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TV manipula imagens de presidente debilitado

Aulinha básica de edição de vídeo: o telejornal francês Le Petit Journal comprovou que as imagens da conversa entre o premiê francês Jean-Marc Ayrault e o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika (que sofreu um AVC em abril), foram manipuladas.

Nelas, Bouteflika parece desenvolver uma conversação com Ayrault. Na verdade, trata-se de um truque de edição que utiliza o mesmo gesto repetido várias vezes em ângulos diferentes. Durante a maior parte da conversa, mostrou o telejornal, o mandatário argelino, debilitado, ficou imóvel.

Agora o político francês é acusado de participar de uma farsa que visa colocar Bouteflika em condições de disputar um quarto mandato nas eleições do ano que vem.

Um texto de Tostão

“Todas as pessoas deveriam assistir às partidas da seleção em 58 não para repetir o passado, mas para constatar que esses craques existiam”.

Um texto de Tostão que editei em 2008.

A fotografia como calhau

Não deixa de ser uma coincidência macabra: apenas três dias depois de uma aula na Faap em que discorria sobre o uso de foto pelo jornalismo e a importância de se valorizar a área de imagem com informação, não como ilustração, o Jornal da Tarde (SP) publica uma capa de seu produto principal, o caderno de esportes, com uma imagem de arquivo do corintiano Danilo comemorando um gol – não o gol decisivo marcado contra o Santos, pela Copa Libertadores (patrocínio desatualizado e estádio vazio desmascaram a farsa).

É exatamente sobre isso que falávamos com a turma de pós-graduação em Jornalismo Esportivo: foto é notícia, não uma figurinha que preenche um espaço.

E o resto é calhau.

Quanto vale o rapper 50 Cent

Uma matéria da Reuters editada por um redator de jornal desatento evidenciou mais uma vez o lado B dos automatismos: o rapper 50 Cent teve o nome “convertido” para a moeda da Malásia, o Ringgit. Simplesmente sensacional.

Aqui mesmo já dei outros exemplos de que nada substitui a edição humana, casos do mapa muito louco da Geórgia, do atleta Tyson “Homossexual” e do bug do mapa da criminalidade em Los Angeles.

Você quer ler boas notícias?

Fico sabendo do projeto Só Notícia Boa, tocado entre outros por uma colega de graduação, Andréa Fassina, profissional com longa folha de serviços prestados ao radiojornalismo – fez parte da primeira equipe da pioneira CBN, em São Paulo.

Já escrevi aqui algumas vezes sobre iniciativas do gênero, inclusive como opção filosófica (ou ópera bufa, como a desastrada incursão do iG ao tema).

Um oásis blindado contra pais que atiram filhos pela janela, humanos que espancam animais, corrupção política.

É tudo verdade, porém editada.

Quem lê tanta notícia boa?

O perigoso uso de chapéu em títulos no jornalismo on-line

O uso de chapéu (aquela palavrinha que fica acima dos títulos) no jornalismo on-line é um problema.

O exemplo acima (um singelo “au-au!”) é apenas uma mostra do que pode acontecer.

É fato que o uso desse recurso exige poder de edição e síntese brilhantes _para realmente poucos na profissão.

Daí vem o dilema: ou se estabelecem palavras-padrão, o que torna a edição burocrática, ou corre-se o risco de latir.

Escolha.

Impressionado com as fotos de Kadhafi morto?

Então dá uma lida no que escreveu Carlos Heitor Cony sobre o assunto.

“Há uma corrente de profissionais da mídia que adota a tese da necessidade de informar tudo o que acontece, o leitor tem o sagrado direito de saber de tudo, nos mínimos detalhes. Mesmo os escabrosos, de péssimo gosto e que em nada contribuem para clarificação de um fato, por mais delituoso que seja.”

Tirando a parte do “que em nada contribuem”, já que gosto não é bom objeto de debate, sou desse time.

E, francamente, no caso do ex-ditador líbio não havia como escapar. Só mesmo um péssimo editor fecharia os olhos.

Gostar de escrever basta?

Gostar de escrever é suficiente para querer ser jornalista?

É o que discute Gary Moskowitz neste interessante artigo.

A conclusão, minha e dele, é que não basta gostar, é preciso saber.

Ainda que, no caso do jornalismo on-line, o texto não seja exatamente uma prioridade para quem pretende explorar o potencial das novas narrativas (como Moskowitz explica no artigo).

Uma conversa sobre a linkagem em conteúdo jornalístico

Robert Niles entrevistou o pesquisador Ronald Yaros, da Universidade de Maryland, sobre o uso do hiperlink em conteúdo jornalístico.

Yaros acabou de publicar um estudo no qual as conclusões, apesar de óbvias, são fruto de coleta e análise científica _e aí passam a valer mais.

Segundo Yaros, a linkagem adequada melhora a experiência do leitor. E qual é a forma certa de linkar? Depende do tipo de material que você vai publicar.

Há algumas regras básicas (por exemplo, evitar redudâncias do tipo “clique aqui” e, em vez\ disso, escolher palavra ou trechos que deixem claro para onde o usuário será direcionado).

Dá um pulo na entrevista lá pra entender melhor.

A morte de José Alencar e alguns segredos do jornalismo

Para quem é de fora do jornalismo, é difícil entender a previdência de certas medidas que tomamos para garantir uma vida com o mínimo possível de sobressaltos. Uma delas, e que mais choca, é o hábito de deixar pronto o obituário de personalidades relevantes do noticiário.

Neste quesito, José Alencar merece uma citação à parte. Nunca um obituário esteve tão pronto. Foram várias as oportunidades em que ele esteve a ponto de ser publicado _nem só on-line: numa noite de novembro do ano passado, pessoas foram chamadas de volta à Redação porque havia o rumor da morte do mineiro. Foi assim por várias vezes.

E os plantões? Quantas vezes fomos ao trabalho sob o risco de a morte acontecer _e modificar todos os planos da edição do dia? O temor acabou não se justificando (a morte, no final das contas, ocorreu numa terça-feira, e bem cedo para os padrões jornalísticos).

Outra crueldade oculta do jornalismo é a avaliação de quanto tempo e espaço dedicar a um morto. Para nós, é evidente que José Alencar valia muito mais como vice-presidente. Ao deixar o poder, paulatinamente foi perdendo a relevância.

São, enfim, pequenos segredos do jornalismo.