A morte de José Alencar e alguns segredos do jornalismo

Para quem é de fora do jornalismo, é difícil entender a previdência de certas medidas que tomamos para garantir uma vida com o mínimo possível de sobressaltos. Uma delas, e que mais choca, é o hábito de deixar pronto o obituário de personalidades relevantes do noticiário.

Neste quesito, José Alencar merece uma citação à parte. Nunca um obituário esteve tão pronto. Foram várias as oportunidades em que ele esteve a ponto de ser publicado _nem só on-line: numa noite de novembro do ano passado, pessoas foram chamadas de volta à Redação porque havia o rumor da morte do mineiro. Foi assim por várias vezes.

E os plantões? Quantas vezes fomos ao trabalho sob o risco de a morte acontecer _e modificar todos os planos da edição do dia? O temor acabou não se justificando (a morte, no final das contas, ocorreu numa terça-feira, e bem cedo para os padrões jornalísticos).

Outra crueldade oculta do jornalismo é a avaliação de quanto tempo e espaço dedicar a um morto. Para nós, é evidente que José Alencar valia muito mais como vice-presidente. Ao deixar o poder, paulatinamente foi perdendo a relevância.

São, enfim, pequenos segredos do jornalismo.

29 Respostas para “A morte de José Alencar e alguns segredos do jornalismo

  1. mais do que segredo, diria que sao as idiossincrasias do jornalismo…

  2. Cruel, porém necessário. Com informações já prontas, diminui-se a margem de erros e de omissões. E nada mais certo na vida quanto a morte, por mais triste que isso possa parecer.

    • Emídia,

      Em meu favor costumo dizer apenas ‘não fui eu que inventei esse modus operandi’. Mas planejamento é tudo.
      abs

  3. Tem botão “Curtir” por aqui?? rsrs

    Já passei por isso…nunca deixa de ser estranho escrever a morte de quem ainda não morreu!

    Abs

  4. DESCULPE, DISCORDO.
    Não se pode mensurar a relevância de um homem público por estar sentado num cargo ou não. Vejamos exemplos simples, como o de Qüércia, há muito não se elegia, mas era figurinha carimbada na imprensa. José Alencar foi a exceção das exceções como político. Num ambiente putrefato, o Ex-Presidente conseguiu sobressair-se e acessar livremente as supostas esquerda e direita, sem máculas ou inimizades. Era um Lord. Agora, ficamos com o RESTO… Fazer o quê?

    • Olavo,

      É uma convenção do jornalismo que, claro, não significa ter a nossa concordância. Mas pode ter certeza que cadernos e mais cadernos especiais seriam editados fosse outra a circunstância do triste passamento.
      abs

  5. Cobrindo artes e espetáculos por diversas vezes escrevi e preparei alguns desses textos. Como Dercy Gonçalves, Walter Avancini e Nair Bello.
    Porém, nada é mais desagradável do que pegar aspas dos amigos das personalidades, pode apostar.

  6. Pingback: A morte de José Alencar e alguns segredos do jornalismo (via Webmanario) | Beto Bertagna a 24 quadros

  7. Marilia Compagnoni

    Eu achava que esse era o caminho natural: personalidade de destaque, com doença de difícil recuperação, idade avançada, saúde abalada, etc.

    Me surpreenderia se o obituário de uma pessoa saudável e jovem estivesse pronto.

  8. gostaria de saber se é verdade que a ética do jornalismo observa as seguintes perguntas…O que ?onde ? Como ? Quando ? Porque ? isso é ensinado quando se estuda jornalismo ? Ou é dito na formatura ? Obrigado pela informação e orientação.

    • Caro, essas perguntas não dizem respeito a ética, mas ao modus operandi do jornalismo. Sâo as informações básicas que devem nortear qualquer relato. E, claro, são ensinadas logo de cara.
      Abraços

  9. Alec,
    Depois da coluna da Ombudsman e o caso espalhado pela internet, você se arrepende do diálogo com a colega de Agora? abs

  10. O mundo da pressa, correria os jornalistas vivem cometando estas baberagem de fazer matérias inexistentes, quase os dias tem uma matéria deste genero que não condize com a verdadeira historia.
    A minha pergunte é culpa é da empresa dona do veiculo ou do jornalista que realmente não verifica e checa as fontes se aquela noticia é real o invencionice.

  11. Rogério Christofoletti

    Alec, só agora – juntando o Lé com o Cré – entendi o seu texto, e onde ele foi parar.
    Fico triste com o que aconteceu. Queria deixar um abraço solidário.
    Fecham-se portas, abrem-se janelas.
    abs

  12. Olá Alec,

    Eu não sabia que você havia publicado este post, então comentei apenas no Blog da Carol, então irei replicá-lo aqui, e entenderá minha opinião. Boa sorte a vocês dois. 🙂

    ” Carol, eu não conheço seu trabalho, enfim, e nem quero fazer uma crítica à sua pessoa, porque isso se estenderia demais.

    Minha opinião bate mais ou menos com o que disse o Ed Wanderley, aliás, acho que nós dois devemos ser os únicos que não estamos nem totalmente contra vocês dois, nem totalmente a favor da Folha de São Paulo.

    Não acho ético expor os erros da empresa para a qual trabalhamos desse maneira, exceto se fosse uma denúncia grave de crime ou delito.

    Realmente pode ser óbvio para alguns, ou não, mas evidenciar que os obituários “já estão prontos”, convenhamos é um pouco frio e desrespeitoso. Há coisas piores, sem dúvida, mas a morte é assunto delicado e que nem todos acabam lidando com uma certa “frieza” necessária a algumas profissões.

    O Twitter é um abiente complexo, informações e pensamentos são tuitadas e, quando damos conta, isso vira uma bola de neve, por isso defendo a criação de ao menos 2 perfis: um pessoal e um profissional. É muito complicado “misturar” as estações e há coisas do mundo pessoal que não devem se misturar ao nosso ambiente profissional e vice-versa e, no Twitter, as pessoas acabam perdendo um pouco a noção e se expondo mais do que deveriam (vide os casos Locaweb e tantos outros…).

    Achei a atitude da Folha de São Paulo um tanto radical e realmente me impressionou negativamente, em tempo, já fui funcionária da Folha de São Paulo um dia e sempre admirei seu trabalho.

    O caso de vocês dois é o que eu chamaria de derrapada mediana, não merecia uma demissão, no máximo um advertência, um chá de cadeira, mas não tanto, principalmente porque vocês trocaram mensagens entre vocês dois e não possuem uma quantidade de followers tão expressiva assim que causasse uma repercussão muito grande e, consequentemente, um estrago enorme à imagem do jornal. Eu mesmo fiquei sabendo do caso, através de um canal de informática, um website, em uma matéria sobre mídias sociais…

    Me permite uma pequena crítica pessoal… Achei sua atitude crítica um tanto exarcebada, afinal de contas, por quanto tempo tal empresa que tanto foi criticada por você, colocou a comida na sua mesa? Acredito que esteja profundamente magoada com a atitude tomada (eu mesmo ficaria), mas também não é nem um pouco ético tanto o fato de criticar o veículo, já que seu nome não havia citado pelo jornal, como publicar uma comunicação entre você e a tal ombusdman. Sabe aquele velho ditado popular de que a liberdade de um começa quando a do outro termina e aquela também da “mão que alimenta” e blablablá (sim, sou péssima com isso…)

    Sei que é acalentador receber diversos comentários positivos quanto a sua atitude e sentir-se confortada por aqueles que se demonstraram ao seu lado, mas pense na repercussão negativa que esta sua atitude em publicar este post poderia ter e o impacto sobre sua carreira.

    Reflita… de coração, Anny 🙂 ”

    That’s all ;D

  13. Pingback: Desculpe a Nossa Falha | Política, humor e o tal do jornalismo // + tudo sobre a censura da Folha à Falha de S.Paulo // ASSANGE, TAMO JUNTO! » Blog Archive » Liberdade de expressão é isso: editor e repórter da Folha fazem brincadeira no t

  14. José de Souza Castro

    Alec Duarte, só para lembrar: no The New York Times, que fez escola no jornalismo, havia um excelente redator cuja pauta exclusiva era entrevistar pessoas para aprontar seu obituário a ser publicado quando elas morressem. No JB, fazer obituários com antecedência era prática louvável. Na sucursal mineira, fazíamos isso como rotina, sempre que algum mineiro importante adoecesse. Foi o que aconteceu com Magalhães Pinto, que ficou gravemente enfermo quando ainda era um homem poderoso na política e nas finanças. Preparamos duas páginas de jornal e deixamos arquivadas. Naquele tempo, se colocava o texto e as fotos em pastas suspensas em arquivos de aço. Mas o Magalhães só foi morrer muitos anos depois, em 1996. Já então o banco dele, o Nacional, havia falido; a “gloriosa revolução de 64” era apenas um fantasma a nos assombrar todo 31 de março; e ele mesmo estava quase esquecido. Claro, aquelas duas páginas, há muito, tinham ido para a cesta. O que espanta, em tudo isso, é que alguém ache que o leitor de jornal não saiba que obituário, sempre que possível, é preparado com antecedência. Acho que os jornais estão perdendo aquilo que era o mais apreciado pelos que neles trabalhavam, antigamente: o bom-humor, o clima alegre das redações e, sobretudo, o clima de confiança entre chefes e chefiados não turbado, de modo algum, por um ou outro palavrão, pra lá e pra cá. Hoje parece que estão levando muito a sério coisas que não têm qualquer importância. Tudo isso, para dizer que lhe sou solidário.

    • Sim, os obituários são um dos pontos altos do NYT. A sessão The Last Word, de obituários em vídeo sobre os quais já falei há tempos no Webmanario, abre com o Art Buchwald, que começa com um fantástico ‘oi, sou Art Buchwald e acabo de morrer“. O jornalismo é assim…

  15. Liberdade de expressão… por que é tão difícil que a tenhamos, de verdade, num país em que este direito é tão recente? Será por esta razão, por ser uma conquista assegurada em uma Constituição relativamente jovem, 23 anos?

    E assim é pelos mais diversos setores dos mais variados seguimentos em nosso país: quem se expressa com naturalidade nem sempre é compreendido e acaba sendo punido. Antes Carol e Alec tivessem feito o tipo “falsidade” concordando com irregularidades, aplaudindo decisões desastrosas e repudiando opiniões sinceras de outrém… Manteriam-se empregados, ainda que a dignidade e o caráter de ambos fossem colocados em cheque.

    Sempre sofri “repressão” por me expressar em todos os meus meios de relacionamento pessoal e profissional, mas jamais abdicarei do direito de ter, revelar e até de mudar minha opinião, como bem disse o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

    Já fui perseguido por uma mulher que assumiu o lugar de um gestor após trocar seu bonito corpo pela vaga. Ao iniciar seus trabalhos, notou que precisaria de ajuda mas não a minha, já que eu era o braço direito de seu antecessor. Decidiu sábia, porém tardiamente, fazer um curso em uma faculdade em vez de unir as forças da equipe em pról de sua administração. Deu errado, claro. Quando decidi reunir a equipe afim de discutirmos soluções e relatei à ela o nosso encontro, ela nem esperou eu revelar nossas idéias e me demitiu.

    Paguei o preço por ter expressado a minha opinião e ela por não ter me ouvido: seis meses depois, 80% da equipe era nova e outros seis meses mais tarde já não existia mais.

    E o Roberto Carlos Barros (#prontofalei-rs)… sujeitinho mais ignorante que já conhecí: o senhor da razão, o “mais mais entre os dez mais”, o profeta… Chegou dizendo que fez e aconteceu e ficou com 100% de share a seu favor quando retruquei alegando que 100% seria com a ausência total da imagem da concorrência, o que não havia acontecido. Pronto; embirrou. Daí pra frente eu era Lucífer para ele, já que ele sempre se achou Deus.

    Anos seguiram-se sem que nossos cargos e profissões se encontrassem até que um dia, motivado pelas minhas críticas e pelas vezes em que expressei-me no sentido de melhorar o que precisava ser melhorado, criar o que havia necessidade de ser implantado; meu chefe me promoveu e adivinhem quem seria meu novo chefe: ele mesmo, o “rei Roberto Carlos”.

    Me detonou em seu primeiro feedback sobre meu trabalho e na primeira oportunidade me demitiu. Eu não havia tido o menor tempo para executar mudanças. Pois bem: hoje, 4 anos depois, vejo que aquilo que ele disse que era uma merda acabou virando uma grande bosta. Mais ridícula do que a sua atitude em me demitir abrindo mão de um recurso que sempre se comprometeu para fazer o melhor; foi não trabalhar para melhorar o que ele havia criticado afim de justificar a minha demissão.

    Enfim; o longo desabafo é apenas para ilustrar o quanto não temos direito à esta tal de “liberdade de expressão”. Como citou Rodrigo Vianna em seu blog, ainda somos vistos como “servos” aos “senhores feudais” a quem estamos subordinados que, salvo raras exceções, nos penalizam quando fazemos críticas construtivas que poderiam ter o efeito de melhorar a qualidade de uma informação, de um serviço…

    A Folha sempre foi um veículo parcial pra caramba no melhor estilo “morde e assopra”, “bate e acaricia”… Luta contra a censura, é a favor da liberdade de expressão? E por que não permite que seus funcionários se expressem, então?

    E o que há de tão escabroso na troca destas poucas postagens entre Carol Rocha e você?

    Se esforçar para omitir de um leitor que um obituário já estava pronto, ainda mais o de José Alencar que todos pensavam que “entregaria a rapadura” junto com Quércia, em dezembro do ano passado; é simplesmente subestimar a inteligência deste leitor.

    Liberdade de expressão, no Brasil? English to see!

  16. Pingback: Jornalistas do grupo Folha são demitidos após comentários no Twitter « Estalo Web

  17. Vida estranha! Cheguei a este post pouco depois que ele foi publicado e jamais poderia imaginar que as coisas tomassem a proporção que tomou. O que foi exposto sobre obituários não é novidade para quem lida com o jornalismo e até entendo que as pessoas se escandalizem por isso. Existe um jornalista mineiro, ilustre, Dídimo Paiva, que ao longo dos seus 82 anos, toda vez que me encontra fala da importância dos obituários. Enfim, Alec, fica minha solidariedade! Abs.

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