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Projeto Tor, o guardião da privacidade na internet

Apareceu uma trincheira para quem defende o anonimato na internet como resposta à vigilância que gigantes como Google e Facebook impõem a nossos passos na rede: o Projeto Tor, desenvolvido pela Marinha dos EUA e que hoje é um caminho para acessar a web que pula a etapa da validação e reconhecimento de seu IP (o RG digital) por um servidor.

Rafael Cabral contou a história em detalhes na última edição do Link, o valoroso e combativo caderno de tecnologia de O Estado de S. Paulo.

Para muitos, o anonimato na internet corresponde tecnicamente à liberdade de expressão como ela é entendida no mundo off-line.

Pelo direito a ser esquecido

Bacana isso: correm na Europa processos de gente que quer ser esquecida pelo Google, isto é, desaparecer do mapa da web até mesmo em ferramentas de busca.

É um pleito justo, mas esse combate à privacidade já perdeu batalhas em tribunais americanos algumas vezes.

Castells: ‘As redes sociais não são uma virtualidade em nossa vida: é nossa realidade que se fez virtual’

Encerro hoje a semana Manuel Castells, iniciada na terça-feira com a entrevista que o sociólogo espanhol concedeu a mim e que foi publicada pela Folha de S.Paulo. Foi apenas parte de conversa que, além de política, girou muito, claro, sobre internet e redes sociais.

Castells, um dos mais relevantes pesquisadores da web, está especialmente atento ao que acontece hoje nas redes sociais, um espaço ocupado por 1,6 bilhão de seres humanos _e ainda contando.

“As redes sociais começam para valer em 2002, com o Friendster. Ou seja: a pré-história tem menos de dez anos. Essa é a velocidade com a qual estamos trabalhando”, disse.

Era a resposta à minha pergunta sobre a durabilidade das redes (pouco antes, Castells já havia decretado a morte do Twitter). O sociólogo mostra ter uma certeza: que a facilidade de construção de novas redes torna as pessoas totalmente desapegadas às já existentes. “O fundamental das redes sociais é que qualquer jovem que conhece algo de tecnologia e que tem muito pouco capital pode imediatamente construir uma rede social”, afirma.

É o que lhe faz acreditar que modelos que buscam a monetização via cobrança ou controlam excessivamente os usuários estão fadados aos fracasso. “O Facebook ensaiou cobrar e em três dias mudou de ideia porque milhões de pessoas se moveram para outras redes. O dia em que ele tente controlar mais o que acontece lá dentro, as pessoas irão para o Facebook ao lado. Se todas as redes comerciais entrarem num acordo, se criarão outras redes. As possibilidades são ilimitadas.”

Para Castells, quem tentar restringir o acesso na internet ficará isolado.

“Estamos em um mundo de redes sociais. Hoje as pessoas relacionam sua vida física com sua realidade na rede. Estão integradas. Não é uma virtualidade em nossa vida, é nossa realidade que se fez virtual. Essa é uma mudança fundamental. O que a internet permitiu é a autoconstrução das redes de relação, da organização social e das redes de pensamento. É a primeira vez na história que se produz uma autoconstrução da sociedade nessa escala.”

Jornal impõe restrições em perfis pessoais de seus profissionais na web

O Globo divulgou na quinta-feira o que chama de “Estatuto das Eleições 2010“.

No conjunto, são medidas absolutamente dentro do bom senso, como sugerir aos seus jornalistas que não usem “distintivos, camisetas ou qualquer peça de propaganda de candidatos”.

A peça de dez regras e alguns adendos, porém, faz marcação cerrada contra os perfis pessoais dos funcionários em sites como Twitter e Facebook, porque “na prática, qualquer conteúdo publicado nas redes sociais poderá ser associado à linha editorial do jornal”. É? Se for, é um erro de quem faz a associação.

As restrições vão além e versam até sobre prática do retweet e adição de “amigos”.

“No caso específico do uso de Twitter e/ou outros microblogs, fica vedado ao funcionário do GLOBO a prática de reenvio (“retweets”) de conteúdos publicados por partidos políticos ou candidatos. Também não será permitido usar o serviço para propagar links para sites (pessoais ou institucionais) que contenham propaganda político-partidária, ou que sejam tanto ofensivos quanto elogiosos a determinado candidato.

Se, por necessidade profissional, jornalistas precisarem adicionar candidatos ou partidos políticos como “amigos” em páginas do Facebook, Orkut e demais sites de relacionamento, devem fazê-lo de forma equilibrada, evitando restringir a prática a apenas um determinado candidato ou partido. As inclinações políticas de jornalistas do GLOBO não devem aparecer também em seus perfis pessoais nesses e em outros sites de relacionamento.”

Da forma que foi redigido, o estatuto invade um terreno perigoso _e indefensável.

Outras restrições, em outros veículos, certamente virão.

Navegadores decifram seu RG na rede

Os navegadores também deixam impressões digitais enquanto você surfa na internet. Logo, você pode ser identificado.

A revelação, feita após estudo conduzido pela Electronic Frontier Foundation (EFF), mostra que dados banais como tipo de browser, sistema operacional e plug-ins podem, em conjunto, decifrar o RG cibernético do usuário.

Estes três dados são armanezados por praticamente todos os sites de busca quando você os conecta para fazer uma pesquisa.

Em julho, a EFF mostrará as conclusões do projeto Panopticlic num simpósio em Berlin.

Enquanto isso, no Brasil, discutimos se o Marco Civil Regulatório da Internet deve sugerir a guarda de dados do usuário por pelo menos um ano (a Polícia Federal defende que sejam três), contra seis meses do projeto original.

Como vimos, estamos cercados de ferramentas que rastreiam nosso comportamento on-line, elas apenas não estão nas mãos das “autoridades”.

Não é uma grande vantagem.

A web semântica e a privacidade no Facebook

A Daniela Bertocchi (que foi minha professora no Master em Jornalismo Digital Multimídia) aborda uma questão bastante interessante ao lembrar que privacidade e web semântica têm tudo a ver.

No momento em que se discute até onde vai o poder do Facebook em reter ou tornar públicos dados de seus usuários (a ponto de o criador da rede, Mark Zuckerberg, fazer um mea culpa e admitir mudanças), o alerta da Dani é bem importante.

“Não basta abandonar o Facebook. O perigo está exatamente em achar que saindo de uma rede teremos a nossa privacidade preservada. O problema é um pouco mais difícil de resolver: temos que encontrar uma solução para a questão como um todo. Para todas as redes. Para toda a web. Juntos.”

Privacidade na web: que tal a gente no comando?

“Eu quero ter a possibilidade de controlar, publicar e estabelecer o sistema de acesso e as regras para o uso da minha odentidade on-line, permitindo a Facebook, Twitter, Linkedin, a qualquer um, acessá-la de acordo com as minhas regras”.

Assim falou Jeff Jarvis, numa atualizada análise sobre o estado da privacidade na internet, hoje o maior gargalo da rede.

A ética jornalística e as filhas góticas de Zapatero

Os casais Obama e Zapatero e as filhas do premiê espanhol, que chocaram pelo visual gótico

Os casais Obama e Zapatero e as filhas do premiê espanhol, que chocaram pelo visual gótico (a foto foi pixelizada para proteger as menores)

É o debate da vez na Espanha: vários meios de comunicação se aproveitaram de um descuido (ou seria do excesso de transparência?) da equipe de comunicação de Barack Obama, que divulgou uma foto em família do mandatário americano e do premiê espanhol, José Luis Zapatero, numa visita ao Metropolitan Museum, em Nova York.

Minutos após enviar a imagem ao mundo, a Casa Branca solicitou aos meios de comunicação que a foto não fosse publicada porque os pais das duas garotas (de 15 e 13 anos) que aparecem no instantâneo queriam proteger sua intimidade. Os pais eram, naturalmente, Zapatero e a mulher, Sonsoles Espinosa.

Imediatamente, a agência EFE (que é espanhola) embargou a cena. Mas, com várias redações já de posse da fotografia, era de se esperar que ela acabasse publicada, o que provocou a ira do líder do governo espanhol.

O pior é que a providência da EFE, dizem na Espanha, só foi tomada após uma ligação de gente ligada ao governo. A Agência nega, dizendo-se cumpridora da Lei do Menor _apesar de, no mesmo dia, ter distribuído uma foto de Louis Sarkozy, de 12 anos, filho do presidente francês.

A censura aliada à novidade (as meninas tinham sido fotografadas uma única vez, em 2004), mas principalmente o visual das garotas (gótico e, digamos, fora de moda), suscitou chacota e, claro, fotomontagens e outros gracejos. Prato cheio para a internet e seu poder de comunicação instantâneo.

É um caso que tem uma série de ângulos. O jornalismo avançou o sinal? É justo, do ponto de vista jornalístico, sustentar este tipo de acordo com personalidades? Até que ponto uma pessoa pública consegue proteger seus familiares desse tipo de assédio? Não teria sido mais fácil não levar as filhas a um evento que, naturalmente, seria fartamente fotografado? Respostas difíceis de dar, mas bem bacanas de discutir.