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A biópsia e um mea-culpa dos jornais impressos

Uma biópsia de um jornal sem vida (o moribundo Columbia Daily Tribune) e uma releitura do atestado de óbito do Rocky Mountain News (finado desde 27 de fevereiro deste ano). Textos que nos fazem pensar sobre o que andamos fazendo _e tudo aquilo que deixamos de fazer.

Uma edição aleatória do Daily foi analisada por Clay Shirky, nascido na cidadezinha de 100 mil habitantes no Missouri. Naquele dia, seis repórteres assinaram as únicas oito reportagens produzidas pela equipe do jornal. Todo o resto, excluindo o caderno de Esporte, era de autoria da AP.

E por que apenas seis repórteres? O resto estaria envolvido em outras tarefas ou investigações? “Não”, revela Shirky, “é que o jornal, que tem 59 funcionários, possui apenas seis repórteres”.

Em outro texto, John Temple, que foi publisher do Rocky Mountain News, faz um mea-culpa sobre o fim do periódico de 150 anos. “Nós enxergamos o site do jornal como uma versão eletrônica do jornal, sem vida própria”.

Em resumo, o povo do RMN pensou a web como espaço para exibir a edição impressa, não como um canal de novas oportunidades e plataformas.  Temple também descobriu tarde demais que o ex-plateia agora quer é interferir no processo. “Hoje os consumidores exigem serviços quando, onde e como eles quiserem, e querem ter o poder de participar, não apenas de receber conteúdo”, disse.

Conclusão: investir em produção de conteúdo impresso e experimentações de narrativas na web faz muitíssimo bem à saúde do seu jornal.

Jornais gastam só 14% da receita em produção de conteúdo

Os jornais nunca gastaram tanto com impressão e distribuição de seu produto como agora. E é exatamente isso o que está fazendo balançar o secular modelo que garantiu seu domínio por séculos.

A conclusão é de um estudo da agência de classificação financeira Moody’s de autoria de John Puchalla.

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Segundo o documento, a combinação folha de pagamento, mais impressão, mais logística de distribuição consome 70% das receitas dos periódicos.

Triste, porque apenas 14% deste montante é convertido em produção efetiva de conteúdo. É muito pouco e, nas palavras de Puchalla, explica a “desconexão estrutural” pela qual passam os meios impressos hoje _não há dados no Brasil, mas estima-se que os gastos operacionais, incluindo salários, ultrapassem 50% da receita (há ainda a parcela investida em publicidade, que nos EUA é de 16%).

A Moody’s fala claramente que a saúde destas empresas está ameaçada citando que as companhias que abriram o capital na bolsa, caso do New York Times, estão abaixo do nível para atrair qualquer investimento.

O economista, entretanto, não acredita no fim do jornal impresso ou das revistas. Crê num modelo híbrido de valorização de conteúdos em papel e on-line, mas desde que a imprensa seja capaz de monetizar suas operações na web.

É um caminho árduo.