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Ditadura ou civilização?

Interessante “outro lado” do presidente do Equador, Rafael Correa, que em entrevista à colega Flávia Marreiro diz que tentativas de regulamentar a mídia são vistas como ditatoriais, quando propostas na América Latina, e “uma resposta da civilização”, quando surgem na Europa. Para pensar.

“Quando as respostas vêm do Primeiro Mundo, é civilização, mas quando vêm da América Latina são ditadores famintos de poder que querem calar os heroicos jornalistas que só revelam a corrupção dos políticos.

Ou seja, na América Latina e no mundo inteiro, o poder midiático é um poder imenso. Provavelmente maior que os Estados, frequentemente sem ética, em função de negócios privados. Eles proveem um direito, mas, por definição, se estão num dilema entre garantir um direito ou garantir o lucro da empresa, prevalece o segundo. Temos de saber o que estamos enfrentando.

Quando Alemanha prende 23 pessoas, fecha uma rádio em novembro ou dezembro de 2010 por fazer propaganda nazista, isso é civilização. Quando, de acordo com a lei, processamos um jornalista que me acusou de criminoso, de ordenar atirar sem aviso prévio em um hospital cheio de civis, pura e simples difamação, é atentando à liberdade de expressão. Acabemos essa moral dupla.

O problema nem está sobre quem tem a propriedade, que já é um problema –quem tem os meios de comunicação na América Latina, os pobres, a Madre Tereza de Calcutá ou as oligarquias? Qual tem sido a prática? Fazer um empório econômico, vimos como foi em Equador. Ter 200 empresas, entre elas o maior banco do país que quebraram de maneira fraudulenta, aliás, e depois comprar canais de TV, jornais. Para que? Para informar? Não, para defender o empório.

O problema, além da propriedade, é a própria forma de produção que tem de questionar. Como é possível que um direito tão fundamental para a coesão social, para a liberdade, para os demais direitos como é a informação, esteja em mãos de negócios privados? E já que está, e ante esse tipo de problemas, o que se necessita é controle social. E como se realiza controle social nos Estados modernos? Por meio de leis, com legitimidade democrática.

Por isso é óbvio que necessitamos de lei para regular o poder midiático. E é isso que bloquearam por quatro anos na Assembleia do Equador. Isso é o que o poder midiático e seus cúmplices na Assembleia Nacional vem bloqueando.”

Escândalo de escutas ilegais reabre discussão sobre controle da mídia no Reino Unido

Como era de se esperar, o escândalo de escutas ilegais (e outras cositas más) perpetradas por veículos do grupo NewsCorp, de Rupert Murdoch fez recrudescer, na Inglaterra, a discussão sobre o controle da mídia.

Stephen Coleman, professor de comunicação política na Universidade de Leeds, aborda o aspecto de responsabilidade da mídia, mas abre uma avenida que pode transformar o mero controle: que a nova regulamentação se preocupe ainda em capacitar jornalistas e investir em pesquisas sobre ética e procedimentos.

“Não há nenhuma habilidade específica para se tornar um jornalista, mas padrões básicos que precisam estar no foco”, diz ele.

A culpa não é do estagiário

Já tinha me esquecido do detestável “tira o estagiário daí” com o qual as pessoas (os leitores) reagem a erros no jornalismo. De volta à linha de frente da interação, minha memória foi refrescada por essa bobagem.

Primeiro, as pessoas não sabem que o jornalismo nem sequer tem estagiários. Tá, existe um ou outro, mas a figura nem sequer está regulamentada por lei nesta profissão ora desregulamentada.

Mas o ponto não é esse: não consigo entender por que tratar todo erro como se fosse fruto de inexperiência, sendo que os veteranos perpetramos barbaridades diariamente no exercício do jornalismo.

Aliás, um foca não comete nenhum erro sozinho. Logo, não tem responsabilidade alguma. Antes de recorrer ao reducionismo de tentar vexar alguém que está começando, aponte o dedo para o supervisor do cara, que deu de ombros e é o verdadeiro responsável pelo pepino.

A melhor regulamentação que existe

Outro dia Merval Pereira (que pôs uma tachinha no currículo ao ser eleito membro da Academia Brasileira de Letras) discorria sobre o caso de ética na apuração de notícias que a Grã-Bretanha ora discute _é o assunto jornalístico do ano, atenção povo que está em dúvida quanto ao TCC.

Merval é um grande e não precisava da ABL para ser reconhecido pela competência.

Sobre o tabloide de Murdoch: para o colunista, a melhor regulamentação é a da opinião pública. O News of the World teve de fechar as portas por rejeição do público a seus métodos.

É isso mesmo, imortal Merval.

E nós aqui, ainda falando de “controle social da mídia”.