Jornais piores

Demissões em massa (os passaralhos) fazem parte do cotidiano jornalístico (principalmente do impresso) há tempos. Eu, que comecei em 1990, ultrapassei alguns – puxando pela nmemória, mais de dez deles.

O que fica, para o consumidor de notícias, é geralmente um produto pior – digo geralmente porque houve veículos que se comportaram como órgãos públicos, com inchaço do quadro funcional e regalias do tipo carro com motorista para acompanhar a mulher do correspondente ao supermercado e outras benesses injustificáveis na iniciativa privada.

Esses tinham como pressuposto um momento nababesco que não volta mais e quase mereceram o fracasso – ainda que, de roldão, levassem junto milhares de profissionais.

Nos últimos dias, lendo com atenção alguns dos principais jornais brasileiros, a ficha caiu: eles estão piores, bem piores. Uso como critério algo bem objetivo: erros. Hoje, uma única matéria tem de dois a três erros, do irrelevante ao gravíssimo, inclusive nos lugares mais nobres (como a primeira página).

É esse o efeito colateral.

Panair do Brasil

A mais importante companhia aérea brasileira voou de 1930 a 1965, quando foi abatida por uma canetada do regime militar que decretou sua falência – e abriu as portas para Varig, gaúcha como vários dos generais que davam as cartas.

O documentário Pan Air do Brasil, de Marco Altman, é outra referência de sobre como funcionavam as coisas nos tempos dos milicos – nessa época de tanto (e injustificado) saudosismo.

Batman versus Valencia

Valencia_Cf_Logo_originalEssa é tão sensacional que fiz questão de colocar aqui: a DC Comics (dona da marca Batman) está processando o clube espanhol Valencia (fundado em 1919) pelo uso de um morcego em seu escudo.

É um pleito ridículo, pois esse animal está vinculado à própria história da cidade, mencionada desde o ano 138 antes de Cristo – e que seu brasão não deixa qualquer dúvida.

É mais um aspecto nefasto da modernidade: a noção de que tudo pertence a marcas.

Nós e o mercado de notícias

Poucas vezes vi jornalistas falarem, em público, tão abertamente sobre as agruras (e “pequenos milagres”) da nossa profissão. O mérito é do documentário “O Mercado de Notícias“, de JOrge Furtado, que nesta semana fez a sua estreia na TV paga.

Frases como “Os cursos de jornalismo são muito frágeis e poderiam se resumir a um ano” ou “pessoas que escreviam bastante bem hoje já não sabem fazer isso e escrevem com os pés. É um efeito terrível da internet” ou ainda “Que o jornal em papel vai morrer, todo mundo sabe” compõem o material bruto das entrevistas com alguns dos grandes jornalistas brasileiros como Fernando Rodrigues, Janio de Freitas e Renata Lo Prete, todos disponíveis no YouTube.

O documentário usa como pano de fundo a peça “O Mercado de Notícias”, escrita em 1625 por Ben Jonson, e explora bem casos de erro jornalístico como a Escola Base e, menos conhecido, o falso Picasso do INSS.

Vale por várias aulas.

Jornal pede à Redação que ajude a distribuí-lo nas ruas

O Orange County Registrer, um pequeno jornal de Los Angeles, está oferecendo cupons de até US$ 150 para integrantes de sua equipe que ajudem a distribuir (e vender) o jornal de domingo.

Não é algo novo, como recorda Roy Greenslade ao Guardian, mas não deixa de ser outro indicativo de tempos bicudos para o impresso.

O ataque, pero no mucho

O documentário “O Ataque à Liberdade de Imprensa”, realizado por Andrey Moral e Marina Maimone, estudantes da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), tangencia talvez aquela que seja hoje a maior ameaça ao exercício profissional do jornalismo.

A violência policial, uma excrescência em si, não é inesperada. A questão, e já não é de hoje, é a agressividade que parte das pessoas que estão nas ruas se manifestando. Há várias histórias de jornalistas agredidos não pelo estado, mas por protagonistas de distúrbios e/ou mobilizações.

Não é só a polícia que, hoje, percebe a imprensa como inimiga. Outro dia mesmo a vítima foi a fotógrafa Marlene Bergamo.

Isso sim é a notícia.

A monocultura do Facebook

Para quem trabalha com conteúdo em redes sociais, a monocultura do Facebook ainda é um problema no Brasil.

Pelo seu tamanho (são cerca de 80 milhões de brasileiros lá dentro), é natural que as marcas queiram interagir no site de Mark Zuckerberg.

Acontece que cada caso é um caso, e há redes muito mais específicas para quem atingir determinados públicos.

Afora os aspectos severos proporcionados pelo algoritmo do Facebook (o pior deles é o alcance cada vez menor das publicações, um evidente recado para que as ações lá dentro sejam pagas), há ainda tantos outros problemas no que diz respeito ao funcionamento da ferramenta que, de verdade, não dá pra entender esse furor.

O Facebook pode ser tão útil quanto qualquer outra rede, desde que esteja alinhado com a estratégia de comunicação. Não é uma escolha liminar.

Hoje, não tem sido o caso.

A rede social da rua

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Numa era em que se banalizou o ato de fotografar, chega a ser emocionante a iniciativa de Tatiana Altberg (o projeto Mão na Lata, que pôs jovens da comunidade da Maré, no Rio, a registrar seu cotidiano com um equipamento pra lá de rudimentar).

Para pesquisar sobre política externa brasileira

O Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais está de site novo e, com ele, uma plataforma bastante organizada de teses e dissertações sobre a política externa brasileira. Um manancial de informações e pautas para os interessados.

Só agora, Wikipedia?

Em 2006, para incentivar meus alunos de graduação em jornalismo a publicar textos na internet, tive a ideia de usar a Wikipedia – já na época o maior projeto colaborativo global.

A proposta era simples: definir uma série de verbetes que a enciclopédia ainda não tinha, dividi-los entre a turma e mãos à obra.

Pois bem: a iniciativa foi pessimamente recebida pelos admins da Wikipedia, inicialmente por conta do volume simultâneo de atualizações partindo de um único IP (fazíamos isso em sala de aula).

Os verbetes iam sendo derrubados, um a um, sumariamente. E, como tudo na Wikipedia, não havia cristo que fizesse aquilo cessar. Numa das inúmeras discussões com os administradores, ao explicar o caráter pedagógico da proposta, recebi a seguinte resposta: “a Wikipedia não é o lugar para isso. No máximo use uma página de teste ou outro programa de edição wiki”. Jamais esqueci.

Não é que agora fiquei sabendo do projeto Wikipedia na Universidade, que prevê exatamente aquilo que tentei fazer há oito anos? Demorou, mas nasceu.