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Previsões para 2010: o ano em que cobraremos por conteúdo

2010 será, finalmente, o ano em que cobraremos por conteúdo?

Para alguns magnatas de mídia, certamente. A cruzada pelo pagamento por consumo de notícias, como se notícia fosse, por exemplo, música, move os últimos anos da vida de Rupert Murdoch _que rompeu com o Google e, mediante um acordo com o Bing, não vai sumir totalmente das máquinas de busca.

Richard Pérez-Peña faz, no NYT, uma análise coerente da escalada de acontecimentos que levou à drástica decisão de setores do mainstream (como o próprio NYT) a dar um tiro no pé e passar a cobrar pelo que os internautas sempre tiveram (e terão) de graça.

A constatação de especialistas ouvidos na matéria do NYT casa com a percepção geral de que conteúdo muito específico, como o econômico, o único que as pessoas não querem compartilhar, ou de nicho são capazes de prosperar num ambiente de payperview. Sites noticiosos generalistas, porém, dificilmente poderão se manter se adotarem a proteção do paredão pago.

Minha única dúvida é saber quanto vai custar, para a grande mídia, cobrar por conteúdo jornalístico. Será bem caro e sugere, de antemão, que haverá passo atrás.

É pagar pra ver.

O erro dos jornais que investem contra o Google News

Folha e O Globo aderiram, na semana passada, à Declaração de Hamburgo, um documento da indústria dos jornais que clama pelo “respeito às leis de propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet”.

O problema é que a carta (PDF), como quase sempre acontece quando neófitos tentam falar ou legislar sobre a web, imagina ser capaz de definir limites absolutamente incontroláveis porque a internet, e quem não sabe disso parou no tempo, é dominada pelo usuário, não por grandes corporações.

Primeiro que os publishers deixam claro que a cobrança por conteúdo é uma prioridade _quase uma panaceia que estabelecerá paredões pagos cujo único efeito prático será o desaparecimento das marcas (e de seu conteúdo) da internet “legal”.

Claro, se você se fecha totalmente a assinantes, se esconde do resto do mundo que usa as ferramentas de busca para encontrar o que deseja. Sem contar que nem isso garante a proteção ao seu rebanho _seu conteúdo será distribuído de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes por pessoas que amam você.

Outro erro da indústria jornalística é investir contra agregadores como o Google News. Pode ter certeza de que eles não estão usurpando seu conteúdo, mas o divulgando e levando a lugares que você jamais esperava alcançar.

E não me venham falar no exemplo do The Wall Street Journal, que a cada dia amplia sua carteira de assinantes on-line (eles já são bem mais de um milhão). Informação econômica (e que se reverte em dinheiro) é precisamente a única que o ser humano não está disposto a compartilhar.

Bem por isso Rupert Murdoch adiou recentemente seu plano de cobrar pelo acesso aos sites jornalísticos sob o seu comando. É que é preciso uma justificativa muito forte para fazer as pessoas pagarem pelo que é de graça há tempos na internet.

Trabalho para um psicólogo mesmo.

Conteúdo pago: crônica de uma morte anunciada

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Como se aproxima rapidamente a hora em que alguns dos principais jornais do mundo voltarão a cobrar por conteúdo (não deve passar do início do ano que vem, num movimento que inclusive pode ser considerado cartelização e, posteriormente, vetado), chega em boa hora pesquisa do site Paid Content que, como o nome diz, defende o tiro no pé e o suicídio de se cobrar por aquilo que há anos é de graça e, mais, que se pode encontrar em qualquer lugar na internet.

Mas enfim, o site perguntou o que as pessoas fariam se, de repente, a página de notícias preferida delas passasse a cobrar por conteúdo.

Bem, as respostas estão no quadro acima. Destaco que só 5% aceitariam pagar assim, na boa. E olha que esse levantamento foi feito na Grã-Bretanha. Aposto que, fosse no Brasil, a adesão ao conteúdo pago seria ainda menor.

 Aproveitando o assunto, vale muito a pena ler (e ouvir, pois o áudio está disponível também) mais um pouco das opiniões de Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, sobre o assunto.

A frase emblemática deste colóquio: “Deixem mil flores para substituir os jornais, mas não criem um paredão pago em torno de um bem público”.

Não, a culpa não é da internet

Interessante a teoria de Jeff Sonderman, para quem as notícias sempre foram de graça. Ou seja: a culpa pela crise dos jornais não é da Internet e seu modelo de distribuição gratuita de informação.

De fato, todos os registros sobre circulação de jornais nos Estados Unidos mostram uma tendência de declínio nas tiragens já na década de 80, antes mesmo da chegada da internet (até então um recurso apenas militar e acadêmico) ao circuito comercial.

O debate voltou à tona após o magnata Rupert Murdoch anunciar que, “em meses”, seus jornais vão cobrar por notícias distribuídas on-line, o que na visão de Jeff Jarvis, professor da Universidade de Nova York e um dos principais estudiosos sobre o futuro do jornalismo, “abre as portas” para a concorrência.

Para Jarvis, cobrar por conteúdo é um tiro no pé porque onera as empresas em custos de marketing e serviços de suporte ao assinante, além de potencialmente reduzir sua audiência _e, consequentemente, valor e volume de seus anúncios.

Para piorar, o paredão da notícia paga exclui seu material das máquinas de busca e também da linkagem externa, outro potencial anabolizante de tráfego.

A história da economia dos jornais nos conta que, efetivamente, o produto era pouco popular até 1830, quando houve o advento do que ficou conhecido como “penny press” (tabloides muito baratos que custavam “uma moeda”).

Com o preço baixo, os jornais atingiram mais e mais leitores. A situação imediatamente atraiu um leque variado de anunciantes. E foi deles que veio a verba que cobriria, pelos séculos seguintes, os principais custos de um produto desta natureza  (equipe, instalações, impressão e distribuição).

Neste cenário, as assinaturas foram capazes de dar conta apenas dos custos marginais de todo o processo. Em resumo: se o dono de um jornal quisesse compensar isso aumentando o valor da subscrição, imediatamente afugentaria leitores.

É basicamente o debate que está acontecendo agora no jornalismo on-line. Como não conseguem fazer dinheiro com anúncios, os donos de jornais decidiram carregar a mão no valor da assinatura.

Funcionará? Já sabemos de antemão que não.