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O zelador da qualidade jornalística

Voltei das férias com a leitura da primeira coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo em 2013. Em resumo: dá dois exemplos de textos mal-escritos no jornal e sentencia: “…com o surgimento do noticiário on-line, espera-se que o impresso sirva de esteio da qualidade jornalística. Se é para ler “qualquer coisa” rapidamente, fiquemos na internet, onde há fartura e gratuidade.”

Só um porém: o timing do jornal, ainda que evidentemente muito maior que o do jornalismo on-line, não me parece adequado para que supostamente se arvore o papel de esteio da qualidade jornalística.

De resto, é isso aí.

Cobrar por conteúdo? Não, obrigado, diz Washington Post

Num momento em que o tabu do conteúdo pago de alguma forma tem sido enfrentado por veículos que em maior ou menor escala puseram a registradora para funcionar, o ombudsman do Washington Post vai na contramão e diz que, se fosse para fazer uma previsão, o jornal jamais irá cobrar pelo acesso à sua página on-line.

Autorregulamentação, uma saída para melhorar os jornais

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) aprovou a adoção, por seus filiados, de uma série de medidas que ajudarão _e muito_ os veículos a se aproximarem mais de sua audiência (e, principalmente, se tornarem mais transparentes).

Medidas como a instituição do cargo de ombudsman (só Folha de S.Paulo e O Povo possuem essa figura importante para criar atalhos entre redação e leitores, além de importante filtro de controle de qualidade dos jornais).

A ANJ estabeleceu um prazo para que essas recomendações (entre elas, a criação de um espaço fixo com correções de reportagens, coisa que incrivelmente, entre os grandes, só a Folha possui) sejam adotadas.

Apesar de ter sido uma reação à ameaça do “controle social da mídia”, balela introduzida na agenda no governo Lula e que Dilma Rousseff deixou adormecer, se cumpridas, as medidas ajudarão a melhorar bastante a combalida qualidade de nossas publicações.

Mais sobre o jornalismo investigativo de qualidade…

…que também é o tema da coluna deste domingo da ombudsman da Folha de S.Paulo. Para refletir.

Será mesmo o fim da exatidão dos jornais?

Craig Silverman, no Columbia Journalism Review, toca na ferida da exatidão (ou precisão, como queiram) dos jornais. Parte da declaração do empreendedor Ben Elowitz, que diz ter ficado mais tempo ao telefone com checadores do que com repórteres da “velha mídia” para quem deu entrevistas.

A verdade é que a checagem de fatos é (ou era) uma instituição muito mais americana que brasileira. Silverman detecta que o investimento nessa tarefa praticamente acabou por lá _por aqui, algumas poucas revistas (como lá) ainda se dedicam ao trabalho.

A nova ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, anunciou a disposição de investigar reportagens (o que não é a mesma coisa, já que a investigação se dará após a publicação das matérias e, consequentemente, dos erros).

Ainda assim, é um passo adiante na transparência.

Em tempo: Silverman constata que o erro na grafia de nomes próprios é o maior gargalo da imprensa (e isso desde a década de 30, de quando data o primeiro estudo conhecido sobre a exatidão dos jornais).

Ele encerra o texto com um erramos ótimo do NY Times, na linha “diferentemente do que Anjelica Houston disse em entrevistada à gente, Sophia Loren está viva”.

Há mais homens que mulheres falando no noticiário?

Alicia Shepard, ombudsman (ou ombudsqvina?) da NPR (a emissora estatal de rádio dos EUA) fez um levantamento que resultou numa constatação interessante _e sobre a qual nunca havia percebido: há poucas fontes femininas no jornalismo praticado pela companhia.

Provavelmente, transposto à nossa realidade, o estudo chegaria à mesma conclusão. Mas isso é perceptível? Você nota que há menos mulheres do que homens falando com frequência no noticiário?

Taí um ótimo objeto de pesquisa.

Nada mais desatualizado do que o jornal de hoje

Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S.Paulo, escreve hoje em sua coluna no jornal impresso sobre um fenômeno trazido com o avanço tecnológico: mais e mais leitores, enfim, “descobriram” subitamente que o jornal de hoje é feito, na verdade, ontem.

Silva ilustra sua tese com frases que recebe diariamente do público consumidor do periódico, como as que se seguiram à manchete “Avião com 228 a bordo some no mar no trajeto Rio-Paris”, que dava o mesmo tratamento noticioso, na última terça-feira, a uma informação amplamente conhecida desde as primeiras horas da manhã do dia anterior.

Leia também: Aconteceu ontem – Alguns escritos sobre o estado do jornalismo impresso

“A manchete seria boa em 1921 [ano de fundação da Folha] quando não havia TV e internet. Hoje, parece mais um jornal de ontem. Todo mundo já sabia” e “A manchete principal da Folha de hoje explica por que o jornal impresso está, cada vez mais, perdendo espaço para outras mídias” foram algumas das manifestações.

É um novo dilema de uma velha mídia: como o produto concebido para ser o registro histórico do dia que passou conseguirá ser atraente para um público que, não bastasse a possibilidade de se informar em tempo real, o faz sob demanda e ao alcance de um clique.

Há saídas, todas ousadas e arriscadas _como a própria não obrigatoriedade da manchete, motivo de enquete neste site (aliás, clique no link abaixo e dê a sua opinião sobre o assunto).

Vamos tratar bastante do tema nesta semana no Webmanario.

Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?

Falou e disse

“Somos donos da tinta e donos do papel e estamos numa posição em que julgamos outras pessoas numa base diária, mas nunca nos submetemos pessoalmente. Existe uma atitude de defesa que temos enquanto jornalistas: quando alguém nos critica e acusa de sermos partidários, começamos por identificar a forma como aquela pessoa está errada. Não começamos por nos interrogarmos se essa pessoa terá razão. E essa seria a forma honesta de fazermos o trabalho, começarmos com uma mente aberta em relação às críticas. Estamos numa posição de fazer declarações e não damos um igual tratamento a alguém que se queixa, existe uma arrogância implícita de que a nossa opinião tem mais importância.”

A frase é de Daniel Okrent, 60 anos, ex-ombudsman do New York Times, em entrevista ao jornal português Público.

Precisa dizer mais alguma coisa?

Ombudsman do jornalismo, profissional em extinção

Uma nova modalidade de passaralho está rolando na imprensa mundial. Agora, é a cabeça do ombudsman _representante dos leitores nos veículos_ que está a prêmio.

É emblemático que o primeiro jornal a criar o posto na América do Norte (o The Courier-Journal), e há 40 anos, o tenha extinguido no começo da semana. Ao menos seu titular, Pam Platt, foi reaproveitado numa editoria.

A extinção segue os exemplos de The Minneapolis Star-Tribune, The Baltimore Sun, The Fort Worth Star-Telegram, The Orlando Sentinel, The Hartford Courant e do The Palm Beach Post _todos deixaram de ter essa figura em suas folhas de pagamento.

A análise da gradual desimportância da função relaciona diretamente o fato ao avanço dos canais de comunicação redação-leitor (notadamente a internet e os instrumentos do que se convencionou chamar de Web 2.0).

Faz sentido, já que agora o contato com jornalistas é direto. Além disso, blogs estão fazendo o papel de defesa do leitorado, denunciando mazelas e ruindades diárias da imprensa.

Para completar, como normalmente o cargo é ocupado por um jornalista respeitável e veterano, o orçamento da “pasta” foge ao nível que os veículos pretendem hoje dispender com seus profissionais.

No Brasil, a instituição ombudsman no jornalismo _que nunca pegou, tanto que só dois jornais abraçaram a causa_ sofreu um duro golpe depois que a Folha de S.Paulo não renovou o mandato de Mário Magalhães, o mais crítico e metódico profissional a ocupar o cargo, suscitando insinuações de que teria sido dispensado justamente por enxovalhar (muitas vezes de forma correta) o jornal em sua crítica diária. Que, por sinal, deixou de ser aberta ao público, na Internet.

O jornalista pode, o cidadão não

O jornalista segue com aquele problema congênito em aceitar que outras pessoas (no caso, o cidadão comum) façam o seu trabalho. Ainda mais quando a “plebe” recorre a artifícios que só nós, jornalistas espertos, podemos usá-los.

Se você não entendeu, escute: hoje qualquer um pode ser jornalista, perdemos o monopólio sobre a filtragem do noticiário, é uma situação irreversível e, portanto, acostume-se a ela.

O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, toca diretamente no assunto ao lembrar o caso Mayhill Fowler, uma senhora de 61 anos que, travestida de funcionária de campanha, ouviu frases sensacionais de Barack Obama a correligionários e, depois, conversou reservadamente com o presidente Bill Clinton durante um ato público de sua mulher.

Em ambos, colheu depoimentos constrangedores e que tiveram repercussão entre os eleitores (Fowler escreve para o Off the Bus, do blog Huffington Post, um dos pioneiros na adoção de trabalho de não-jornalistas). O “Off the Bus“, por sinal, tem por trás o dedo do professor Jay Rosen, que teorizou a participação da “ex-audiência” no jornalismo atual.

Pois bem: assim como o Observatório da Imprensa, Lins da Silva entende que de alguma forma Fowler avançou o sinal ao não se identificar como jornalista diante de seus “entrevistados”.

“Ela fez um serviço público? Praticou bom jornalismo? Revelou à sociedade o que os políticos realmente pensam, mas não dizem em público? Ou foi antiética, desonesta, agiu sob a lógica de fins justificando meios? Faz sentido discutir ética jornalística nesse ambiente?”, fala ele, para logo concluir: “Se todos os valores humanos estão em xeque neste ambiente de múltiplas realidades, por que os do jornalismo sobreviveriam?” _o texto abre avaliando experiências jornalísticas virtuais no Second Life.

O que eu quero saber é o seguinte: e a febre da câmera escondida em programas como “Jornal Nacional” ou “Fantástico”? Neste caso tudo bem, não há conflito moral ou ético? Não se trata da mesma coisa?

Claro que sim. Mas o jornalista profissional pode tudo, inclusive omitir sua condição. Quando alguém faz exatamente igual, aí sim _só aí_ é um problema.