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Jornalista até na hora da morte: a quase tragédia do voo 1244

Um dos cartões de embarque do voo 1244 que escaparam de torrar no incidente do urubu atropelado em Congonhas

Um dos cartões de embarque do voo 1244 que escaparam de torrar no incidente do urubu atropelado em Congonhas

Confesso ter acreditado piamente que, em vez de estar escrevendo agora, eu estaria morto.

O estrondo de uma turbina no exato momento da decolagem, às 10h37 desta terça, seguida de um forte cheiro de queimado que invadiu sem pedir licença _e imediatamente_ toda a cabine de passageiros, me deram o sinal de que algo estava errado naquela operação tão banal.

Eu viajava na fileira 22, ao lado de uma respeitável senhora. Na verdade, uma espécie de Luiza Brunet, porém loira, que chamara a atenção desde que se dirigiu a mim dizendo “O senhor me dá licença?” _sentença de morte para minha autoestima, nem precisa dizer.

E foi-se para sua janela a Brunet galega, na poltrona 22A. E eu, que sempre peço a do corredor, impávido como Muhammad Ali na 22C.

Voltemos ao estrondo e ao cheiro de fumaça. Eu, metido a entendido em pousos e decolagens, identifiquei o baque como aquele barulho que faz o trem de pouso ao ser recolhido. Na verdade, esse estrondo soou exatamente como o tranco que os macacos hidráulicos dão ao guardar essas peças. Tanto que, tranquilo, reparei no meu ex-prédio ali perto do complexo Itaú no Metrô Conceição. Até então, dava de ombros.

Mas logo caiu minha ficha. Não podia ser o trem de pouso se o avião nem bem tinha deixado o solo (eu diria até que não deixou, mas não tenho provas). Subimos. Subimos assim. Com um baque-estrondo e cheiro de queimado como acompanhamento.

A escalada dos acontecimentos me aproximou ainda mais da realidade. Imagine-se num Uno Mille subindo uma ladeira de paralelepípedo num dia chuvoso. Pois era esse o nosso avião. Não bastassem o estrondo associado ao instantâneo cheiro de queimado, decolávamos lentos como uma tartaruga, com as turbinas nitidamente no mínimo.

Essa situação incomodou particularmente os últimos 20 passageiros do voo Gol 1244 (Congonhas-Porto Alegre), todos funcionários da empresa aérea pegando carona na viagem pouco concorrida _eu contei no dedo, mas pode ter faltado alguém, 77 pessoas.

Subíamos “à peine”, como bem dizem os franceses, e começávamos a fazer voltas que sugeriam descontrole. Lembro de ter visto a represa Billings (“é última vez”, pensei). O dia estava nebuloso. Então até as nuvens em nossa volta eu queria desfrutar. “É a última vez”, não cansava de repetir comigo mesmo. Entrementes, o avião perdia altitude. De minha parte, preparei o fechar de olhos e o desaparecimento eternos.

Os passageiros nem tiveram tempo para reagir. Não houve gritos, só alguns poucos comentários. “Vocês ouviram esse barulho?”, indagou minha Brunet. Outro passageiro se dirigiu aos funcionários da Gol com uma observação altamente técnica: “Nessa hora da decolagem os motores não deveriam estar a toda? O que está acontecendo?”

Subitamente, recomeçamos a subir, ainda devagar, ainda com barulho de motor 1.0, mas subíamos. Bem melhor que descer, nessa circunstância.

Não soubemos o que houve até que uma voz que se identificou como comandante do Boeing contou que “o cheiro de churrasco de passarinho” se deveu à turbina esquerda do avião sugar “provavelmente um urubu”. As voltas foram justificadas como “uma saída das rotas de tráfego aéreo, por segurança”. E o comunicado terminava com um reconfortante “a tripulação e nossa manutenção em terra consideram seguro prosseguir viagem”.

Reconfortante uma ova. Foram os 100 minutos mais longos de minha vida, até a chegada ao aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. No desembarque, a janela do finger virou ponto turístico: todos os passageiros queriam ver o que houve com a turbina que comeu um pássaro. Cheguei a tempo de ver um conjunto de penas ser retirado por um funcionário em solo.

Já em terra firme, lembrei as duas coisas que pontuaram os momentos da crise. Primeiro, meu filho e minha família. No ar, quebrei as regras aeronáuticas ao sentir que estávamos indo pro brejo e saquei o celular para ver a cara sapeca do meu moleque e de minha companheira querida.

Mas, monolítico por jornalismo, também pensei no aspecto de virar notícia no dia da minha morte. Confesso que vi minha foto 3×4 debaixo do chapéu A TRAGÉDIA DO VOO 1244 de um jornal qualquer. Isso mesmo, enquanto penávamos para prosseguir no ar.

Virar notícia no dia da própria morte é algo que, positivamente, não planejei pra mim. E pensei (ainda quando o Uno Mille tentava vencer a ladeira de paralelepípedo na chuva) que os deuses deveriam chegar a um acordo e deixar sobreviver uma única testemunha, que seja, em cada tragédia. Para contar esses detalhes que, tivesse mesmo caído um avião, fariam diferença tremenda.

Mas que fique claro: não quero ser a testemunha outra vez.