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Livro sobre webjornalismo

livro_canavilhasAlguns dos pesquisadores mais interessantes na área do webjornalismo estão reunidos no livro “Webjornalismo: 7 caraterísticas que marcam a diferença”, disponível gratuitamente na rede.

Nomes como João Canavilhas, Paul Bradshaw e Ramón Salaverría, entre outros, acrescentam ingredientes a essa eterna discussão sobre as peculiaridades do meio e sete características que o constituem.

Leituras da semana

A edição 17 da Revista Animus, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM (a brava federal de Santa Maria-RS), está on-line.

Destaco o artigo “Os processos interativos no webjornalismo audiovisual: um estudo das contribuições dos colaboradores aos sites UOL, G1 e Terra”, de Juliana Fernandes Teixeira.

Boa leitura.

Livro analisa mudanças que a tecnologia impôs ao jornalismo

Numa era em que o avanço tecnológico deu uma imprensa particular para cada um, é impossível falar de jornalismo on-line sem abordar a participação do público.

O fim da fronteira entre mídia formal e a ex-plateia, como muito bem teorizou Jay Rosen (professor da Universidade de Nova York), é apenas um dos aspectos que a jornalista Magaly Prado aborda no livro “Webjornalismo”, lançado nesta semana pela Editora LTC.

Apesar de muitos jornalistas não terem percebido que seu trabalho mudou com a vida em rede, é óbvio que instâncias pessoais de manifestação (como os blogs) e a capacidade de vigilância e mobilização que a internet proporcionou às pessoas tornaram o fazer jornalístico um exercício de conversação.

Vivemos a época dos “‘produsers” _o termo é uma junção de produtor e usuário e foi cunhado em 2005 por Axel Bruns, autor de uma obra importantíssima para se compreender a transformação da profissão, “Gatewatching”, jamais traduzida para o português.

Com proposta didática e voltada para a sala de aula, Magaly discorre sobre essa nova e auspiciosa fase do jornalismo profissional, agora tocado a muitas mãos.

Mas é claro que a internet, onde a colaboração entre profissionais e amadores é muito mais evidente, também abriga práticas de jornalismo, digamos, tradicionais.

Com linguagem fácil e fragmentada (às vezes, fragmentada até demais), Magaly aponta boas práticas, mostra caminhos adotados no país e no exterior e, por meio de depoimentos de importantes profissionais da web brasileira (algumas vezes sem edição e publicados na íntegra), refaz a trajetória da plataforma desde 1995, quando desembarcou comercialmente por aqui.

Com cerca de 150 imagens, quase todas impressões de tela, o livro de Magaly também discorre sobre a chegada do iPad e sua influência na produção de conteúdo.

Ainda faltam, em português, obras que consigam abarcar toda a complexidade que a rede trouxe para o jornalismo. Mais difícil ainda é resumir, em papel, as vastas possibilidades do meio on-line nesta profissão tão antiga. O livro de Magaly é, nesse aspecto, uma boa tentativa.

WEBJORNALISMO
AUTORA Magaly Prado
EDITORA LTC
QUANTO R$ 40 (272 págs.)

(resenha que publiquei na edição de sábado da Folha de S.Paulo)

A coragem de corrigir nossos erros à altura

Como faz bem (não só pela transparência, mas principalmente pela obrigação profissional) ter coragem (sim, é preciso coragem, por incrível que pareça) corrigir, à altura, um erro .

Foi o que fez o G1 nesta semana, manchetando a correção de um equívoco que havia sido publicado daquela mesma forma (ou seja, como notícia mais destacada do site).

É assim que se faz.

(Esta dica é da colega Mary Persia).

A ridícula adesão à assinatura de conteúdo on-line pago

Lembra que encerrei 2009 falando que 2010 era o ano em que cobraríamos por conteúdo? Faltou abordar o outro lado da moeda: pagaremos por ele?

Saiu uma pesquisa bem fresca sobre o tema, trazida por Alan Mutter (o mesmo a ter detectado a quebra do negócio jornal impresso quando o acesso à banda larga residencial atinge 30% num país): os usuários que pagam aos jornais generalistas por informação on-line representam apenas 2,4% das pessoas que bancam uma assinatura de jornal impresso. É o caminho do fracasso, ainda mais que a comparação é feita com um produto há muito fadado ao fracasso comercial.

A pesquisa completa pode ser comprada por U$ 500.

Ela tem um lado esperançoso: que essa gente que banca para ler antes na web não parece muito preocupada com o custo (lembre-se: nos EUA).

É importante por ser a primeira detecção de indiferença no ano em que decidimos cobrar por conteúdo. A ver como termina essa patacoada.

‘Não existe mais informação exclusiva’, diz Marcelo Träsel

Com Marcelo Träsel, jornalista, professor e pesquisador, minha relação é antiga: dividimos opiniões e compartilhamos dúvidas (e soluções) durante um bom período de trabalho no portal Terra. De lá para cá, ele se especializou na análise da influência das novas mídias no exercício do jornalismo. E é assertivo ao dizer que o copia e cola acabou com a informação exclusiva “microssegundos” depois que ela é publicada. Notícia virou commodity, acrescento eu.

Na conversa que você lê abaixo, fiz questão de falar sobre apuração distribuída, seu objeto de pesquisa mais recente. Träsel defende a prática (que consiste em “repartir trabalho” com os leitores, como analisar uma lista extensa de documentos). Para o professor, que comanda uma concorrida pós em Jornalismo Digital na PUC-RS, trata-se de ótimo exemplo de jornalismo participativo _neste caso, o trabalho dos leitores terá, sempre, de passar por filtro e mediação do jornalismo profissional antes de ser publicado.

Falamos ainda de como o leitor-colaborador é maltratado pelo mainstream, que oferece apenas o doce da visibilidade em troca de material exclusivo.

Pesa contra a apuração distribuída o tabu (ou a ignorância, como queira) do mainstream, que acredita que a partir do momento em que disponibiliza abertamente um documento (ou conjunto deles) que obteve com exclusividade, está dando o ouro para o bandido, ou seja, municiando a concorrência com informações que em tese deveriam ser exclusivas. A colaboração do público nunca é lembrada, num primeiro momento. É sempre o menos importante. A discussão sempre começa com “tempos de proteger esse conteúdo a sete chaves e descobrirmos nós mesmos o que ele traz de valioso”. Há um antídoto contra isso? O que dizer aos veículos que ainda protegem informação muitas vezes corriqueira da visibilidade pública e resistem a apelar ao crowdsourcing?

O crowdsourcing e outras formas de participação do público não são adequadas para todas as culturas empresariais. Admiro mais uma empresa que resiste a esse tipo de projeto por apego às rotinas de trabalho e valores jornalísticos da época da mídia um-todos do que as empresas que introduzem o crowdsourcing e seções com graus variados de participação apenas para surfar na onda do “jornalismo cidadão”. E são muitas. Abrir espaços para comentários num webjornal é muito fácil. Difícil é realmente levar em conta a opinião e a informação produzidas pelo público no cotidiano da redação.

Feita essa ressalva, voltemos à questão: o crowdsourcing é uma ferramenta que libera os repórteres de tarefas repetitivas e de pouca exigência técnica, garantindo mais tempo para minerar pautas inovadoras e informação realmente inédita. O verdadeiro ouro do jornalismo não são os documentos, mas o enfoque, o gancho, a pauta. Documentos em si mesmos não dizem muita coisa. Devem ser acompanhados de contextualização, de contrapontos das partes envolvidas. A meu ver, faz mais sentido destacar cinco repórteres para repercutir da melhor forma possível os dados do que condená-los a passar dias garimpando documentos, trancados na redação. Até porque, cerca de 10 microssegundos após a publicação dos dados arduamente refinados, toda a concorrência vai dar CTLR+C e CTRL+V e foi-se a exclusividade. Não existe mais informação exclusiva.

Não custa lembrar também que o papel do noticiário é informar a sociedade, seja por quais meios forem, e não alimentar o ego dos repórteres com furos.

O Guardian tem aquele projeto bem bacana, de ter jogado quase 500 mil notas fiscais na rede e pedido a seus leitores que o ajudem a achar problemas nelas. Mas já surgiram poréns: circula a informação de que assessores parlamentares são contumazes frequentadores do projeto, seja desqualificando provas ou validando outras, sempre de acordo com os interesses de suas siglas políticas. Isso, de certa forma, não sugere que a apuração distribuída é apenas um ponto de partida, algo que exigirá retrabalho, filtros e mais filtros, além de muitíssima apuração, depois? Não pode, em resumo, atrasar o andamento de uma apuração, por mais incrível que pareça?

Embora existam distorções, creio que no fim das contas as estratégias de apuração distribuída sempre vão trazer vantagens para uma equipe de reportagem. Como em todos os sistemas abertos à participação, atores envolvidos nos fatos podem tentar avacalhar a análise dos dados, inserindo contrainformação. Porém, no caso do Guardian mesmo, o sistema permitia a qualquer pessoa revisar as páginas já analisadas e denunciar abusos. Além disso, o número de participantes é tão grande (naquele caso, cerca de 24 mil pessoas) que as distorções provavelmente acabam soterradas pelas intervenções válidas. Pode-se até pensar num sistema que apresente o mesmo documento a, digamos, três participantes diferentes, e avise se houver inconsistências na análise.

Como afirmei acima, porém, os dados em si mesmos não dizem muita coisa. Portanto, o resultado de um projeto de apuração distribuída é, sim, apenas um ponto de partida. Além de contextualizar e repercutir os dados, também é papel dos repórteres verificar todas as informações. Igualzinho a qualquer outro tipo de reportagem.

Não custa lembrar, ainda, que assessores de políticos e profissionais de relações públicas interferem em reportagens realizadas sem ajuda do crowdsourcing usando os métodos mais variados. Um sistema automático ao menos elimina o perigo da influência pessoal e do suborno.

Pra mim o crowdsourcing, para ser bem-sucedido, envolve uma relação de troca. Muitas vezes noto gente que nunca fez nada por mim (ou seja, jamais me deu uma informação útil ou se engajou em algum projeto do meu interesse) pedir auxílio na web. Aliás, acho frequente essa atitude na grande mídia. Parece que ela sempre quer algo de você, mas nunca dá nada em troca _melhorando: acha que seu conteúdo basta. É falha na conversação, reage tal um mamute ante situações novas, é refratária e teme novas tecnologias, segrega o conteúdo produzido pelo usuário a um gueto qualquer em seu site… Tudo pra dizer que reclama-se muito, especialmente no Brasil, do qualidade do colaborador. Mas acho que ele é maltratado, a grande mídia não precisa mudar de atitude?

Quanto a essa questão, vejo dois problemas principais:

1- A mídia se aproveita do material produzido pelo leitor, mas dá em troca apenas “visibilidade” e muitas vezes sequestra esse material. Basta ler os termos de cessão de direitos da maioria dos sistemas de colaboração do leitor para perceber isso. Em geral, ao enviar um texto, áudio ou imagem, o leitor abdica de todos os direitos sobre esse material – até mesmo o direito de publicar esse material em sua conta no YouTube, álbum do Flickr etc.

As colaborações enviadas passam a ser propriedade da empresa de comunicação, o que, convenhamos, é ridículo e absurdo. Se produzi uma foto e a enviei de graça a um jornal, tenho de no mínimo manter os direitos de uso. Os setores jurídicos vêem a colaboração do leitor como uma doação, quando, na verdade, é um compartilhamento, uma concessão, um empréstimo. É justo que o leitor faça o mesmo empréstimo a outros jornais e distribua a informação via redes sociais. O interesse da sociedade é que a informação seja disseminada o máximo possível, e não que empresas de comunicação transformem a participação do público em uma fonte de matéria-prima barata.

Seria muito justo se as notícias produzidas com base em dados e imagens enviados pelo público fossem distribuídas sob licença Creative Commons, por exemplo, já que a empresa não pagou por elas. Talvez seja pedir demais.

2- As informações enviadas pelo público interferem muito pouco na rotina das redações. São raros os casos em que uma equipe dedicada a isso vai atrás das lebres levantadas pelos colaboradores. Envolver-se com os assuntos de interesse dos colaboradores seria a melhor forma de pagá-los pelo compartilhamento de informação e contribuiria muito para melhorar, do ponto de vista social, a cobertura da imprensa.

As pautas enviadas pelo público são um excelente termômetro da sociedade e uma forma de adequar a cobertura ao interesse real da comunidade. É claro, pouca gente se interessa por notícias de Brasília e isso não significa que se deva seguir cegamente os dados de audiência e extinguir a editoria de política. Talvez, porém, pudesse haver menos governo federal e mais governo municipal, Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa na imprensa regional. Mais bairro e menos país.

Percebo que as colaborações enviadas por leitores nos bons projetos de webjornalismo participativo em geral se preocupam em cobrir essa lacuna da cobertura. São mais voltadas ao buraco na rua, aos ônibus superlotados, ao terreno baldio cheio de lixo. Alguns jornais têm aproveitado essa fonte inesgotável de pautas e designado repórteres para aprofundar os temas. A maioria, porém, enxerga as seções de webjornalismo participativo como um tipo de parquinho onde o leitor pode brincar de ser jornalista. É um desperdício.

Banner on-line completa 15 anos hoje

Hoje o banner publicitário na internet completa 15 anos. Em 27 de outubro de 1994, o site HotWired (a primeira revista web da história, fundada em 1994) criou o formato, cobrando US$ 60 mil (os valores são da época) da AT&T por 24 semanas de exibição.

No início, a novidade provocou problemas hoje inimagináveis. Claro, boa parte dos potenciais anunciantes nem sequer possuía um site. Logo, linkar pra onde o banner? Alguns optaram por sites ainda em construção, estratégia certamente catastrófica.

Saudado como a grande possibilidade de monetização das operações digitais, o banner ainda persiste, hoje sem carregar o peso dessa (falsa) responsabilidade.   Pudera: Jakob Nielsen, mestre da usabilidade, comprovou em suas pesquisas que o usuário simplesmente ignora essas mensagens publicitárias _tudo que está fora do campo de visão do padrão f é como se não existisse.

Amado e odiado, o banner veio pra ficar? Não responda ainda: a publicidade on-line também evoluiu. E está descobrindo maneiras mais efetivas de chamar a sua atenção.

Nove mandamentos do jornalismo ruim

Gabriel Silva publicou no popular Blasfémias (talvez o blog mais conhecido e acessado de Portugal) os nove mandamentos do jornalismo ruim na Web. Deixei passar uns dias, mas a lista está aqui.

São observações bastante válidas (e todas inspiradas em histórias reais).

Só discordo de uma, a última: o teaser é opção legítima para jornais que ainda se escondem por trás do paredão do conteúdo pago. Talvez o mandamento devesse ser “protegerás todo o teu conteúdo sob acesso pago, escondendo-te das máquinas de busca e, consequentemente, dos usuários”…

Divirta-se.

1) Não linkarás

2) Só citarás blogs de pessoas conhecidas off-line

3) Em caso de sucesso de alguma iniciativa sua, dirás “esta é a primeira vez que…”

4) Ao publicar uma notícia com mais de três dias dirás sempre “ontem”

5) Todo o noticiário internacional nunca terá fontes

6) Tentará a todo custo impedir que seus produtos multimídia sejam citados ou republicados

7) No horário de maior audiência, colocarás um pop-up gigantesco que impeça a visualização da página

8 ) Você divulga o e-mail do webmaster, seguido de um número de fax, para seus leitores entrarem em contato

9) Num texto mais longo, publique só o primeiro parágrafo seguido de “Leia mais na edição impressa”

Conversações sobre o jornal impresso II

Eu gostei dessa coisa de conversar sobre os jornais impressos. E resolvi prosseguir.

No post anterior, falávamos sobre minha crença na perpetuação da espécie _ainda que, fique claro, ela jamais voltará a ser um produto de massa e ainda precisa encontrar o seu lugar no mundo de acordo com o novo “contrato de leitura”, como bem provocou o David Butter.

Numa era em que já há toda uma geração de jornalistas sem tinta no DNA _vários nem sequer foram apresentados às etapas de produção de um produto impresso_, é esperado encontrar quem veja no veículo que papai lia (será que ainda lê?) uma peça de museu.

Mesmo sem o tal DNA, todos os dias essa geração se depara com os jornais, que são importantes fornecedores de informação exclusiva para os sites nos quais trabalham. Essa é uma constatação contra a qual não há entretantos.

No Brasil, o negócio do jornalismo impresso se mostra sustentável mesmo em tempos bicudos _ontem, novos números apontaram que o faturamento com publicidade cresceu 4% com relação a outubro de 2007. O melhor é que, on-line, as oportunidades se expandiram ainda mais.

Enquanto vê subir o faturamento dos portais, o webjornalismo (um pedaço do que eles oferecem, não o responsável absoluto por essa alta) ainda se debate com sua frágil credibilidade.

Pesquisas qualitativas e de opinião são categóricas: quando confrontado com as duas plataformas, o consumidor de notícias ainda enxerga (e de longe) o jornal papel como o meio mais confiável para obter informação e tende a “acreditar mais” nos veículos on-line se eles forem ligados a empresas tradicionais do ramo _ou seja, donas de jornal impresso.

Tecnologia, positivamente, não compra credibilidade. E esse caminho, muito longo, é o principal obstáculo que o jornalismo na Web ainda precisa superar. Vários já parecem superados.

Sozinho, sem a muleta das grandes corporações, será possível? Talvez não. O blog, pedestal da publicação pessoal e descolado do mundo corporativo, está aí para provar (PDF).

Voltamos ao tema.

Jornais na Web sobrevivem a furacão

Três jornais em papel da Louisiana deixaram de circular por dois dias durante a passagem do furação Gustav por Nova Orleans (EUA). Foi uma decisão editorial de suas direções.

Na Web, porém, as edições do The Times-Picayune, do The Courier e do Daily Comet tiveram extensa atualização sobre o fenômeno _que alagou ruas da cidade mas não teve a força devastadora do Katrina, que a destruiu há três anos.

Mais uma demonstração, ainda que óbvia, da força de uma mídia sobre a outra, ao menos no aspecto físico. Além de caríssimo, o processo industrial por trás de um produto em papel ainda põe em risco, devido a sua logística de distribuição, a chegada do produto ao público-alvo.

Quem reparou foi o sempre atento Roy Greenslade.