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A transparência alheia

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Não é a primeira vez (nem será a última) que players importantes da internet, como o Facebook, são acusados de intervir nos resultados originados da chamada “inteligência coletiva”, ou seja, a soma da produção de todos os usuários.

Já aconteceu com o Twitter e vai continuar acontecendo porque, conforme já escrevi, esses serviços estão distantes de qualquer aspecto de transparência pela qual muitas vezes levantam as vozes.

David Uberti nota, em texto publicado pelo CJR, que o poder que esses serviços têm de ditar a agenda pública de discussão extrapola qualquer capacidade de controle – isso faz sentido se a mensagem principal não sair do nosso horizonte: Facebook e Twitter não são apenas plataformas abertas para que exponhamos em praça pública nosso brilhante pensamento vivo.

Ao contrário, são poderosos instrumentos de consolidação de pensamento e disseminação de mensagens-chave, provavelmente numa escala que a comunicação humana jamais foi capaz de alcançar. Tudo isso envolto numa embalagem que alardeia uma neutralidade cuja veracidade é impossível acurar.

Mas é assim que a tecnologia funciona.

A construção da mensagem política

Um documento indispensável para compreender a relação entre mídia e política – e como a comunicação se tornou um elemento essencial do jogo eleitoral. Falo do documentário “Arquitetos do Poder” (2010), de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé. Com direito a raríssimas imagens do primeiro horário eleitoral da história do Brasil, em 1974 (no frame que você vê abaixo, Ulysses Guimarães faz rima com o MDB, clique na imagem para ver) e várias discussões bacanas sobre essa coisa tão legal como votar.

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O problema da ESPN

Muito boa essa análise sobre o poder da ESPN, que detém contratos milionários com as principais ligas americanas e consegue até mudar times de sede, entre outros aspectos monopolistas. Com mãos de ferro, ela manda em tabelas, horários, regulamentos…

Surpreendente saber que a emissora, hoje, responde por cerca de metade do faturamento do grupo Disney (US$ 5,4 bilhões), uma autêntica máquina de fazer dinheiro.

A questão central é: que jornalismo faz uma rede tão enfronhada nos negócios? Mais, no caso do Brasil: será que a emissora é tão crítica e combativa justamente porque está à margem dessa cadeia de comando?

Leituras de FHC

Em seu artigo dominical quinzenal para O Estado de S. Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resenhou dois livros que abordam as relações cidadão-instituições (em especial as que exercem o poder) na era da informação.

Trata-se de “Redes de Indignación y Esperanza”, de Manuel Castells (um velho frequentador e amigo desta página), e “The End of Power”, de Moisés Naim – que no Brasil escreve para a Folha de S.Paulo.

“Assim como Castells, Naim reconhece a importância dos movimentos contestatórios contemporâneos e sabe que a perda de legitimidade dos que mandam está na origem das revoltas contra as democracias representativas. Com uma diferença: Naim aposta no reencontro entre o protesto explosivo — “apolítico”, no sentido de ser indiferente à reconstrução do Estado e das instituições — com a renovação dos partidos e das instituições. Não perdeu a esperança no restabelecimento de elos entre a autonomia do indivíduo e a representação política nas instituições, inclusive nos partidos.”

Ambos os livros são ótimos. Excelente dica do ex-presidente.

Integrar ou desintegrar?

Há uma pergunta para a qual poucos possuem a reposta: afinal, é melhor juntar ou separar as redações papel e on-line?

Nesta semana, o USA Today, jornal que incutiu o conceito de entretenimento e TV no papel, anunciou a separação de corpos de sua equipe após cinco anos.

Claramente o timing e a sincronização são problemas graves quando se pretende unir plataformas tão distintas.

É possível, mas é necessário entender que só a lógica reversa, ou seja, pensar primeiro o on-line, e depois adaptá-lo ao impresso, é o caminho mais fácil para permitir que ambos caminhem juntos.

A integração é o objetivo final de um processo de convergência.

Explico: preciso de muito mais tempo para fazer virar algum projeto on-line. Logo, se ele capitanear a pauta, a chance de conseguir coisas bacanas juntos passa a ser crível _a adaptação às páginas do jornal é muito mais fácil.

Este vídeo mostra como meios de Argentina e Espanha estão se virando nesse aspecto.

E eu volto ao assunto na semana que vem, para dizer como se dá o processo em Poder, o caderno de política da Folha de S.Paulo.

Castells: ‘Se um país não quer mudar, não é a internet que irá mudá-lo’

A Folha de S.Paulo publicou hoje entrevista que fiz na sexta-feira com o sociólogo espanhol Manuel Castells, pesquisador-referência no que diz respeito à sociedade em rede.

O enfoque no caderno de Eleições, claro, são as relações entre poder político e cidadãos, que agora além do mesmo país coexistem também nas mesmas plataformas na internet.

Durante a semana, outros assuntos que abordei com Castells _como jornalismo e Twitter_ vão aparecer por aqui.

Até.

A Economist photoshopou Obama, e daí?

A capa de 19 de junho da The Economist, revista noticiosa mais importante do mundo (e das poucas que só ganham leitores com o passar do tempo), provocou furor ao descobrir-se, via The New York Times, que a publicação alterou uma fotografia em que o presidente Barack Obama aparecia cabisbaixo ao lado de mais duas pessoas tendo como fundo plataformas petrolíferas _imagem ideal (a alterada, claro) para ilustrar uma reportagem sobre o desastre ambiental de responsabilidade da petrolífera britânica BP em solo americano e suas implicações políticas.

É um pecado menor, e peço aqui que me entendam. Repórteres-fotográficos talvez jamais entenderão (há aquele consenso de que fotografia é obra de arte e não pode ser editada), e fui instado a falar sobre isso por Gustavo Roth, editor-adjunto de Fotografia da Folha de S.Paulo, que sempre colabora com o Webmanario.”Se queimaram feio, hein…?”, me disse Roth, ele próprio antenadíssimo no que rola nos meandros de nossa profissão, seja aqui, nos EUA ou no Uzbequistão.

Vou ser polêmico agora: será? Não acho, mas não acho mesmo. Há, claramente, um erro, mas que embute uma tentativa de acerto. Aliás, Pedro Dias Leite, o homem que faz o caderno Poder da Folha fechar na hora e fechar bem, tinha me avisado um pouco antes da história _compartilhando a visão de que o episódio está longe de ser o maior absurdo do jornalismo moderno.

Talvez a mesma representação com um trabalho de arte em cima (uma estilização impressionista ou pop, sei lá) resolveria a coisa sem questionamentos filosofais que, na verdade, só nós jornalistas temos.

Photoshopado, Obama estava lá e continua lá, cabisbaixo, com uma plataforma de petróleo no Golfo do México como cenário de fundo. Excluíram-se personagens menores _literalmente, como a presidente da Câmara de representantes de uma cidade da Louisiana e uma autoridade local da Guarda Costeira já eliminada no corte do fotograma.

Impossível pensar em fazer uma coisa dessas sem supor que irão descobrir: a foto em questão, tirada em 28 de maio, é de um fotógrafo da agência Reuters, Larry Downing, e provavelmente foi distribuída para todo o mundo.

Eu não faria isso desse jeito numa publicação noticiosa, mas faria, sim, propondo um trabalho de ilustração sobre foto, pra se livrar de uma vez por todas da capivara do “alterar a realidade”, que no final das contas pauta o debate e de quem é muito difícl se desvencilhar.

Mas a capa mexida, no final das contas, não escondeu o Obama triste e enrolado tendo ao fundo o motivo de suas preocupações.