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Tudo por um furo: de novo, a ficção vira realidade

A dica é do ótimo blog Sans Serif: no romance “The Almighty” (que eu traduziria simplesmente por “Deus”), de Irving Wallace, o protagonista, Edward Armstead, herdará um jornal com a condição de que, por um período determinado, o veículo bata o New York Times em tiragem.

Para conseguir a façanha, Armstead contrata uma gangue que passa a apavorar a cidade e seus arredores. Seus crimes e atos de vandalismo, claro, eram cobertos em primeira mão pelo New York Record, o jornalzinho que, enfim, supera o NYT.

Leia também: Pesada, ruidosa e lerda, era assim que se transmitiam fotos na pedra lascada do jornalismo

Wallace Souza, apresentador de um programa policial na TV e deputado no Amazonas, é acusado de fazer exatamente o mesmo _excetuando-se a questão do jornal e da herança.

O caso nem é inédito: no ano passado falei sobre um jornalista que, ele próprio, assassinava mulheres e depois escrevia reportagens sobre os crimes _com exatidão tal que acabaram levando a polícia a enquadrá-lo.

É tão clichê dizer que a vida imita a arte, mas não me ocorre nada melhor agora.

Talvez, apenas o adendo de que a vida supera, e muito, a ficção.

Um golpe no jornalismo cidadão?

Essa é muito boa para a pequena coleção de argumentos dos que costumam desvalorizar o jornalismo cidadão por uma suposta falta de credibilidade: no domingo, o iReport, espaço colaborativo da CNN, deixou passar uma história sobre Randall Stephenson, CEO da AT&T, que teria sido encontrado morto em sua “mansão multimilionária”.

Era mentira, um trote, mas o mais curioso é que a AT&T (provedor de acesso à web mais utilizado nos Estados Unidos) tomou suas próprias providências e bloqueou um dos fóruns mais movimentados da web americana na qual a informação já bombava e era debatida com fervor (do iReport a “notícia” foi excluída rapidamente).

Não foi a primeira vez que o iReport foi ludibriado por, digamos, engraçadinhos.

Evidente que a possibilidade de trotes não é uma exclusividade da era da conversação e altíssima tecnologia _eu vou voltar no tempo só até 1983, quando internet era um termo usado apenas por militares e alguns acadêmicos, para citar o caso Boimate, no qual a revista Veja foi enganada por uma brincadeira de 1º de abril.

São inúmeros esses “descuidos” editorais que remontam, certamente, à própria época de Gutemberg.

Não têm a ver, portanto, com a produção colaborativa de notícias. Mas é sempre bom repetir e reforçar, porque senão vai aparecer gente dizendo “tá vendo? eu sabia!”.

Isso não exclui a possibilidade de se fazer uma reflexão sobre qual o melhor processo de inserção do público dentro do noticiário.

O iReport, como se sabe, não possui moderação nem edição posterior, ou seja, as notícias ali publicadas (salvo se são mentirosas _mas de fácil checagem, convenhamos, senão jamais serão descobertas) não passam por qualquer jornalista profissional antes de ir ao ar.

Algumas, de tão boas, vão parar no site da CNN em pessoa (a empresa afirma que, até hoje, de quase 321 mil textos postados, 699 chegaram ao mainstream).

Pessoalmente, eu prefiro a mediação e a convivência pro-am, quer dizer, entre profissionais e amadores, o que dá origem ao jornalismo que conceituo como participativo _ou seja, o público efetivamente está participando de um processo. Falamos mais disso em breve.

Meu santo nome em vão

O conselheiro sentimental Alec mereceu um titulão forte na Veja

O conselheiro sentimental Alec mereceu um titulão forte na Veja

Totalmente offtopic, meio domingão: não curto ver meu nome assim, num titulão forte. E deu justo na Veja, pô…

Meu filho, que também se chama Alec, queria saber o que estavam falando dele.

Quem tem nome esquisito é assim, estranha mesmo…

Gay Talese e o orgulho de ser jornalista

É Gay Talese, em entrevista a Veja.

“As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. Já vi muitos jornais fecharem as portas. Nos anos 60, acabou The New York Herald Tribune, que era um grande jornal, mas grande mesmo. Antes, fechou o tabloide New York Daily Mirror. Eu cresci lendo revistas como Life, Saturday Evening Post, Look, e nenhuma delas existe mais. Em Nova York, havia quinze jornais”.

E termina: “[O jornalismo] é uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista.”

Plágio no jornalismo: a tal da hipocrisia

O caso da reportagem da revista Veja que usava aspas de outro texto, este publicado pelo Wall Street Journal, ressuscitou uma polêmica: afinal, como identificar (ou considerar) um plágio no jornalismo?

É essa a pergunta que faz o Knight Center for Journalism in the Americas.

Antes de respondê-la, que atire a primeira pedra quem nunca se serviu de uma aspa ou informação publicada por um veículo (estrangeiro ou nacional).

Certo ou errado (eu acho certo quando há citação à fonte, por exemplo), é prática corrente na imprensa _não apenas a brasileira, mas a mundial.

Não sei se é o caso de crucificar o profissional ou debater o assunto. Eu sempre prefiro a conversa.

Agora, óbvio que é hipocrisia lançar o jornalista à fogueira. Até porque quem faz isso certamente já “roubou” aspas ou informação. É tão corriqueiro nas redações que eu afirmo categoricamente.

O Caso Boimate revisitado: anatomia de uma barriga

Nasce um mito: a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

Nasce um mito: a barriga mais célebre da história da imprensa brasileira

A barriga mais célebre do jornalismo brasileiro completa, daqui a uma semana, 26 anos. Falo do boimate, história publicada pela revista Veja em sua edição datada de 27 de abril de 1983 _porém desde o dia 23 nas bancas.

A matéria (reproduzida acima) repercutia reportagem publicada pela ilibada revista New Scientist quase um mês antes, em 31 de março. Um infográfico (esse termo nem existia nessa época, usava-se “arte” mesmo) imenso tenta explicar o inexplicável. Pomposa, a resenha, que incluía aspas de um engenheiro genético da USP (busque por “Ricardo Brentane”) dava conta de um triunfo espantoso da engenharia genética: a fusão de células animais e vegetais.

O produto desta conquista era o boimate, como Veja apelidou. Em resumo, um tomate reforçado com células de gado que possuía uma polpa muito mais nutritiva e tinha “um futuro promissor na alimentação de pessoas”, como registra o texto do semanário da Editora Abril.

Ocorre que 31 de março é véspera de 1º de abril, data em que a mídia (principalmente a inglesa) costuma pregar peças em seus leitores. Até hoje essa tradição resiste.

A redação de Veja não percebeu as pistas, abundantes no texto, de que se tratava de um trote. Para começar, a fusão celular tinha sido obra dos pesquisadores Barry McDonald e William Wimpey _claras referências às redes de fast-food americanas McDonalds e Wimpy’s. Mais: ambos trabalhavam na Universidade de Hamburgo (ou Hamburg University, em inglês).

Veja não foi a única a cair no conto do boimate. A matéria da New Scientist foi lida parcialmente e debatida no Senado dos EUA durante uma audiência sobre as potenciais consequências ambientais da engenharia genética (procure por “McDonald”). Isso em setembro do ano seguinte, 1984.

Em 1983, o McDonald’s tinha uma loja havia dois anos em São Paulo _a primeira no país, dois anos mais velha, funcionava em Copacabana. A Wimpy’s, nem isso (a rede, ainda na ativa nos EUA, jamais desembarcaria no Brasil).

Era, também, bem mais difícil fazer jornalismo. Você ficava sempre com a sensação de que era o último a saber. Não havia internet nem Google, tampouco celular _logo, muito mais difícil localizar pessoas e checar a veracidade de fatos.

A própria telefonia, estatal e inoperante, deixava muitíssimo a desejar. Algumas ligações levavam horas para ser completadas para muitas vezes cair segundos depois. E dá-lhe discar (sim, o telefone era a disco e estropiava o seu dedo nessas mil tentativas).

O acesso a produtos impressos, então, proibitivo. Havia pesadas taxas sobre importação de livros, revistas e jornais. Mesmo assim, todos chegavam bem depois. No caso do jornal, com sorte, um só dia, mas revistas mensais (caso da New Scientist) ou semanais estavam pelo menos um período atrasados (às vezes dois ou mais).

O espaço entre o boimate original (31 de março) e o de Veja (23 de abril) revela exatamente o delay sobre o qual discorri acima. Normalmente, os jornalistas que viajavam ao exterior tinham a incumbência de trazer consigo na bagagem a maior quantidade de publicações possível. Era árduo saber o que a concorrência, especialmente os cachorros grandes, estava fazendo.

Para encerrar, as brincadeiras de 1º de abril na imprensa. Acho totalmente inadequadas. Felizmente essa bobagem inexiste no Brasil _a mídia de Espanha, Portugal e América Latina faz a mesma tolice e torpeza com seus leitores em 28 de dezembro, o dia da mentira deles (ao menos, sempre há fontes que enganam os jornalistas).

Não importa o quão estúpido seja o trote inventado, não me parece apropriado vindo de um veículo jornalístico.

Mas graças a eles o jornalismo deu à luz, há 26 anos, o boimate.

ATUALIZAÇÃO: Meu amigo André Marmota conta uma curiosa história de 1º de abril ocorrida no Brasil: foi em 1999, quando o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, decidiu publicar uma capa inteira com notícias fake (entre elas, a contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo São Bento, clube da cidade).

Veja assume erro e pede desculpas

Finalmente uma boa notícia para o jornalismo responsável: a revista Veja assumiu ter cometido um erro ao colocar o colégio Visconde de Porto Seguro em sua coluna “desce”, na semana passada, sob a justificativa de que “a escola paulistana obrigará os alunos a assinar um panfleto de propaganda petista”.

Era uma referência a Carta na Escola, publicação que recentemente entrou para o rol de leituras obrigatórias da instituição de ensino. Ou seja, apenas mais um round da desimportante rixa ideológica entre a publicação da Editora Abril e Carta Capital _cujos respectivos leitores nada têm a ver.

Sob o título “Veja errou” num vistoso rodapé com direito à logomarca da escola, a revista se desculpa nesta semana pelo “julgamento curto e drástico” e diz que não dispunha de informações “sólidas o bastante” para, outra vez, levar sua disputa anódina com a rival para o lugar onde deveria haver notícia.

Carta Capital, também com freqüência, toma tempo do leitor com referências e insinuações que, antes de atingir a concorrente, acertam em cheio quem deveria ser o mais respeitado: seu próprio público.

Vamos ver se aprende-se algo com o episódio. E que se poupe o leitor da rivalidade que só diz respeito _e mesmo assim internamente_ a veículos jornalísticos.

Patética, Veja trata leitor como idiota

A rivalidade (imbecil) entre as revistas Veja e Carta Capital (que no fundo são a mesma coisa, apenas com sinais trocados) bateu recorde de estupidez nesta semana, quando a publicação da Editora Abril colocou o colégio Visconde de Porto Seguro na coluna “desce”, que registra personagens em baixa no noticiário.

O motivo? A escola adotou, como leitura obrigatória, Carta na Escola, braço educacional da revista de Mino Carta.

Além de ridícula, a atitude trata o próprio leitor de Veja como um idiota completo. Nem sequer é notícia _e o público nada tem a ver com a concorrência (muito mais ideológica do que jornalística) entre os dois produtos.

Exemplo de como não fazer.

Veja, Carta Capital e o partidarismo

As discussões sobre a linha editorial de Veja e de sua congênere Carta Capital (idênticas, mas com sinais políticos trocados) são inspiradoras para o debate sobre a imparcialidade no jornalismo, que nasceu partidário e nunca livrou-se totalmente dessa tendência _só a academia ainda acredita nisso, em tese.

Não é, claro, um fenômeno brasileiro. O ativismo jornalístico existe onde quer que esta atividade profissional seja desempenhada. Veja o caso da Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, expulsou ongueiros da Human Rights Watch, que diz fiscalizar o cumprimento dos direitos humanos no planeta.

Mesmo distante (no caso, no Chile), o engajado Manuel Cabieses (diretor da irrelevante revista política Punto Final) levantou a voz para comprar a briga. Defendeu Chávez, atacou a ONG. Lado certo ou errado?

No jornalismo, não há lado. Há o todo.

É constrangedor assistir à profissão se partidarizar como em seus primórdios. Qual a credibilidade de um jornalismo sectário, comprometido com convicções de outrem?