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Os recordes da Olimpíada

Notícias de Pequim (a de lá, não a de cá): a ONG Repórteres sem Fronteira divulgou nesta sexta um balanço sobre o trabalho dos jornalistas nos Jogos Olímpicos. E as constatações não poderiam ser piores: a China, que prometeu “total liberdade” para os profissionais durante o evento esportivo, não cumpriu a promessa.

A RSF diz que pelo menos 22 repórteres estrangeiros foram agredidos pela polícia chinesa no exercício de suas funções. Além disso, 50 ativistas dos direitos humanos ficaram em prisão domiciliar durante a disputa dos Jogos, 15 cidadãos chineses foram presos ao pedir permissão para realizar protestos e 47 militantes pró-Tibete foram detidos e deportados.

Com relação à liberdade de imprensa, mais problemas. No episódio do assassinato de um turista norte-americano, no primeiro dia da Olimpíada, houve cerceamento ao trabalho de jornalistas que tentavam registrar o fato _no total, foram  12 as intervenções de forças públicas que prejudicaram coberturas jornalísticas.

A ONG mostrou ainda um memorando distribuído pelo governo nas delegacias de Pequim solicitando que em hipótese alguma houvesse empecilhos ao trabalho de reportagem. Ao mesmo tempo, o documento solicitava que os policiais “investigassem e interrogassem” os chineses que eventualmente dessem entrevistas à imprensa internacional.

Esse serviço de espionagem pressupõe, diz a RSF, “fortes represálias” a partir da semana que vem, quando os mais de 20 mil jornalistas credenciados para a Olimpíada começarão a deixar a China. Ou seja: são os chineses sendo treinados à força a não dar mais entrevistas.

Depois de tanta desgraça, o momento “fofo” da cobertura: Mateo Savland, 8 anos, foi o repórter mais jovem a trabalhar no evento. Ele é filho de uma mexicana e de um norueguês e comandou uma atração infantil na rede espanhola Televisa.

Uma seleção de blogs fotográficos e olímpicos

A maratona está terminando, em breve este espaço voltará à normalidade (assim espero). Enquanto isso, mais notícias da minha Pequim _igualmente poluída, igualmente repressora.

Gustavo Roth, editor-adjunto de fotografia da Folha de S.Paulo, fez uma belíssima seleção de blogs fotográficos que, em suas palavras, “comentam e ilustram a grande aventura, ou maratona, que é cobrir os Jogos”.

Não há o que acrescentar: clique e viaje.
REUTERS Photographers – What makes a great picture?
 
Newsweek, por Vincent Laforet

Newsweek, por Mike Powell
 
Newsweek, por Donald Miralle
 
THE STAR – TORONTO, CANADA – Olympic Photo Blog – Por Steve Russell, Lucas Oleniuk e Richard Lautens 
 
WASHINGTON POST, EUA – The Games, Framed – Post photographer Jonathan Newton’s photoblog from the Beijing Olympics

SEATTLE TIMES, EUA- Best Seat in the House – Photography, sports and life as seen through the lens of Seattle Times photographer Rod Mar.

CARBORIAN, ESPANHA – ‘Pekin 2008, un Caborian en los Juegos Olímpicos’

POP PHOTO, EUA – Behind the Lens at the Beijing Olympics – Zach Honig presents a photographer’s guide to the 2008 Beijing Olympics, including everything you need to know to cover the games or watch from home

UOL – Fotoblog do Florido – Flávio Florido é editor de fotografia e enviado especial a Pequim do UOL Esporte. Aqui você vai ver fotos diferentes e curiosas do país sede dos Jogos Olímpicos de 2008
 
ZERO HORA – Direto de Pequim, o repórter fotográfico Ricardo Duarte mostra os bastidores das Olimpíadas através de suas lentes

Ninguém é forçado a falar bobagem

Assim como a Copa do Mundo de futebol, a Olimpíada suscita, no jornalismo, uma incontrolável vontade de dar opinião. Mesmo quem não precisa se expor, caso de todos os profissionais que não militam no esporte, acaba sendo contagiado pela overdose e _é irresistível_ dá os seus pitacos.

Não bastassem as bobagens nossas de cada dia do jornalismo esportivo, me deparei com dois ótimos exemplos de opinionismo que não fazem o menor sentido _e que não precisariam ser expressados, já que eles foram publicados no site Comunique-se, especializado precisamente nas coisas da nossa profissão.

Uma matéria na página, com ares de denúncia, “informava” aos leitores que a imprensa americana, diante da avassaladora vantagem de ouros da China no quadro de medalhas, tinha “decidido mudar” a disposição dos países, adotando como critério o número total de comendas ganhas.

Em outra, o (bom) colunista de novas mídias Bruno Rodrigues lamenta a falta de interesse de portais brasileiros e globais em transmitir a cerimônia dos Jogos Olímpicos (ocorrida na sexta retrasada) ao vivo.

Ambos pisaram mais na bola do que a seleção de Dunga diante da Argentina.

Os fatos: desde 1896, quando foram disputados os primeiros Jogos Olímpicos da era Moderna, a imprensa americana utiliza como regra a quantidade de medalhas para ordenar os países no quadro dos Jogos. Não foi uma decisão tomada agora em virtude do ataque especulativo chinês.

No Brasil, assim como na Europa, o que prevalece é o total de ouros _lembrando que o Comitê Olímpico Internacional não conta medalhas nem divulga rankings dos Jogos.

Portanto, não há um critério que possa ser definido como certo ou errado. Mas muito menos uma “manipulação”, como denuncia o Comunique-se.

No caso de transmissões pela Internet, pela primeira vez o comitê aceitou vender os direitos, mas seguindo a mesma lógica da TV. Ou seja, só quem adquiriu a condição de divulgar imagens do evento esportivo na Web (no caso do Brasil, o portal Terra) pode fazê-lo, e mesmo assim apenas dentro de seu próprio país _o bloqueio, por meio do IP, é simples e infalível.

Por isso Bruno, que não se lembrou de acessar o Terra, protestou por não encontrar cenas da abertura em outros portais brasileiros ou estrangeiros _porque elas simplesmente estão bloqueadas para quem não mora lá.

Outra informação antiga e sabida de antemão (a compra dos direitos de transmissão dos Jogos foi fechada pelos interessados há três anos).

Sim, o grande evento incentiva todo mundo a tirar uma casquinha. Mas deixe isso para o boteco. No jornalismo, sempre que não nos mobilizarmos em torno de um assunto que desconhecemos, nossa chance de não ser surpreendido é maior.

Repórter cidadão relata, via Twitter, sua prisão na China

Terra da Olimpíada, a China segue torta no que diz respeito às liberdades individuais. Não bastasse a repressão de sua ditadura aos visitantes durante a competição esportiva (já foram 12 os estrangeiros deportados apenas nas duas últimas semanas), o pau continua comendo lá dentro.

O repórter cidadão Zhou “Zuola” Shuguang foi detido “para averiguação” nesta semana, e relatou toda a operação por meio de seu celular diretamente no microblog, como conta interessante reportagem da Global Voices.

Tenho imensa curiosidade de saber como o governo chinês pensa que vai controlar o avanço tecnológico na difusão/apuração de notícias…

O nome dos Jogos

Um pouco de colaboração coletiva (ora inteligência, ora burrice): acompanhe esta busca on-line sobre Michael Phelps. Veja a quantidade de incidências crescendo diante de seus olhos segundo após segundo.

Na Lista Wip, aferidor de incidências on-line, o nadador-sensação dos Jogos Olímpicos não paga nem placê: é a personalidade 2.257 da Internet _e isso que sua popularidade na rede cresceu 23% neste mês.

Chineses chutam Gutemberg do pódio

Aqui na minha Pequim, onde inclusive há pouco mataram um pobre-diabo ladrãozinho de motos num estacionamento fétido, a discussão é outra. Os chineses aproveitaram a Olimpíada para revelar ao mundo que foram eles, não Gutemberg, os inventores da imprensa _lembram das alegorias na impressionante (e fake) cerimônia de abertura dos Jogos?
 
“Sem dúvida, fomos os chineses quem inventamos a imprensa. Os europeus dizem que foram eles porque só estudam sua própria história, não a da Ásia”, disse Shi Jinbo, membro da Academia de Ciências Sociais da China, à agência espanhola EFE.

É grande o rol de invenções que os chinses se atribuem. Além da “máquina de imprimir”, entram nessa lista a pólvora, o macarrão, a pizza e até o futebol.

De acordo com a versão chinesa, o precursor da impressão é Bi Sheng (990-1050), que já usava tipos móveis no século 11. O historiador Shi conta que há inúmeros livros e mesmo peças metálicas (os tipos) como prova. “Todos são anteriores ao século 13”, diz.

A teoria de que o processo que originaria o jornal nasceu na China ganha respaldo do acadêmico britânico Timothy Barret, mas não pelas mãos de Sheng. Barret acaba de lançar um livro no qual aponta a imperatriz Wu (625-705) como a real descobridora da imprensa. “Seu feito foi sufocado por puro machismo”, diz o autor de “The Woman Who Discovered Print“.

No Ocidente, a invenção segue creditada a Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (1400-1468).

Enquanto a paternidade volta a ser discutida, já estamos pensando na herança: afinal, a imprensa ainda será útil para as gerações que estão chegando?

O mais rápido, o mais alto, o mais forte

Fui ali na Olimpíada e já volto.

Por ora, deixo uma dica: um blog sóbrio que acompanha outro ângulo (político e social) dos Jogos de Pequim. É tocado por James Fallows, que trabalha na revista The Atlantic.

Em tempo: a página é mais um exemplo de jornalista da imprensa tradicional (Fallows é veterano e está há 25 anos na revista) que empresta seu prestígio à blogosfera.

Cidadão pauta (de novo) o mainstream

Quando eu digo que todo mundo pode ser jornalista, basta querer, tem gente que não acredita.

Há pouco, em Pequim, um cidadão registrou em vídeo o protesto de ativistas que escalaram postes de luz bem perto do Ninho de Pássaro, o imponente estádio olímpico da capital chinesa. E também descreveu a cena no microblog.

Foi por meio desse vídeo, aliás, que a Folha de S.Paulo tomou conhecimento do fato, acionou seus enviados à China e conseguiu atualizar a edição desta quarta com o incômodo (para o governo chinês) protesto. A foto, tirada pelos próprios manifestantes (eram quatro ao todo) foi distribuída pela France Presse.

É o cidadão comum pautando o mainstream…

Em tempo: os quatro ativistas foram presos 12 minutos depois do início do protesto.

Olimpíada bane cachorro do cardápio


A recomendação do governo chinês, ainda que temporária, para que os poucos restaurantes de Pequim que servem carne de cachorro retirem o prato do cardápio durante os Jogos Olímpicos foi mais uma ótima oportunidade (perdida) de se fazer bom jornalismo.

Diante de um hábito tão (para nós, ocidentais) insólito quanto isolado, sobrou desinformação nas matérias sobre o assunto publicadas no Brasil. Comer carne de cachorro é um costume praticamente restrito ao sul do país _no resto, é considerado tão tabu quanto no Brasil.

Mais: nem na Coréia do Sul, como mostra reportagem do G1 feita no ano passado, o ingrediente tem muitos adeptos. Foi da Coréia que, pelas mãos de imigrantes, o costume de consumir o melhor amigo do Homem chegou à China.

Tanto é assim que praticamente a totalidade dos restaurantes que servem esse iguaria em Pequim, que recebe a Olimpíada entre 8 e 24 de agosto, é de especialidade coreana. Aliás, em 1988, quando Seul organizou os Jogos Olímpicos, o prato também foi riscado dos cardápios por ser considerado “feio” para os padrões ocidentais.

Mesmo sabendo que os cães usados para consumo não são, evidentemente, animais de estimação, mas bichos criados como vacas, com direito a períodos de engorda antes de virar refeição, os zôochatos da Peta se manifestaram e ganharam voz na imprensa.

Na verdade, falei tudo isso porque queria dar um jeito de publicar a foto acima, distribuída hoje pela agência de notícias Associated Press.