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Acabo de ganhar uma ridícula disputa por direitos autorais de um vídeo compartilhado no YouTube.

As imagens acima, que pertencem ao povo chileno e dizem respeito ao plebiscito que enxotou Pinochet, quase foram furtadas pela produtora que agencia globalmente o filme “No”.

Allende, JB e coragem, 40 anos depois

No dia em que a deposição do presidente chileno Salvador Allende completa 40 anos, é sempre bom relembrar a aula de coragem e jornalismo que Alberto Dines, comandante do finado Jornal do Brasil, deu na edição do diário que relatava o golpe.

A notícia sobre a manobra que jogou o Chile num período sombrio com nome e sobrenome, Augusto Pinochet, não poderia ser o título principal da capa do periódico, ordenou a censura pilotada pela ditadura brasileira.

Pois bem, Dines criou o jornal sem manchete.

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Pinochet, um atentado, e o carregador de microfone

Nada melhor do que se despedir do Chile com o histórico vídeo no qual o general Augusto Pinochet, sem ser interrompido nem questionado pelo repórter da televisão estatal TVN (um mero carregador de microfone), dá a sua versão para o atentado frustrado que sofreu em 7 de setembro de 1986 (mais uma coincidência com uma efeméride brasileira).

O desempenho do jornalista (??) é o melhor exemplo do que eu convencionei chamar de “cachorro com um gravador pendurado no pescoço”. Chega a ser constrangedor. E foi. Imagine as pressões para a tomada do depoimento.

Por ocasião dos 20 anos do atentado (que teve represálias trágicas, como a execução de um jornalista de esquerda horas depois do crime), o El Mercurio de Santiago concebeu uma belíssima infografia animada, com áudio e vídeo, que até hoje serve perfeitamente de exemplo para o que queremos dizer quando falamos em infografia na plataforma on-line.

Do Pacífico, agora rumo ao rio da Prata, louco para falar das agruras de Cristina K e do jornalismo dos hermanos. Por sinal, eles estão muito de olho na gente: reportagem de hoje do Clarín comenta sobre cinco aspectoa da vulnerabilidade argentina com relação à “derrocada” do Brasil na crise econômica.

O texto encerra com uma observação curiosa sobre a “balança comercial turística” entre os dois países (“veranear no Brasil já custou o dobro do que fazê-lo na Argentina” _afinal, R$ 1,60 e 3,20 pesos equivaliam a US$ 1). Ainda assim, conclui a reportagem, “é bom comprar agora os reais para suas próximas férias”, uma aposta clara na acomodação do valor da moeda americana passada a turbulência.

A ver. E ao vivo.

Em tempo: o sobrenome Pinochet não foi varrido da política chilena. A filha do general, Lucia Pinochet Hiriart, é candidata a vereadora pela comuna santiaguenha de Vitacura;

O marasmo político chileno e a blogosfera deles

O dia 5 de outubro também tem, a exemplo do Brasil, uma importância histórica para os chilenos (país onde estou desde hoje, e até o dia 9, antes de seguir viagem a Buenos Aires). Prometi que ia falar um pouco mais de jornalismo e comunicação nos tempos de Internet nestes países, né? Então lá vamos nós.

Amanhã completam-se 20 anos que o povo do Chile deu um rotundo não à ditadura do general Augusto Pinochet, que governava o país com mãos de ferro desde 1973 à custa de muito sangue e da morte do presidente legalmente constituído, Salvador Allende _para nós, a data marca os 20 anos da promulgação da atual Constituição (motivo de orgulho ou de muxoxo? Sei não…)

Pois bem: a política ainda é um tema tabu no Chile. Basta virar os olhos para a blogosfera. O maior diretório de blogs do país apertado entre o Pacífico e os Andes não aponta uma única bitácora sobre o tema (nem o blog jornalístico mais engajado, o Cuarto Poder, parece se ocupar como deveria do tema). Estranho, não? Nem tanto, ainda mais se levarmos em conta que, desde Pinochet, política é um assunto resolvido para os chilenos.

Resolvido graças à Concertación, aliança de centro-esquerda criada para enfrentar a ditadura e que, desde o citado  plebiscito de 1988 (que negou a Pinochet a possibilidade de permanecer no poder, propiciando eleições livres), ganhou absolutamente todas as disputas eleitorais (dos concejales _os vereadores deles_ à presidência).

Até hoje, escreve o diário local La Tercera neste sábado, o plebiscito influencia o comportamento do eleitor chileno. Aqui, a questão segue sendo dizer apenas “sim ou não”. E os candidatos da Concertación têm recebido o polegar afirmativo há duas décadas, numa letargia de discussão de propostas que desemboca na mais modorrenta previsibilidade eleitoral.

Mais triste para a oposição (e este blog, que parece saído da década de 70, revela bem esse sentimento) é a
constatação de que os sucessores de Pinochet seguiram ipsis litteris sua cartilha na condução da economia, para alguns estudiosos um ponto fundamental no salto qualitativo que deve levar a nação ao Primeiro Mundo em mais uma década, quando o plebiscito que sacou o general completará 30 anos e, provavelmente, a dominação da Concertación também.