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Somos todos dependentes das grifes da web

Rafael Sbarai, 23 anos, é um prodígio. Poucas pessoas analisam tão bem os meandros da web (e sua implicação no jornalismo), em português, como ele. E faltam textos em português sobre o assunto. Pessoas, escrevam mais!

Rafael não tem esse problema. Ele e três colegas têm dado, no blog De Repente,  excelentes pistas de quem somos e para onde vamos _e, claro, aquela pitada pessoal do ‘para onde deveríamos ir’.

Conversei com ele numa brecha da rotina corrida de quem é repórter e editor de mídia social no site da maior revista brasileira, Veja. O assunto: monocultura do Google, jornalismo participativo, grandes grifes da web. E, sobre elas, a constatação: temos dados pessoais demais abrigados sob o guarda-chuva dessas empresas poderosas. Leia a seguir a íntegra da conversa, via mail.

O Google é eficiente, talvez sua característica mais admirável, mas qual o risco de ficarmos todos dependentes dele? Somos usuários de serviços que foram, estão sendo ou serão anexados pela companhia de Brin e Page (e agregados).A monocultura me incomoda, mas lutar contra ela exige mover montanhas. A web reproduz exatamente as disputas de poder fora dela…

A questão de dependência na web transcende o Google. Hoje, somos dependentes de Twitter, Facebook e Google. Muitas das nossas informações pessoais estão armazenadas em um grande banco de dados. E isso me preocupa muito. A exposição não divulgada em rede, porém centralizada em um único ambiente. Risco todos nós temos. O lado positivo desta história é a possibilidade de personalização de serviços e recursos, um dos princípios que a internet sempre teve.

Sobre indexação de conteúdos, acho isso o máximo. Indo para nosso lado jornalístico, você percebe qual executivo de jornal sabe o que é uma distribuição de informação. O Murdoch levantou uma bandeira em 2009, de apropriação de conteúdo, e mostrou sua força. Mas quem sai perdendo é ele, por ter um jornal mais centralizado e menos distribuído. Ponto para o NYT, que adota parcerias com o Google, como o Living Stories.

É duro falar sobre isso, mas ainda é maioria o conteúdo ruim produzido pelo público. Já foi pior, verdade, mas ainda é ruim. A ex-plateia ainda está muito preocupada em replicar conteúdo do mainstream? Que parcela dessa audiência colaborativa percebeu que na verdade é capaz de pautar os meios se usar as novas plataformas para se mobilizar?

Infelizmente vivemos já uma época da bolha da colaboração e do que se considera web 2.0. Não sou adepto deste termo (Nota do Webmanario: eu tampouco, é um rótulo marketeiro) e ele é reflexo do processo de mkt que envolveu a colaboração e o jornalismo. A plateia – ex-consumidora de informação – é extensa e está sob diversos formatos. E isso depende muito do contexto cultural.

Fico admirado com a política colaborativa de produção de conteúdo dos norte-americanos, chilenos e sul-coreanos, por exemplo. Totalmente diferente do Brasil. Enquanto aqui sinônimo de jornalismo colaborativo era estar em uma página principal de um portal com notícias requentadas pelo mainstream, lá fora o “cidadão-repórter” pensa em um contexto local e de grande caráter de prestação de serviço. É só ver alguns bons casos do iReport, apesar de que ele recebe maior destaque quando há uma notícia falsa. A questão deste formato é como saber filtrar isso. No iReport, não há este filtro, mas há uma hierarquização de notícias. Quem faz isso com maestria é o bom e velho OhmyNews.

Muito se fala hoje no Spot.us, um outro modelo que é bem discutido nos nossos blogs. Mas ainda o vejo com certo cuidado. Um “jornalismo financiado”, antes de tudo, é intencional.

YouTube, Twitter e Wikipedia: conte-me seus amores e seus horrores por essas três marcas (e ferramentas) que estão eternizadas na história da internet.

Nunca parei para fazer uma reflexão sobre os três modelos. Dos três, o que menos uso é o Youtube. Isso é fato. Nunca gostei de compartilhar conteúdos áudiovisuais. Me considero muito amador neste segmento. Apesar de muita coisa boa em seu “acervo”, aprecio mais Videolog e Vimeo. São formatos com cara mais profissional e com um menor filtro de coisas nonsense.

A Wikipedia é um mecanismo poderosíssimo, discutível e uma das fontes preciosas que conseguem acompanhar diariamente a evolução da sociedade com os usos tecnológicos.

O Twitter é o símbolo da economia da informação e o peso que o conhecimento e “estar ligado” provoca em uma sociedade interconectada. Muito se fala em sua busca em tempo real (já estamos no 2º período da busca em tempo real – a primeira aconteceu com o crescimento dos blogs e a indexação do Technorati), mas o que mais aprecio na ferramenta é a criação de uma linguagem totalmente distinta e que permita colocar muitas pessoas em uma conversa a partir do @. Sem você saber, você foi citado por uma ou outra produção (digo no nosso caso: jornalistas e/ou blogueiros). Esse retorno é o mais fantástico.

Gosto também dos termos que usam para desempenhar funções: saem de cena os falsos “amigos”; entram os ‘seguidores’ e ‘seguidos’. A palavra seguir pressupõe escutar, acompanhar e, acima de tudo, respeitar, o que falta e muito na web em geral.

Outra movimentação destacável é que o Twitter comprovou a tese da queda da audiência de uma página principal de portal/site. É o percurso de tornar-se menos centralizado e mais distribuído. O que mostra a eficiência e a premissa de Paul Baran com seus nodos distribuídos, centralizados e descentralizados. Muito da história do jornalismo on-line está em três imagens que mais parecem astrofísica ou química, mas delimita um belo universo jornalístico. O que dá pra deixar de conclusão sobre esses três formatos é como a tecnologia e internet SEMPRE conectou pessoas e não computadores.

‘Quem ignora o que o público diz em mídias sociais não pode ser jornalista’

Ana Brambilla é minha dupla colega: é jornalista e professora de jornalismo. Mestre em Comunicação, acaba de assumir como editora de mídias sociais do portal Terra. Um desafio e tanto.

E é exatamente sobre mídia social (e jornalismo cidadão, assunto no qual Ana é uma referência) que versa meu bate-papo com ela (via e-mail), o primeiro da série “3 Perguntas Para” que aparecerão com frequência no Webmanario.

Na conversa, ela alerta sobre a importância de o jornalismo profissional estar atento ao que diz e produz e público. E faz uma defesa incondicional do jornalismo cidadão.

Já faz algum tempo que estou fascinado com o fenômeno lan house de periferia e a inclusão digital da população brasileira (NOTA: esta entrevista se deu antes que o IBGE divulgasse que as lan houses só perdem para as residências no acesso à web no Brasil). Já somos o povo que mais tempo passa na web, e nessa faixa social (classes C e D), o avanço na internet é imenso. Sinal de que a rede é um gênero de primeira necessidade ou de que faltam mais opções de entretenimento (notadamente as bancadas pelo poder público)? Até que ponto ficar muito tempo na web é sinal de avanço de um povo?

O tempo on-line, quantitativamente falando, não me parece suficiente para estimar o avanço intelectual de um povo – a menos que essa “intelectualidade” seja reduzida ao “saber mexer” com a tecnologia. É necessário entender, antes, O QUE esse povo anda fazendo on-line, qual o tipo de informação tem acessado, produzido, processado.

Qualquer um que já tenha entrado em uma lan house sabe que o uso de Orkut e MSN é soberano. Considerando que são plataformas de relacionamento e que em termos de contato humano, convivência é um dos traços mais característicos da brasilidade, estas plataformas digitais só vêm intensificar este cimento social de que o brasileiro tanto gosta. Ou seja: se ainda há dúvidas sobre a tecnologia aproximar ou afastar as pessoas, o uso intenso das mídias sociais pelos brasileiros mostra que a aproximação ainda prepondera.

Mas não fiquemos apenas no relacionamento. Há quem use o conhecimento da rede para aprender. Lembro de um vídeo bacana feito pela Regina Casé que mostra as lan houses da periferia e, nele, um rapaz conta que aprendeu a consertar bicicletas em tutoriais publicados no YouTube. Desde então, vem ganhando dinheiro com isso. A web estimula o autodidatismo. E para quem tem vontade de aprender mas não tem grana para investir em cursos, as lan houses podem ser boas salas de aula 🙂

O jornalismo profissional tende a considerar a mídia social uma falácia. Pouco importa o que as pessoas falam ou deixam de falar. O que perde um jornalista por profissão que ignora de própria vontade o que se diz em plataformas de publicação pessoal? Como a mídia social pode ser incorporada no dia a dia de quem trabalha com notícias?
Quem ignora o que o público diz em mídias sociais já devia ignorar o que este mesmo público dizia nas ruas. Ou seja: não pode ser jornalista. Afinal, a razão de existir do jornalismo é GENTE. O público é fonte, o público é (ou deveria ser) a finalidade do nosso trabalho. E se ele – ou o que ele pensa, diz – é ignorado por quem estás nas redações, melhor faz se desprezar o trabalho do jornalista.

Aliás, isso me faz pensar porque os sites noticiosos não estão entre os mais acessados na web. Será que o público se vê neles? Ora, a internet é o lugar onde o público, finalmente, pode se ver. Se o jornalismo praticado no meio digital for igualmente burocrático e limitado às fontes oficiais tal como grande parte dos veículos tradicionais, está fadado a ser engolido por sites de entretenimento ou mesmo pelas redes sociais nos relatórios de audiência. Como não estamos muito distantes disso, alguns veículos estão se dando conta de que devem estar presentes também nas mídias sociais.

E este é um despertar histórico. Afinal, será preciso quebrar paradigmas de linguagem jornalística, de critérios de noticiabilidade, ou seja, conceitos seculares da profissão que mexem nos brios de quem se diz mestre na “arte” de transformar a realidade em notícia. Enquanto empresas de comunicação de vários países contratam seus editores de mídia social, há quem esteja vendo neste novo colega uma oportunidade de expandir a visibilidade de seu próprio trabalho, há quem esteja temendo por novas obrigações em troca do mesmo salário.

Não agradar a todos é natural, J.C. provou disso (não, não me referi a Jornalismo Colaborativo, embora ele também não tenha agradado a todo mundo).

Mas a minha visão da equação jornalismo + mídias sociais é de total interdependência. Jornalista que não souber/quiser/gostar de incorporar as mídias sociais no seu trabalho, não terá lugar no mercado.

Em relação a como as mídias sociais podem ser incorporadas no dia a dia de quem trabalha com notícia, creio em 3 vertentes:

– apuração (busca por fontes, personagens, pautas, testemunhos, opiniões);
– veiculação (linguagem adequada às mídias sociais, grupos e momentos certos para divulgação de determinadas notícias);
– feedback/relacionamento (é muita informação espontânea e barata – na verdade, de graça! Por que não aproveitar para MELHORAR o meu trabalho? E por que não trazer esse aliado para MAIS PERTO da minha rotina profissional?).

Você acompanhou bem de perto a trajetória do Ohmynews, projeto que podemos considerar modelo em jornalismo participativo. E sabe que eu tenho várias restrições a ele (a principal, o adestramento de cidadãos para que se comportem como repórteres, quando a improvisação e desconhecimento de vícios e liturgia da profissão me parecem mais adequados à tarefa). Outro dia o Paulo Querido, jornalista português, disse que o jornalismo cidadão “dá uma notícia por ano”. Eu também tenho aquela sensação e que a noção de notícia de quem colabora com sites jornalísticos é do tipo meu-cachorro-fez-xixi-no- poste. De Gillmor a Querido, passando pelo Ohmynews (que estaria moribundo financeiramente, não?), você também não se decepciona com a qualidade da colaboração na nossa área? Que projetos colaborativos você referendaria hoje como modelos a serem observados? E o Ohmynews, que destino você enxerga pra ele?

E quem disse que o meu-cachorro-fez-xixi-no-poste não pode ser importante? Há um problema enorme nos noticiários colaborativos ancorados pela grande mídia, que pretendem aplicar os mesmos critérios de noticiabilidade para as reuniões de pauta da redação E para o conteúdo que o público manda. Isso reflete o vício do jornalista achar que sabe o que “é importante” para a sociedade, que ele sabe o que o público deve saber. Será? A propósito, o que é “importante” para alguém? Me parece um conceito tão individual que o jornalismo pasteurizou com uma arrogância absurda nos últimos 200 anos. Afinal, o que É importante está no noticiário. Mas importante para que, cara-pálida?

Se os critérios de relevância editorial forem os mesmos para o jornalismo tradicional e para o jornalismo colaborativo, então Paulo Querido tem razão: o público deve dar uma notícia por ano. Só que o erro vem antes disso. Vem na proposta editorial que estes noticiários trazem ao público. Eles querem cópias de si mesmos só que feitas pelas mãos dos outros. E isso é impossível! O público não estudou para isso. O público NÃO RECEBE para isso. Por que vai fazer um trabalho igual ou melhor do que o de um jornalista? O público fala daquilo que interessa a ele, à microssociedade dele. E isso vai do 1º dia do filho na escola até a sujeira na praça ao lado da casa dele. Por isso que o jornalismo colaborativo é quase sinônimo de jornalismo hiperlocal. E aí chegamos num dos pontos que, talvez, tenham jogado contra a trajetória do OhmyNews.

Este noticiário sul-coreano nasceu em âmbito nacional. Para os menos de 50 milhões de habitantes, o OhmyNews dava conta. Mostrava uma realidade que não aparecia nos jornais tradicionais, até mesmo por um vínculo forte que estes mantinham com o poder público, fruto de uma redemocratização tardia, além dos malditos kisha clubs, tradição segregacionista que mina a imprensa do oriente e limita o acesso a determinadas informações das grandes esferas sociais apenas aos veículos maiores, bancados por elas. Eis que o OhmyNews encontrou um nicho e cresceu. Cresceu tanto que não coube mais só na Coreia.

Espalhou a ideia pelo mundo. Foi copiado. Criticado, Ovacionado. Mas se já é difícil fazer um noticiário de cobertura nacional, o que sobra para um noticiário global? Na contramão do jornalismo hiperlocal, o OhmyNews Internacional (versão em inglês) não recebeu grandes investimentos, tem uma infraestrutura tímida e atualização lenta. Ainda assim, segue vivo, dando espaço para muitos cidadãos repórteres do mundo inteiro. Aliás, não conheço outro espaço jornalístico tão cosmopolita.

Para que o OhmyNews tenha futuro, é preciso haver uma mudança no modelo de negócio. Virar uma ONG ou experimentar o modelo de crowdfounding são algumas possibilidades. Vejo que o papel social deles é suficiente para justificar uma dessas duas alternativas. Assim, quero observar de perto o Spot.Us, Ushaidi e o Witness, projetos de crowdfounding ou crowdsourcing que podem nos ensinar modelos interessantes – tanto editoriais quanto financeiros.

Pague para ser um repórter

Considerado a principal trincheira do jornalismo cidadão (eu adoro esse clichê), o site coreano Ohmynews _que só em 2009 já acumula prejuízo de US$ 400 mil (ou cerca de R$ 800 mil)_ agora aposta em doações para sobreviver.

É o próprio fundador e “presidente” da iniciativa, Oh Yeon-ho, quem relata o conto em carta postada na página. A doação é algo muito americano, pouco europeu, nada brasileiro (asiático, confesso, não sei).

Ele recorre a um discurso de “independência” e sugere que 100 mil leitores, doando cerca de US$ 8 mensais, poderiam manter o projeto de pé e, principalmente, menos dependente de publicidade. Pergunto-me, neste caso, se o produtor do conteúdo não é, em boa medida, seu leitor. Logo: pagar para trabalhar?

“Hoje”, diz Oh, “mais de 70% de nosso faturamento vem de publicidade”.

Eu torço o nariz quando o papo vai por aí. Porque toda a mídia formal amealha isso ou mais em anúncios. Porque os leitores, no máximo, pagam a assinatura ou a compra eventual em banca (e isso nunca garantiu a sobrevivência de ninguém).

Ao mesmo tempo, ser bancado por publicidade não pode ser motivo de alegação de falta de independência. Faz parte do jogo.

Sabem como é, o galo que canta primeiro tem culpa no cartório.

Aposto que a Ana Brambilla, especialista em Ohmynews, vai falar sobre o tema em breve.

Amador, jornalista cidadão está na mira do Fisco

O jornalista cidadão (aquela testemunha ocular que, por estar no lugar certo e na hora certa, registra alguma notícia relevante) terá de pagar imposto nos Estados Unidos. O entendimento é do Internal Revenue Service, a Receita Federal deles.

Justo o cidadão repórter, que normalmente não recebe nada ou muito pouco por sua colaboração.

Há uma controvérsia na decisão: juristas entendem que quem deveria pagar a taxa _prevista a partir do montante de US$ 12 mil_ são as empresas noticiosas que se beneficiam do conteúdo produzido pelo usuário.

Dan Gillmor, um dos pioneiros a detectar a incrível revolução que a era da publicação pessoal trouxe ao jornalismo tradicional, acha que a taxação pode representar um significativo atraso na evolução do fenômeno.

Agora, uma pitada: se há algum jornalista cidadão que ganhou mais de US$ 12 mil num ano com colaborações, sempre mal pagas e desconsideradas, ele é uma exceção. Talvez tenha conseguido o valor numa única tacada, ao flagar a enésima vez que Britney Spears mostrou a calcinha (ou a ausência dela).

Jornalismo sem jornalistas (e notícias)

O consultor Tiago Dória diz que o problema do jornalismo colaborativo (aquele em que o usuário faz suas próprias matérias) no Brasil é a adoção do modelo do Ohmynews, o site sul-coreano apresentado como a trincheira do cidadão sob o lema “cada cidadão é um repórter”.

“O contexto do OhmyNews é bem diferente. Na Coréia do Sul, a mídia é vista como conservadora e chapa branca. Existe uma demanda por veículos alternativos de comunicação e o OhmyNews é um deles. Por isso, as pessoas fazem questão de participar do projeto”, diz Dória ao site-projeto “Vc é a Mídia”.

Vejam, no Brasil a mídia é vista exatamente da mesma forma (conservadora e chapa branca) que na Coréia do Sul _aliás, trata-se de uma visão quase planetária. E isso não significou que o jornalismo participativo tenha superado a fase do “meu-cachorro-fez-xixi-no-poste” (a irrelevância do conteúdo enviado pelo usuário nacional ainda é de doer).

Mesmo com pesquisas do próprio “Vc é a Mídia” indicando na direção oposta, eu prefiro discutir sobre dados concretos os conceitos de notícia e relevância. Por ora, as experiências de colaboração no Brasil, especialmente em grandes portais, seguem pífias e desinteressantes.

Não por culpa, como sustentou Tiago Dória, da aplicação do modelo Ohmynews. Lá, inclusive em atitude que eu considero desvirtuadora da colaboração, o site está amestrando cidadãos para que eles se comportem como repórteres (coisa que tão cedo não vai rolar por aqui).

Além disso, há forte mediação profissional sobre o conteúdo apresentado. É assim também, por exemplo, nas experiências participativas de Terra e G1 _o “Vc é a Mídia” não conta, mas o material que você lê no ar foi profundamente editado e, na maioria das vezes, lembra vagamente a contribuição inicial, invariavelmente sem lide, pé ou cabeça.

É, essa história de jornalismo sem jornalistas ainda vai dar muito pano pra manga.

Cidadãos amestrados

Depois do Ohmynews, que criou uma escolinha para ensinar os cidadãos a serem jornalistas, agora é a vez da Society of Professional Journalists, que faz, no dia 7, um workshop com a mesma motivação.

Entre os temas que serão tratados no evento estão noções éticas da profissão, bases da legislação de imprensa, ferramentas e novas mídias, orientações para pesquisa e apuração e técnicas de reportagem.

Ok, iniciativa bacana e tal, mas sou contra. O jornalismo cidadão está aí justamente para que fujamos dos vícios e modus operandi da mídia tradicional. Quando nos propomos a amestrar o cidadão, creio, fujimos também da oxigenação que ele pode trazer para a profissão com a adoção de métodos que não fazem parte do dia-a-dia das redações.

Cidadão emplaca primeira página em “O Globo”

 

A ressaca que atingiu o litoral do Rio na quinta-feira por pouco não provocou o naufrágio de um catamarã que fazia a travessia Niterói-Rio (17 pessoas acabaram ficando feridas após a embarcação ter sido invadida por uma gigantesca onda).

A quase-tragédia, porém, serviu para alçar o cidadão comum Alexandre Caldas à primeira página do jornal “O Globo”. 

Ele estava dentro do barco, fotografou os momentos de tensão e enviou imagens para o Eu Repórter, o canal participativo do Globo Online.

Como sugeri, há um mês, que vocês fizessem.

Enquanto isso, vejo no site de jornalismo cidadão Ohmynews um texto sobre a vitória de Danica Patrick no GP do Japão da F-Indy. Publicada quatro dias após a prova e com aspas “chupadas” do site da ESPN International.

É assim que se oferece um caminho alternativo à mídia tradicional?

Nós nunca seremos a mídia?

Mais uma experiência de jornalismo cidadão está fazendo água. Agora é o canadense Nowpublic que, três anos e US$ 10 milhões investidos depois, se depara com uma encruzilhada: seus colaboradores são muitos passivos, e a maioria dos textos basicamente reproduzem matérias publicadas pelo mainstream.

É o que eu comentei outro dia sobre o Ohmynews, trincheira da colaboração na qual até relato de jogo de futebol com ficha técnica (algo nada original e que ainda por cima concorre com a grande mídia) é publicado.

Outro dia foi o Assigment Zero quem encerrou suas atividades, após anunciar uma revolução no jornalismo colaborativo. Depois, alguns de seus maiores entusiastas analisaram que a experiência “foi boa enquanto durou“.

Some-se a isso os fracassos consecutivos de Dan Gillmor, considerado o cara que melhor definiu a nova ordem na mídia mundial com seu livro “We the Media“, de 2004 _apesar de Chris Willis e Shayne Bowman (com prefácio de Gillmor!!!) terem detectado exatamente o mesmo movimento um ano antes na obra “We Media“.

Os projetos participativos sob o comando de Gillmor foram todos um fiasco, a ponto de gente colocar em dúvida essa coisa de “nós, a mídia“. Hoje, Gillmor bate ponto no Center for Citizen Media, que ainda não disse exatamente ao que veio.

Ainda acho que falta, aos projetos de jornalismo colaborativo, pautar os colaboradores, roteirizar o trabalho deles.

No jornalismo participativo isso é menos premente _manda quem quer e o que quer, e publica quem tem juízo.

Pior ainda é o ambiente sem moderação jornalística, ou coexistência pro-am. Nele, ainda impera um quê de vale-tudo, como evidenciam os sites que trabalham com a plataforma wiki e são gerenciados pelos próprios usuários.

O caminho para que nós sejamos, definitivamente, a mídia ainda é longo e mal foi percorrido…

Jornalismo cidadão atira para todo lado

A participação da “ex-audiência” no jornalismo (o principal assunto sobre a profissão agora e pelas próximas duas décadas) ainda é heterogênea e sem critérios.

Uma análise detalhada do site coreano Ohmynews, bastante citado como a experiência mais bem sucedida de jornalismo colaborativo, evidencia claramente que não há rumo. Às vezes, valoriza-se o diferencial para escancarar a alardeada ruptura com a grande imprensa (que doravante quero chamar de mainstream, posso?). Noutras, concorre-se pobremente com ela.

Projetos participativos em português, então, são ainda mais inanimados. O Wikinotícias, com média de oito textos (ou notas?) publicados por dia e administrado por cães de guarda de sua própria comunidade, ainda é inqualificável.

Estruturado de forma diferente (há a mediação profissional sobre o trabalho do amador), o Brasilwiki aparenta ter mais solidez. Porém sofre do mesmo mal do site asiático, sua confessa fonte de inspiração.

Ao anunciar, em sua fundação, que “cada cidadão é um repórter” e que sua plataforma era claramente uma oposição ao mainstream, o Ohmynews explicitou que manchetes como a desta madrugada são seu business.

No caso, um texto pessoal impressionista, com incômodo nariz de cera, mas um ótimo diferencial do noticiário da grande mídia: um cara contando que a cidade inglesa em que viveu, Dewsbury, tem o inacreditável poder de atrair tragédias. Foram vários os casos Isabella Nardoni no município. O mais recente (nem tão fresco assim, é do início de fevereiro…) é citado en passant pelo autor no oitavo parágrafo.

No dia em que as autoridades do Banco Mundial previram que a incontrolável alta dos preços dos alimentos vai provocar guerra e fome no mundo (NOTA: eram as manchetes de CNN e BBC por toda tarde/noite/madrugada deste domingo para segunda), não havia uma única notícia relacionada ao tema na trincheira do Ohmynews.

Tudo bem, se a missão da experiência é deixar de lado o hard news e incentivar sides ou análises.

Mas um passeio aleatório a outro setor do site, o canal de esportes, faz a incongruência saltar os olhos. É o caso do texto que conta as vitórias de Serena Williams e Nikolay Davidenko no Masters de Miami _ainda por cima publicado três dias após o fim do torneio.

Ou o relato da partida Colo Colo x Boca Juniors, com direito a descrição de lances e ficha técnica, tal qual centenas de outros produzidos pela grande mídia no mesmo dia.

Peralá: mas a colaboração é ou não é de hard news? É o que o usuário quiser, então? Cadê a mediação?

Aos experimentos pro-am de jornalismo colaborativo falta uma figura indispensável à tarefa profissional de coletar/filtrar/divulgar dados: a pauta, o roteiro de temas de interesse premente.

Um projeto que contemple a seleção de temas semanais/diários a serem abraçados pelos colaboradores, dentro de suas possibilidades, é factível. Quem não puder se comprometer a fazer, que não manifeste o desejo de desenvolver um texto. Agindo antes, os mediadores poderão obter resultados melhores.

De cara, isso é a solução para a vontade incontrolável de vestir um cachecol ao abrir sites como Ohmynews ou Brasilwiki, quase sempre dissociados do dia-a-dia em suas manchetes (mas, em suas listas de notícias, reféns dele).

E o papo ainda nem chegou à catastrófica colaboração oferecida pelos portais noticiosos.

Há um século, decidiram ensinar jornalismo…

No dia 29 agora (neste sábado, portanto) completam-se 100 anos que dois jornalistas americanos, incentivados financeiramente pelo lendário Joseph Pulitzer, criaram a primeira escola de jornalismo do mundo, na Universidade de Missouri.

E até hoje a discussão persiste: e jornalismo lá se aprende na escola?

Para quem acha e defende que “não” ou “em termos” (como eu _por mais paradoxal que isso possa soar), iniciativas atuais mostram que até quem não deveria está sendo instado a se sentar num banco escolar para aprender como se comporta (ou deveria se comportar) esse estranho ser chamado jornalista.

Travestidas de ação social libertária, tentam ensinar o modus operandi de repórteres e editores a cidadãos comuns interessados em práticas de jornalismo colaborativo.

Ou seja: até quem chegou (o “público antes conhecido como platéia“) para ajustar a madrasta agenda da mídia está sendo devidamente amestrado.

Mas afinal: jornalismo se aprende na escola?