conduzindo os filhos do mandatário, entre outras coisas.

Partiu de Thornburgh, já sem mandato, o início das investigações contra Dwyer, a partir de uma denúncia anônima. Jamais se comprovou que o tesoureiro recebeu o dinheiro, mas o simples fato de ter admitido a possibilidade de suborno (o que aparecia na versão de uma testemunha que, anos depois, disse ter mentido) foi suficiente para sua condenação.

Em 22 de janeiro de 1987, Dwyer reuniu a imprensa, leu uma nota oficial, entregou envelopes com mensagens para familiares a seus auxiliares e sacou, para espanto geral, uma arma que colocou na boca e disparou. Tudo ao vivo, sem cortes, nas cinco maiores emissoras de TV dos EUA.

O caso até hoje é usado como exemplo da falta de escrúpulo da mídia – não pela transmissão ao vivo, mas pela exploração das imagens nos dias seguintes em jornais e telejornais e também pelo fato de cinegrafistas e fotógrafos continuarem a trabalhar mesmo diante do cadáver de Dwyer.

O filme “Honest Man” revê essa trajetória e afirma, com relatos atuais, que Dwyer era inocente e foi perseguido pelo governador que fiscalizou. O suicídio estaria relacionado à ruína das finanças da família, dizimadas no custoso processo judicial. Uma história e tanto.