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A falha humana e a automação programada para falhar

O que é pior: uma falha humana que faz um anúncio constrangedor ser publicado no maior jornal do país ou uma programação humana feita para falhar, como o link patrocinado, recurso que inevitavelmente coloca o jornalismo em situação ridícula?

Não tenho dúvida de que a automação preparada para falhar é muito mais grave. Afinal de contas, diferentemente do erro humano, sabemos de antemão que aquilo vai acontecer.

São os casos da notícia sobre a proibição da venda do cigarro eletrônico no Brasil acompanhada de links para se comprar o produto proibido, ou da trágica notícia de uma criança que ficou presa numa máquina de lavar roupa ladeada por anúncios de máquina de lavar roupa _que tratei aqui recentemente.

Mas tem gente que pensa que não é bem assim, caso de Tiago Dória, alguém que conhece das coisas. Pra ele, a falha de um subalterno de um departamento de publicidade, que levou às páginas da Folha de S.Paulo o anúncio em que o Extra se despedia da seleção brasileira (quando na verdade ela havia ganho do Chile), é mais grave.

E acho então que precisamos discutir um pouco mais a extensão do uso de robôs no jornalismo, porque é óbvio que ele não me serve a partir do momento em que eu sei, com antecedência, que irá me provocar problemas.

O Tiago diz que não e me questiona (“e depois tem gente que ainda vem falar sobre link patrocinado”, afirmou no dia do anúncio errado da Folha, abordando diretamente uma das bandeiras do Webmanario).

Bem… essa defesa incondicional é mais retrógrada do que um mero departamento comercial que recebe duas versões de anúncio e manda para as páginas do jornal o incorreto.

É até muito conformista se resignar com o vexame da automação. E uma grande pena.

Que tal encontrar novos usos para o jornal?

Enquanto discutimos que futuro terá o jornal, o USA Today arregaçou as mangas e pediu a um estilista (Isaac Mizrahi) que criasse um modelo com base em… papel-jornal.

O resultado você confere neste vídeo.

(via @tdoria)

As pessoas valem mais que as instituições

As máquinas de busca estão levando a audiência a acompanhar o trabalho de pessoas, não de instituições.

Essa constatação está no já velho State of News Media, mas resolvi trazê-la de volta por causa de Silvia Cobo, que fez uma boa análise deste momento do jornalismo.

A verdade é que, pesem os cortes na indústria formal, abundam oportunidades on-line para pôr boas ideias em prática e exibir o próprio trabalho.

Há um lado na crise do jornalismo que muita gente não vê: quem está cortando vagas é o mainstream. Só que agora o jornalista pessoa física vale mais do que seu empregador. O público (nossos leitores) tem essa noção claramente. Tanto que a busca na web por indivíduos, e não pelos títulos que lhes pagam, é bem mais expressiva.

Tiago Dória já havia comentado há mais de ano sobre essa tendência do lifestreaming.

E, por ela, qualquer jornalista que produza conteúdo pode se beneficiar profissionalmente.

Há oportunidades, mas não placas de precisa-se.

Tem de descobrir onde (e o que) é que precisa.

Notícias do jornalismo cidadão

Vindas diretamente da Espanha, duas recentes menções ao jornalismo cidadão me chamaram a atenção.

A primeira é do designer Javier Errea, que está por trás do redesenho de jornais premiados e verdadeiramente novidadeiros neste museu de grandes novidades que é o jornalismo impresso.

“O bom jornalismo, sinto muito dizê-lo, nunca será feito por leitores ou usuários, mas por bons jornalistas. Não que a informação pertença aos jornalistas, eu não sou corporativista, acredite. Mas desconfio muito da moda. E vivemos uma moda de jornalismo participativo”, afirmou.

Do outro lado do balcão, o amador Eduardo Arcos rejeita o rótulo de “jornalista cidadão” e diz que ele não existe _Tiago Dória já falou sobre este texto, mas atraído pelo canto da sereia. Arcos cobra um reconhecimento do mainstream (leia-se: crédito) e tenta se posicionar no palco. Ele pede holofote, o que é péssimo (até porque, no geral, esse crédito sempre existiu).

Diz que os amadores são usados pela grande mídia e lembra que, na era da publicação pessoal, qualquer um pode publicar fotos, textos ou vídeos (ou o que seja) na internet, dispensando a presença de uma corporação.

Daí lembrei que tenho uma restrição ao consenso de que jornalismo participativo (ou colaborativo) e cidadão são sinônimos. Pra mim, não são. A participação me supõe uma mediação profissional. Daí participação. Participar do processo de contextualização de uma notícia. O jornalismo cidadão entendo como o ambiente em que pessoas colocam no ar, sem edição profissional, seus conteúdos noticiosos.

Preocupam-me, também, as duas visões. A do insider, caso de Errea, que vê moda numa coisa inexorável que a tecnologia deu a todo mundo. Ele, moderno no design de notícias, é um dinossauro quando o assunto é conversação.

E a do blogger espanhol ressentido, que se sente usado pela grande mídia (parar de reportar talvez seja a solução?).

Os dois estão bem errados.

Mas legal que tem mais gente falando sobre essa encruzilhada (texto caudoloso em espanhol, mas bacana).

Jornalismo sem jornalistas (e notícias)

O consultor Tiago Dória diz que o problema do jornalismo colaborativo (aquele em que o usuário faz suas próprias matérias) no Brasil é a adoção do modelo do Ohmynews, o site sul-coreano apresentado como a trincheira do cidadão sob o lema “cada cidadão é um repórter”.

“O contexto do OhmyNews é bem diferente. Na Coréia do Sul, a mídia é vista como conservadora e chapa branca. Existe uma demanda por veículos alternativos de comunicação e o OhmyNews é um deles. Por isso, as pessoas fazem questão de participar do projeto”, diz Dória ao site-projeto “Vc é a Mídia”.

Vejam, no Brasil a mídia é vista exatamente da mesma forma (conservadora e chapa branca) que na Coréia do Sul _aliás, trata-se de uma visão quase planetária. E isso não significou que o jornalismo participativo tenha superado a fase do “meu-cachorro-fez-xixi-no-poste” (a irrelevância do conteúdo enviado pelo usuário nacional ainda é de doer).

Mesmo com pesquisas do próprio “Vc é a Mídia” indicando na direção oposta, eu prefiro discutir sobre dados concretos os conceitos de notícia e relevância. Por ora, as experiências de colaboração no Brasil, especialmente em grandes portais, seguem pífias e desinteressantes.

Não por culpa, como sustentou Tiago Dória, da aplicação do modelo Ohmynews. Lá, inclusive em atitude que eu considero desvirtuadora da colaboração, o site está amestrando cidadãos para que eles se comportem como repórteres (coisa que tão cedo não vai rolar por aqui).

Além disso, há forte mediação profissional sobre o conteúdo apresentado. É assim também, por exemplo, nas experiências participativas de Terra e G1 _o “Vc é a Mídia” não conta, mas o material que você lê no ar foi profundamente editado e, na maioria das vezes, lembra vagamente a contribuição inicial, invariavelmente sem lide, pé ou cabeça.

É, essa história de jornalismo sem jornalistas ainda vai dar muito pano pra manga.