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Crowdsourcing e jornalismo de raiz em debate

Dan Gillmor aparece, num post de blog do Guardian, defendendo o crowdsourcing _outra novidade do jornalismo nos tempos da alta tecnologia.Para quem sabe, Gillmor é uma espécie de pai do “jornalismo de raiz”, ou seja, aquele que independe do jornalista profissional para acontecer.

O ponto do texto era debater dois aspectos do trabalho produzido pela ex-plateia, hoje também protagonista do processo de apuração/relato (e análise)/difusão de notícias: credibilidade do material e envolvimento do público DURANTE a confecção de uma reportagem, não depois, para que ele apenas bata palmas

“O mosaico será sempre verdadeiro, ainda que alguns pixels sejam falsos”, diz que Gillmor, que em 2004 preconizou o fenômeno do “uma imprensa para cada um” no livro “We, the Media“. Ele se refere, por exemplo, às inevitáveis fotos falsas que circulam durante episódios de grande comoção, como o terremoto do Haiti.

Paul Lewis, repórter do Guardian que envolve inteligentemente seus leitores em todas as suas matérias (conseguindo com isso dicas, ajuda e pistas importantes para incrementar suas reportagens), fala sobre o segundo ponto. Ele é um dos que ajudam a acabar com essa baboseira, que circula nas redações, que recorrer ao crowdsourcing é entregar o ouro para o bandido, ou seja, a concorrência.

“Pensa bem: quem é a concorrência? Você tem mais a ganhar do que a perder [recorrendo ao público e compartilhando informação com ele]”, diz. O custo para isso, porém, é bastante alto. É por isso que dá pena ver jornalistas profissionais adentrarem determinadas comunidades que jamais frequentaram, disparando perguntas que ajudem a resolver um problema (dele), normalmente a incapacidade em localizar possíveis entrevistados.

Isso é tão frequente como desastroso. O crowdsourcing terá mais qualidade e credibilidade em razão diretamente proporcional à maneira como o jornalista constrói sua rede de relacionamentos on-line.

É preciso trabalhar duro para ter uma comunidade de verdade e dedicada: oferecer bons serviços a ela, escutá-la, fazer reportagens que atendam seus interesses e provar que se está aberto à conversação é o mínimo. Sair pedindo ajuda a ilustres deconhecidos, em geral, só faz água.

É nesse ambiente que surge a boa colaboração entre público e jornalista.

Nós nunca seremos a mídia?

Mais uma experiência de jornalismo cidadão está fazendo água. Agora é o canadense Nowpublic que, três anos e US$ 10 milhões investidos depois, se depara com uma encruzilhada: seus colaboradores são muitos passivos, e a maioria dos textos basicamente reproduzem matérias publicadas pelo mainstream.

É o que eu comentei outro dia sobre o Ohmynews, trincheira da colaboração na qual até relato de jogo de futebol com ficha técnica (algo nada original e que ainda por cima concorre com a grande mídia) é publicado.

Outro dia foi o Assigment Zero quem encerrou suas atividades, após anunciar uma revolução no jornalismo colaborativo. Depois, alguns de seus maiores entusiastas analisaram que a experiência “foi boa enquanto durou“.

Some-se a isso os fracassos consecutivos de Dan Gillmor, considerado o cara que melhor definiu a nova ordem na mídia mundial com seu livro “We the Media“, de 2004 _apesar de Chris Willis e Shayne Bowman (com prefácio de Gillmor!!!) terem detectado exatamente o mesmo movimento um ano antes na obra “We Media“.

Os projetos participativos sob o comando de Gillmor foram todos um fiasco, a ponto de gente colocar em dúvida essa coisa de “nós, a mídia“. Hoje, Gillmor bate ponto no Center for Citizen Media, que ainda não disse exatamente ao que veio.

Ainda acho que falta, aos projetos de jornalismo colaborativo, pautar os colaboradores, roteirizar o trabalho deles.

No jornalismo participativo isso é menos premente _manda quem quer e o que quer, e publica quem tem juízo.

Pior ainda é o ambiente sem moderação jornalística, ou coexistência pro-am. Nele, ainda impera um quê de vale-tudo, como evidenciam os sites que trabalham com a plataforma wiki e são gerenciados pelos próprios usuários.

O caminho para que nós sejamos, definitivamente, a mídia ainda é longo e mal foi percorrido…