Arquivo da tag: Valparaiso

Filial de jornalão chileno nasceu antes da matriz

Hoje peguei em mãos uma edição do jornal mais antigo do mundo em língua espanhola, o El Mercurio de Valparaiso, cujo número inaugural foi às ruas da bela cidade portuária chilena em 12 de setembro de 1827. É, agora, um modesto tablóide de 36 páginas com foco em assuntos do dia-a-dia, coluna social e classificados.

O jornal é um caso raro de filial nascida antes da matriz. Explico: sua atual nave-mãe, o El Mercurio da capital, Santiago, só seria fundado 73 anos depois, num momento em que a empresa jornalística do litoral passava por grave crise financeira e foi vendida.

Hoje, o grupo El Mercurio detém 15 títulos diários no Chile _e é inegável que o jornalão de Santiago, com seus respeitáveis 108 anos, é o mais influente e importante deles.

Ao ler o filhote de Valparaiso, chama a atenção a página “Pauta del Lector”, que pretende oferecer “reportagens” escritas pelos leitores. Cá como lá (o Brasil), o cidadão não tem a menor idéia do que é notícia e qual seu timing. Será por isso que o jornalismo cidadão não decola?

Exemplo: na edição de hoje, quarta-feira, o periódico publica uma nada empolgante história sobre um caminhão de loja que quebrou a lanterna de um carro particular (e cujo dono, o autor da “matéria”, tenta ser ressarcido). Detalhe: o incidente, que não é notícia nem aqui nem em qualquer lugar do mundo, ocorreu em 8 de agosto…

Outro exemplo da desimportância do jornalismo cidadão (pena, não é só o nosso) na América Latina: o outro texto da página relata uma agressão recebida por um vira-lata em 28 de setembro. Meu deus, nem dona maricota deve ter se dado ao trabalho de comentar essa…

Por sinal, ainda que antigo, há num site dedicado ao tema um relato de a quantas anda a interação entre meios tradicionais e seus leitores no Chile. Como se vê, a coisa não anda, seja deste lado da Cordilheira dos Andes ou do outro.

É por isso que a interação mediada (por jornalistas profissionais) ainda me parece ser a melhor forma de colocar as pessoas “comuns” dentro dessa caixinha de surpresas e macetes chamada jornalismo.

O jornalismo enxerga mas é cego quando quer

Os blogs ditos jornalísticos não conseguem, muitas vezes, se livrar das mesmas mazelas que afligem a imprensa tradicional. Como patrocínios e apoios que, se não posso apontar como suspeitos, cravo como aqueles do tipo que inviabilizam a credibilidade de qualquer um _e, lembrem-se, a credibilidade é a principal moeda do jornalista.

Vejamos o caso do jornalista chileno Raúl Gutiérrez, que escreve na Web sobre as coisas da “Grande Valparaiso”, como ele define em seu blog.

Valparaiso, para quem não sabe, é a cidade do coração dos chilenos. Foi aqui que o maior expoente literário do país (e um dos mais importantes do planeta), Pablo Neruda, concebeu boa parte de sua obra. Está à beira do oceano Pacífico, com andorinhas, pelicanos e outras aves cantando, voando e se alimentando o dia todo. É, ainda, a cidade dos “ascensores”, funiculares que fazem o transporte público ao topo das dezenas de morros densamente habitados que a cercam.

Pois bem, voltando a Gutierrez: seu blog, que trata de temas do cotidiano de cidades como Viña del Mar, uma conurbação com Valparaiso metida à besta (com direito a cassino municipal incluído), tem no topo um banner da prefeitura da cidade onde está estampado o rosto (por sinal, onipresente na cidade) da prefeita Virginia Reginato _blogueira “oficial” da municipalidade que só se licenciou da rede porque concorre à reeleição no pleito que aqui se realiza no dia 26 de outubro.

Esa eleição, por sinal, faz a gente sentir orgulho de iniciativas como as que varreram a propaganda incômoda das ruas de São Paulo. Por toda parte, o que se vê são panfletos, bandeiras e abomináveis cartazes colocados em cada esquina.

O blog de Gutierrez registra isso, via texto de outro jornalista, sob o adequado título de “Chile convertido en  un chiquero“, que dispensa tradução. Mas não cita “Dueña” Virginia, que aparece em dois de três tipos de qualquer sujeira eleitoral que você possa imaginar.

Virginia Reginato, prefeita de Viña del Mar, no Chile, emporcalhou a própria cidade

Virginia Reginato, prefeita de Viña del Mar, no Chile, emporcalhou a própria cidade

Daí eu, que cheguei agora por aqui e, algumas horas depois, cansado de tanto ver a cara da alcadesa (o nome em espanhol é belíssimo, vai…) em todas as esquinas procuro um blog local para conhecer o que se fala nesta cidade e descubro que quem transformou o Chile num chiqueiro foram os outros candidatos, não a prefeita Virginia _que não é citada no texto publicado num blog que fala sobre o cotidiano da cidade gerida por ela e que, curiosamente, é patrocinado pela dita cuja.

Em jornalismo, não basta ser honesto. Tem de parecer honesto também. Sempre.