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Drones e problemas

Muito interessante o relato sobre o uso jornalístico de drones (pequenos veículos aéreos dotados de uma câmera e controlados remotamente) feito por Taís Gasparian à Folha de S.Paulo.

Essas ferramentas se constituem numa grande novidade do mundo das novas narrativas, proporcionando não apenas imagens bonitas como ainda, conforme conta Taís, mais segurança aos repórteres, por exemplo, num front de batalha.

O que não é seguro (ou pelo menos sabemos pouco sobre isso) são os riscos que corre quem está com as cabeças debaixo de um drone. O próprio texto nos relata, em tom de galhofa, um manejo desastrado de um artefato que cobria uma manifestação em Paris e caiu no rio Sena.

Pessoalmente estive muito perto de testar a nova tecnologia no ano passado, num trabalho publicitário, mas as restrições para seu uso eram tamanhas que tive de desistir.

Tudo por conta da precaução (por exemplo, o aparelho não pode sobrevoar vias onde há carros e humanos, há distâncias mínimas de aproximação e até autorizações aeroportuárias são necessárias, de acordo com a região que se quer filmar).

Durante os protestos de rua em São Paulo, a Folha de S.Paulo ignorou esses obstáculos e foi em frente, produzindo um belíssimo material. Ainda bem que tudo deu certo. A miniaturização desse equipamento, que já está em curso mas ainda a preços pouco acessíveis, vai resolver de uma vez por todas esse delicado problema.

Novas velhas mídias

Os protestos de rua no Brasil não são apenas contra a política. Todas as instituições estão no centro da fúria do cidadão que, agora percebeu, não é mais representado por elas. Isso inclui, é claro, a mídia. É também uma crise de credibilidade, não apenas de representação.

Mas ao mesmo tempo em que clamam pelo fim do jornalismo profissional graças à facilidade da circulação de informação dotada pela tecnologia, é na “velha mídia” que as pessoas vão beber sua indignação contra Felicianos e Calheiros da vida, como bem pontua Marcelo Coelho.

Há anos venho dizendo que uma parcela considerável (para não dizer a totalidade) da blogosfera, digamos, “informativa”, desapareceria no segundo seguinte ao apocalipse da imprensa formal.

Isso é extensivo, é claro, ao ambiente de redes sociais, onde a repercussão do noticiário é frequente – inclusive no modo filosofal com que as pessoas têm usado essas ferramentas, ou seja, meramente com o intuito de manifestar seu brilhante pensamento vivo, via de regra motivado por alguma notícia produzida por um profissional.

Onde quero chegar: não existe nova ou velha mídia. O que existe somos todos nós juntos, ajudando a construir uma narrativa, auxiliando-nos uns aos outros no processo de construção e análise do noticiário.

É isso o que verdadeiramente mudou – para muito melhor – com a tecnologia.

Protestos, mobilização e mídia social

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As manifestações de rua, essas grandes novidades que têm sacudido 2013 no Brasil (e levado o país à primeira página de todos os jornais do mundo, como do NYT, que você vê acima), vêm acompanhadas de uma discussão tão surrada quanto equivocada: o papel da mídia social nesse tipo de mobilização.

Evidente que, como ferramentas de comunicação, as redes sociais servem precisamente para isso – comunicar e estabelecer nós. Nesse aspecto, me lembro de Clay Shirky e seu mantra sobre o potencial da web e seus derivados na conexão entre seres humanos a um custo quase igual a zero.

Há, ainda, o papel de ajudar a informar, na medida em que produções feitas pela própria comunidade, dissociada da mídia formal, acabam exibindo facetas não necessariamente no palco principal, mas importantes para a narrativa do todo – sim, falo dos vídeos e relatos cidadãos.

Posto isso, recorro a outro mestre, o sociólogo espanhol Manuel Castells, sempre preciso na análise política de nosso cotidiano. Seja no caso brasileiro, nos indignados da Espanha, no movimento Occuppy ou na Primavera Árabe, não se trata aqui de estabelecer uma linha divisória entre a vida virtual e a vida real. Simplesmente porque estamos falando do mesmo espaço de convivência.

Nesse sentido, e mais uma vez evocando Castells, não haveria protesto (ou mudanças) se efetivamente não houvesse um desejo de ruptura na sociedade. A mudança não está no Twitter ou no Facebook, mas em quem os opera.

Desgraçadamente, como bem lembrou o amigo Pedro Doria, Castells está meio esquecido justamente no momento em que boa parte de seus escritos fazem todo o sentido.

De resto a capacidade de mobilizar, a mídia social serve também para a vocalização. E aqui precisamos de mais cuidado ainda se lembrarmos uma regrinha clássica da participação em comunidades conectadas, a do 90-9-1.

P0r ela, só 1% dos indivíduos criam conteúdo, enquanto 9% trata de editar e compartilhar a informação disponibilizada pelo grupo de elite. Aos outros 90%, os lurkers, resta o silêncio.

As ruas, porém, andam bem barulhentas. Ainda bem.

As redes sociais e mais uma revolução que não houve

Quem escreve (para assinantes) é Vinicius Torres Freire, em coluna ontem na Folha de S.Paulo:

“O sol está quente no deserto do Saara, ou pelo menos no norte da África. Como se sabe, a ditadura da Tunísia estremeceu, há protestos na Argélia, os mumificados Egito e Iêmen vivem tumultos nas ruas. Saber o que se passa nesses lugares mais ou menos esquecidos é que está difícil. O grosso da imprensa ocidental não vai muito além de contar mortos e dar destaque a idiotices como dizer que os protestos foram organizados por meio de ‘redes sociais e celulares’. De acordo com esses correspondentes, não seria possível haver Revolução Francesa, Russa, maio de 1968, Diretas-Já ou as revoluções que derrubaram as ditaduras comunistas, dado que na maioria dessas revoluções não havia nem telefones.”

Subscrevo integralmente. Mais uma vez, e como ocorreu no Irã, em 2009, uma mistura de desinformação e romantismo tem creditado a web e dispositivos móveis a mobilização popular contra as ditaduras no mundo árabe. Nada mais precipitado.

O governo egípcio, inclusive, derrubou as redes de telefonia celular e de internet, inviabilizando “conspirações” eletrônicas _isso também ocorreu no movimento iraniano que, realpolitik à frente, não apeou Ahmadinejad do poder.

O que resta na internet é uma profusão de hashtags e avatares de apoio postadas direto de Berlim e Nova York. E a falsa sensação de que a rede está subvertendo o mundo, quando na verdade ela é apenas mais um dos ingredientes que colaboram com essa mudança.

É como diz o mestre Manuel Castells: se um país não quer mudar, não é a internet que irá mudá-lo.