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A subversão da ordem cronológica reversa

Já faz muito tempo, mas eu esqueço de comentar: a versão eletrônica da coluna Radar, da revista Veja, vem subvertendo com frequência o conceito da ordem cronológica reversa, um dos aspectos que nos ajudam a definir operacionalmente um blog.

Explico, mas é só olhar a imagem acima para entender: notas que se complementam são publicadas invertidas, ou seja, primeiro é colocada no ar sua continuação para, invariavelmente no minuto seguinte, ser postada a abertura _que contextualiza a notícia, claro.

Esse aparente sem-pé-nem-cabeça-jornalístico serve a um único propósito: fazer com que, no ar, as notas se apresentem como se estivessem em sequência, num modus operandi absolutamente impresso _e que jamais deveria ser transposto a uma plataforma eletrônica com tal característica.

São as apropriações equivocadas de que eu tanto falo, mas para parecer de vanguarda, a grande mídia mete os pés pelas mãos.

Se a linguagem da coluna Radar _leitura semanal obrigatória para se acompanhar o panorama político e econômico do país_ exige, na web, notas continuadas como exibe em papel, não é num blog que esse processo vai se concretizar sem um ruído desagradável.

Se o que se quer é continuar tendo uma coluna, para que então criar um blog? E ainda por cima, caso da Radar, sem um único hiperlink?

Busca em tempo real dá musculatura à suíte

O parceiro Leonardo Fontes deu sequência ao bom papo que tocamos por aqui ao discorrer sobre a chegada do tempo real às buscas do Google, por nós lida como a fragilização do furo _motivo: quem publica depois, aparece primeiro.

Daí Leopoldo Godoy, outro companheiro velho de guerra, mudou o rumo da discussão ao levantar que a grande sacada da busca em tempo real do Google é a utilização do mesmo algoritmo que norteia a versão standard da marca, ou seja, que a classificação deverá ser feita em ordem cronológica reversa sim, mas respeitando-se a autoridade dos links, ou seja, suas citações na web e, consequentemente, sua relevância.

Pois revisitando o conceito, Leonardo Fontes encontra um patamar mais adequado para se discorrer sobre o tema. Juntando quem deu por último com quem deu com mais propriedade, chegamos à verdadeira beneficiada pela busca em tempo real: a suíte.

Sim, atualizar o quanto possível o material noticioso, com notas frescas e contextualizadas. Quem publicar material mais atualizado por último é quem sairá ganhando. Quem atualizar com frequência suas matérias, mudando a embocadura com o passar das horas, deve figurar no topo das buscas.

Portanto, está preservado o principal objetivo do jornalismo profissional: dar antes, e melhor (com o meio on-line, esse “melhor” é uma eterna página em branco em busca de novas informações).

Dar por último e abandonar o assunto

O blog foi promovido?

Interessante a provocação da Economist, condensada pelo Observatório da Imprensa. A afirmação é a seguinte: blog deixou de ser marginal, virou mainstream. O conceito de diário pessoal, que a plataforma tinha em seus primórdios, hoje é ocupado pelas redes sociais (é ali que a galera se expõe, mostra a foto do pipi do cachorro) e pelo microblog, na figura de seu sinônimo, o Twitter.

Na blogosfera, o patamar é outro. Virou negócio de grandes corporações e de players agregadores de audiência, como Huffington Post ou Daily Kos (quase cooperativas de jornalistas). Tchau, amadores. Fazer sucesso no universo dos blogs exige, hoje, atitude e estrutura profissionais. Seu reles diariozinho pessoal cabe muito melhor numa pagineta qualquer do MySpace.

Lavrar o “atestado de óbito da blogosfera como espaço alternativo” (como bem coloca o texto do Observatório) ainda me parece um exagero, mas a discussão não deixa de fazer sentido. A busca por melhor ranqueamento em compilações de blogs, por exemplo, evidencia uma competição dissociada do conceito que Dave Winer, em 1997, preconizava para o seu Scripting News, considerado o primeiro blog de que se tem notícia _e ainda ativo.

Que as grandes corporações já haviam tomado a blogosfera de assalto, disso não havia dúvida. Afinal, em qualquer ambiente jornalístico onde a premência era a convergência, possuir blogs (de preferência de nomes veteranos da casa) sempre foi o modo mais fácil de parecer moderno. Ainda que o veterano insistisse em usar o blog como se fosse uma coluna estática de jornal.

Agora, desconsiderar o caráter de imprensa pessoal do blog apenas porque uns e outros acham que está cada vez mais árduo se destacar em seu universo, sinceramente, é reducionista e egoísta demais. A bitácora jamais vai perder esse lado fundo de quintal, essa coisa do ser feita de cueca, muitas vezes inconseqüente, escrita por você e para você.

E, para o jornalismo, a linguagem do blog deixou um legado incontestável: o uso da ordem cronológica inversa, adotada até mesmo em sites noticiosos, uma tradução perfeita do significado de se publicar on-line.