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As fontes sumiram

Eis um efeito colateral interessante da megavilância a que o governo dos EUA tem submetido o tráfego de dados: o presidente da Associated Press (AP), Gary Pruitt, disse que fontes simplesmente estão deixando de falar com os jornalistas da agência com medo de serem descobertos.

Esse é o ponto crítico quando se estabelece um terror como a inexistência de privacidade: a inexistência de informações circulando.

Sobre blogueiros e jornalistas

A notícia de que a corte suprema de Nova Jersey determinou, ao julgar um caso, que blogueiro não é a mesma coisa que jornalista tem um erro de viés. Não foi exatamente essa a decisão do tribunal.

O caso envolvia Shellee Hale, ex-funcionária da Microsoft, que postou comentários em um fórum acusando de fraude e ameaça de morte uma companhia que produz softwares usados na indústria pornográfica.

Tivesse utilizado seu site pessoal (ainda em construção) e, mais especificamente, a área de notícias da página, Hale não poderia ser processada.

Portanto, a corte não entendeu liminarmente que uma pessoa que mantém trabalho jornalístico na internet mesmo sem ser jornalista profissional está totalmente desprotegida de leis como a que permite o sigilo de fontes.

Sugeriu, apenas, que “jornalistas autointitulados e entidades com pouco histórico” carecem de maior investigação sobre suas atividades antes de se decretar que podem ou não ser defendidas como jornalistas.

Agora, que blogueiro e jornalista não são a mesma coisa já sabíamos há tempos. A atividade jornalística não é a única que se pode desempenhar num site pessoal. Isso basta para esclarecer que uma coisa nada tem a ver com a outra.

Escrever, pura e simplesmente, não é jornalismo.

Os jornalões estão em guerra

Vazamento de informações sigilosas não estão apenas na ordem do dia da política brasileira, mas também do jornalismo internacional.

No momento, New York Times e Wall Street Journal, dois dos mais importantes jornais do mundo, estão em pé de guerra por causa de métodos nada éticos para obter informação _caso de alguns veículos de propriedade de Rupert Murdoch, dono do WSJ.

Permito-me reproduzir texto de Kenneth Maxwell publicado ontem pela Folha de S.Paulo. É o resumo da ópera.

“No mundo da mídia impressa, há uma batalha monumental em curso entre o “New York Times”, de Arthur Sulzberger, e o “Wall Street Journal”, de Rupert Murdoch.

Para Murdoch, o “New York Times” representa tudo o que ele mais odeia no jornalismo, e o empresário parece determinado a desafiar e a solapar o seu grande rival. Murdoch é notório pelas suas guerras jornalísticas, especialmente no Reino Unido, onde controla o “Times” e o “News of the World”. Mas a disputa entre o “Wall Street Journal” e o “New York Times” promete ser a maior das batalhas.

O mais recente episódio começou com uma reportagem investigativa de Don Van Natta Jr., Jo Becker e Graham Bowley, publicada pelo “New York Times” com o título “O ataque do tabloide: as escutas de um jornal londrino contra os ricos e famosos”.

A Scotland Yard identificou a origem de escutas usadas contra família real e chegou a Clive Goodman, antigo repórter judicial, e Glenn Mulcaire, antigo investigador particular, que também trabalhava para o jornal “News of the World”.

Os dois haviam obtido as senhas necessárias para ouvir as mensagens de voz dos príncipes Andrew e Harry. O “New York Times” alegou que repórteres do “News of the World” também invadiram as caixas de mensagens de voz de centenas de celebridades, funcionários do governo e astros dos esportes britânicos.

Tanto Goodman como Mulcaire foram demitidos e aprisionados. O “New York Times” acusou, no entanto, que a Scotland Yard não levou adiante as investigações sobre pistas que sugeriam que o “News of the World” estava conduzindo operações de escuta contra cidadãos de maneira rotineira.

O foco estreito da investigação permitiu que o “News of the World” e sua companhia controladora, a News International, de Murdoch, atribuíssem o caso às ações de um jornalista. Tanto Goodman como Mulcaire abriram processos contra o “News of the World” -os dois casos foram encerrados por meio de acordos extrajudiciais. O editor do “News of the World” no período em questão, Andy Coulson, também se demitiu. Hoje é diretor de comunicações na equipe do primeiro-ministro David Cameron.

A revista “Vanity Fair” afirmou nesta semana que assistir à disputa era como “ver uma briga entre os Corleone e a família Tenembaum”. Na segunda-feira, John Yates, comissário assistente da polícia londrina, disse que, “se surgirem novas provas, que justifiquem novas investigações, é isso o que faremos”.