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Duas décadas de sucesso no rádio

“Mas quem é que vai ficar ouvindo notícia o dia todo no rádio?”. Essa era a pergunta que todo mundo se fazia em 1991, quando foi ao ar a primeira emissora temática em jornalismo do país, a CBN, que hoje completa exatamente 20 anos.

Não conhecíamos o conceito de audiência rotativa (tão antigo quanto o próprio rádio) e, mais, duvidávamos da eficiência do modelo de nicho, já testado e aprovado àquela época em outros países, como os Estados Unidos.

Longa vida à CBN.

Estudo sobre o fantasma da censura no rádio

Interessante trabalho multimídia concebido para exibir o levantamento patrocinado pela Fundação para a Liberdade de Imprensa (Flip) sobre a censura ao meio rádio na Colômbia.

Entre os assuntos abordados no competente material, um que permeia o trabalho jornalístico radiofônico desde sua invenção: a incompatibilidade entre isenção jornalística e a pauta publicitária.

Neste caso, os pesquisadores centraram foco na pressão oficial: como dono das concessões e potencial anunciante, o governo federal exerce uma pressão sem precedentes sobre os radialistas colombianos.

Não é uma realidade muito diferente da que assistimos no Brasil, onde emissoras têm recebido tratamento preferencial do governo, conquistando entrevistas exclusivas com a presidente Dilma Rousseff _desde que assuntos espinhosos, claro, não sejam tratados nas conversas.

Internet, o meio que mais cresce

A internet é o meio que mais viu crescer o faturamento publicitário no primeiro semestre deste ano, alcançando 5,5% de todas as receitas da mídia na rubrica.

Mídia exterior e TV por assinatura aparecem logo depois.

Programa de rádio brasileiro está há 74 anos no ar

O programa Hora do Fazendeiro, uma espécie de Globo Rural do rádio, completa 74 anos de transmissão ininterrupta neste ano. Sempre pela Inconfidência AM, emissora pública de Minas Gerais, discorre sobre serviços, meteorologia, cotação de produtos agrícolas, gastronomia e música.

É razoável supor que se trata do programa jornalístico de maior longevidade no Brasil _sua primeira edição foi ao ar em 7 de setembro de 1936, dias após a fundação da emissora. Há quem diga que o recorde de resistência é mundial.

Não há rastro do programa na web: ou seja, ele sobreviveu esse tempo todo trafegando apenas em sua plataforma original, o rádio, aprimorando seus conceitos ao lado dos ouvintes. É um exemplo vivo da teoria da Tábula Rasa, de Locke.

Acertando e errando, o programa está aí, alheio a toda essa movimentação tecnológica que transforma a mídia. Bom ter esse tipo de coisa aparentemente imutável para se contrapor ao cenário constante de mudança. Nem tudo que muda demais é bom o bastante.

A derrota do cidadão (e o triunfo do jornalismo profissional) revisitados

O texto em que eu detectava a derrota do cidadão para o jornalista profissional na cobertura do terremoto no Haiti suscitou polêmica e debate. Ainda bem, pois exatamente para isso que foi concebido.

A colega Ana Brambilla percebeu algumas coisas como eu: que faltou conteúdo produzido ou atualizado pelo cidadão, especialmente no primeiro momento, e que nunca a mídia formal desesperou-se tanto por contribuição do público sem, entretanto, obter resposta.

Ela cita o trabalho de reportagem de Carel Pedre, a grande referência na cobertura da tragédia (ao lado do canadense Pierre Côté, este reportando de seu país, mas entrevistando, via webcam, muita gente que estava in loco). Ambos são jornalistas _Pedre é um dos mais populares radialistas do Haiti e ainda comanda programas na TV, enquanto Côté há tempos faz transmissões experimentais na web e vive de doações de sua audiência.

Yuri Almeida, aliás Herdeiro do Caos, corrobora minha sensação de que a exclusão digital pode ter sido determinante para explicar o vazio da cobertura cidadã. E cita o poder do rádio como provável canalizador de interesses comuns no cenário da tragédia. Isso só corrobora a tese de que, desta vez, a cobertura foi profissional.

Não estou assumindo a defesa liminar do jornalismo profissional, como fui advertido por quem lembrou do blog de estudantes da Unicamp que estão visitando o Haiti. O blog não foi citado no texto original porque tinha atualização muito deficiente nas horas que seguiram à tragédia, justo quando mais se precisava dele.

Depois de alguns dias, o grupo passou a escrever mais e postou até algumas fotos _uma possível demonstração de que o senso de agilidade, vital ao bom funcionamento do jornalismo, pode ser bastante distinto quando se compara amadores e profissionais.

Quem chegou eventualmente ao Webmanario por obra da busca “Haiti” + “terremoto” pensou estar diante do último bastião de defesa do mainstream. Nada mais equivocado. Os que conhecem o repertório deste site sabem que sou um dos maiores entusiastas da autocomunicação de massas _como tão bem definiu o sociólogo Manuel Castells ao se referir à era da publicação pessoal em seu livro “Comunicación y Poder“, recém-lançado.

O cidadão perdeu para o jornalista na cobertura do terremoto do Haiti, é fato. Que merece ser estudado para entendermos em que circunstâncias isso pode ocorrer de novo, desmontando ou ao menos limitando o mito da testemunha ocular onipresente habilitada a publicar na web algum pedaço da história que testemunhou.

Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debatem o jornalismo

A convite da CBN, Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debateram os destinos do jornal impresso (e, consequentemente, do jornalismo) no programa Notícia em Foco, que vai ao ar sempre às segundas, às 19h.

O tema foi a sustentabilidade do negócio jornal.

Bucci imagina um mundo em que as empresas jornalísticas serão sustentadas “pelo menos em parte” por seus leitores. Motivo: manter a independência do veículo (quer dizer então que até hoje ela nunca existiu de fato?). Rossi diz que uma mudança desse tipo levaria mais tempo do que os anos que ainda têm a viver _ele tem 66.

O tema nada mais é do que um desdobramento do micropagamento, a bobagem lançada nos últimos meses como um último apelo pela grande imprensa _especialmente a dos EUA e Europa, esta sim verdadeiramente ameaçada de extinção. Mais do que o micropagamento, a doação (ainda inviável, por questão cultural e burocrática, no Brasil).

Sobre a produção jornalística colaborativa on-line, o colunista e repórter especial da Folha de s.Paulo deu um exemplo bizarro. “Se um blog me recomendasse, digamos que no dia 14 de setembro do ano passado, que eu investisse em ações do Lehman Brothers, quem eu iria processar?” (a falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é apontada como um dos estopins da crise financeira global).

Não entendi, porque eu tampouco teria respaldo jurídico para processar um jornalão que fizesse o mesmo.

Ou teria?

Bucci, professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e com um vasta experiência no mainstream como jornalista, bateu muito na tecla do financiamento público do jornalismo _pelo público, não pelo poder público.

Falou-se também do polêmico blog Fatos e Dados, com a qual a Petrobras decidiu vazar conteúdo de reportagens ainda em andamento. Seu pleno direito, diga-se de passagem. A argumentação, por sinal, é excelente.

Até o microblog, quem diria, foi parar na conversa. “O meu papel não é gritar que caiu um avião. É dizer porque caiu o avião”, encerrou Rossi. “Contando calmamente, no ouvido do leitor”.