Arquivo da tag: resenha

Jornalistas sem edição

Parece que o romance “Os Imperfeccionistas”, do ex-jornalista Tom Rachman, retrata como nunca as agruras desta profissão amada.

Ao menos é que descreve meu amigo Fabio Victor em resenha publicada ontem pela Folha de S.Paulo.

Só jornalistas conseguem reproduzir esse hospício diário com fidelidade.

Consultor discute como dar sentido à massa de dados na rede

Segue abaixo crítica que fiz do livro Pull (publicada ontem pela Folha). Nele, David Siegel consegue explicar a evolução da web semântica, sem entretanto escapar de uma coleção de clichês e do inevitável “você ainda vai ganhar muito dinheiro com isso” que povoam 100% das obras traduzidas sobre o tema para o português.

“Ainda que sem dolo, Tim O’Reilly fez um grande mal à internet ao batizar seu evento para debater o futuro da rede como Web 2.0, termo que se revelou apenas mais um rótulo marqueteiro.

Trata-se de uma evolução impossível de pontuar aleatoriamente em números simplesmente porque alguém decidiu que é assim.

David Siegel é sutil ao prever que, quando todos os aplicativos forem hospedados na “nuvem” (ou seja, na web, não em hardwares), chegaremos à fase 4.0.

Outro rótulo, mas “Pull – O Futuro da Internet e o Impacto da Web Semântica em Seus Negócios” está forrado deles. Alguns, porém, são surpreendentemente bons.

Por exemplo, explicar web semântica como algo “inequívoco”, como faz Siegel, é bem didático e esclarecedor.

E o que isso significa? Que, se eu procurar informações sobre uma pessoa, as chances de chegar a um homônimo serão bem próximas do zero.

Essa é a vantagem de uma estrutura semântica numa rede que, afinal de contas, serve para coletar e organizar informação, pessoal ou não.

É nela que repousa a crença de Siegel em que a economia será revolucionada por armários de dados pessoais com todas as nossas preferências _que poderão, graças à semântica, ser acessadas rapidamente.

Desde que a web é web, ela precisa ser semântica, necessidade básica cumprida com algum louvor _não avançamos por acaso da fase da navegação impessoal em páginas iniciais para a estruturada na busca. Os algoritmos das ferramentas de pesquisa procuram todo o tempo atribuir significado ao conteúdo.

A questão é que o passo definitivo tem de ser dado por milhões de indivíduos, os consumidores e produtores de conteúdo, principais responsáveis pela catalogação inequívoca de seus próprios dados. Ao lado disso, a criação de bancos de dados com todas as nossas transações comerciais e pessoais (já em curso) joga um papel decisivo nesse processo.

Siegel escreve ainda sobre o que seria uma revolução: que a web profunda, ou cerca de 90% da rede, pudesse estar disponível. É um caminho distante, mas que também já começou a ser trilhado.

Hoje, essas informações em boa medida estão escondidas dos mecanismos de busca, mas, aos poucos, começam a ser indexadas.

O centro da atividade on-line é o indivíduo, diz Siegel. Faz todo sentido numa época em que pessoas são muito mais importantes que instituições. O usuário está no controle, mas, para conhecê-lo melhor (e mais rápido), as empresas terão de modificar radicalmente a forma como se relacionam com ele.

Se a obra de Siegel não é uma visão nova ou revolucionária sobre o momento que estamos vivendo agora, ao menos nos reforça o caráter inevitável da transformação.”

Livro analisa mudanças que a tecnologia impôs ao jornalismo

Numa era em que o avanço tecnológico deu uma imprensa particular para cada um, é impossível falar de jornalismo on-line sem abordar a participação do público.

O fim da fronteira entre mídia formal e a ex-plateia, como muito bem teorizou Jay Rosen (professor da Universidade de Nova York), é apenas um dos aspectos que a jornalista Magaly Prado aborda no livro “Webjornalismo”, lançado nesta semana pela Editora LTC.

Apesar de muitos jornalistas não terem percebido que seu trabalho mudou com a vida em rede, é óbvio que instâncias pessoais de manifestação (como os blogs) e a capacidade de vigilância e mobilização que a internet proporcionou às pessoas tornaram o fazer jornalístico um exercício de conversação.

Vivemos a época dos “‘produsers” _o termo é uma junção de produtor e usuário e foi cunhado em 2005 por Axel Bruns, autor de uma obra importantíssima para se compreender a transformação da profissão, “Gatewatching”, jamais traduzida para o português.

Com proposta didática e voltada para a sala de aula, Magaly discorre sobre essa nova e auspiciosa fase do jornalismo profissional, agora tocado a muitas mãos.

Mas é claro que a internet, onde a colaboração entre profissionais e amadores é muito mais evidente, também abriga práticas de jornalismo, digamos, tradicionais.

Com linguagem fácil e fragmentada (às vezes, fragmentada até demais), Magaly aponta boas práticas, mostra caminhos adotados no país e no exterior e, por meio de depoimentos de importantes profissionais da web brasileira (algumas vezes sem edição e publicados na íntegra), refaz a trajetória da plataforma desde 1995, quando desembarcou comercialmente por aqui.

Com cerca de 150 imagens, quase todas impressões de tela, o livro de Magaly também discorre sobre a chegada do iPad e sua influência na produção de conteúdo.

Ainda faltam, em português, obras que consigam abarcar toda a complexidade que a rede trouxe para o jornalismo. Mais difícil ainda é resumir, em papel, as vastas possibilidades do meio on-line nesta profissão tão antiga. O livro de Magaly é, nesse aspecto, uma boa tentativa.

WEBJORNALISMO
AUTORA Magaly Prado
EDITORA LTC
QUANTO R$ 40 (272 págs.)

(resenha que publiquei na edição de sábado da Folha de S.Paulo)

Estudo sobre jovens e web é pretexto para vender lições

Entra best-seller, sai best-seller, Don Tapscott continua a escrever para um público que ainda se surpreende com o que a internet fez por nós e também com tudo aquilo que podemos fazer com ela.

Foi assim em “Wikinomics”, talvez o maior sucesso do canadense, palestrante disputado e consultor na área de novas mídias -a obra chegou a 22 países.

É assim em “A Hora da Geração Digital – Como os Jovens Que Cresceram Utilizando a Internet Estão Mudando Tudo, das Empresas ao Governo”.

Originalmente lançado em 2008, o livro é desnecessário: é um pretexto para vender as ideias (e o negócio) de Tapscott, um persistente candidato a guru tecnológico que jamais abandona o tom de autoajuda em seus escritos.

Bem por isso, a obra se dedica a dar conselhos de toda sorte. De métodos para ter uma mente aguçada a dicas para gestores, empreendedores, pais e até governantes.

Desta vez, pelo menos, há trabalho duro por trás: o livro é resultado de uma pesquisa que custou US$ 4 milhões e ouviu mais de 10 mil jovens sobre seu comportamento na internet.

Claro, é tudo muito americano (defeito menos grave do que os quase dois anos que separam o levantamento da chegada ao público brasileiro, uma eternidade em se tratando da web).

Porém o canadense discorre, sempre com a segunda intenção de vender algum tipo de solução fácil (ele é dono da empresa que coordenou a pesquisa), sobre assuntos que outros autores já abordaram de forma definitiva.

REFERÊNCIAS
Como o engajamento político, por exemplo, dissecado em cada palmo pelo sociólogo espanhol Manuel Castells no brilhante tratado “Communication Power” (O Poder da Comunicação, Oxford University Press, 2009).

Ou a força da mobilização e da vigilância do público pela internet (e também a produção colaborativa de conteúdo), objeto de estudo de Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, no indispensável “Here Comes Everybody” (Aí Vem Todo Mundo, Penguin, 2008).

Assim como a inevitável convergência de mídias e produtos, uma necessidade dos tempos da conexão integral, que Henry Jenkins analisa com primor em “A Cultura da Convergência” (Aleph, 2008) -única das três obras citadas que possui tradução para o português.

O novo livro de Tapscott tem, no entanto, o mérito de tentar resumir todos esses assuntos, fundamentais para se compreenderem as mudanças pelas quais o mundo está passando.

Analisar esse contexto de transformação tendo como ponto de partida a geração que já nasceu digital acaba sendo, de fato, uma boa ideia. Mas sem pensar em usá-la para ensinar lições de como proceder diante da avalanche da tecnologia.