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Nizan: ‘Quem não muda com o tempo são os malucos’

A Meio&Mensagem convocou um time de personalidades para entrevistar Nizan Guanaes, alguém cada vez mais indispensável no cenário de transformação da comunicação. Imperdível.

#pegabem?

Disclaimer: é só um exemplo, a anos-luz de distância de querer demonizar campanhas e profissionais.

Você certamente percebeu que a operadora de telefonia Vivo, como tantas outras empresas antes e também agora, de todos os setores, apostou numa hashtag para alavancar maciça ação de comunicação.

Pouca coisa resume melhor a vida on-line do que a hashtag, etiqueta criada por usuários do Twitter sem que alguém tivesse pedido. Simplesmente assim, surgiu. E é assim o mundo em rede, onde governos, empresas e pessoas têm acesso às mesmas ferramentas – nesse cenário, o controle será sempre das pessoas.

Isso um.

Dois, e recorro aqui novamente à lapidar frase de Nizan Guanaes: “Na época da comunicação total, a verdade tornou-se a maior arma de persuasão em massa.”

Pois bem: a Vivo, unilateralmente, decidiu que #pegabem. Só que não é exatamente verdade, e quem conhece a precariedade da rede de telefonia nacional sabe bem do que estou falando. Assim, tentar impor às pessoas o uso de uma hashtag só poderia dar nisso: #pegabem, na rede, virou um mote para ironizar a empresa.

Não é apenas a Vivo. Há dois anos, numa cobertura de Carnaval, a operação jornalística das Organizações Globo na internet decidiu que as pessoas deveriam usar a hashtag #globeleza não para interagir com a emissora (como, posteriormente, corretamente a rota foi alterada), mas para bombar sua programação. Resultado: só fisgou o desavisado tenista Gustavo Kuerten.

A abundância do uso de hashtags pelo marketing e pela publicidade, um fato, é muito perigosa para quem trabalha com comunicação. Não mande as pessoas fazerem aquilo que elas não estão dispostas. Muito menos num lugar tão democrático quanto o ambiente on-line.

Kony 2012: lições de uma manipulação grosseira

Não é possível que mais uma mobilização que tem a desinformação como mola-mestra na internet passe incólume. Sem deixar lições? Não pode.

Estou falando do viral Kony 2012, vídeo visto 100 milhões de vezes que reorganiza aleatoriamente e sem contextualização fatos ocorridos há mais de uma década em Uganda para fazer uma denúncia ainda válida: um criminoso está livre.

A ONG Crianças Invisíveis pretendia mostrar ao público as atrocidades de Joseph Kony, líder de um tal Exército de Resistência do Senhor – que cooptava crianças para sua guerra santa nas décadas de 80 e 90 e hoje está reduzido a um grupo de párias que não passa de 400 e não tem qualquer importância política ( as crianças que não morreram em combate já são adultos).

A trajetória de Kony mobilizou o mundo, e a ONG conseguiu arrecadar muito dinheiro com o buzz todo.

Tirando a desonestidade intelectual de se distorcer fatos, a entidade é muito séria e está na linha de frente de uma série de ações em prol das crianças africanas. Mas seu principal papel, de fato, é produzir vídeos que chamem a atenção para o problema, jamais resolvê-lo.

Ninguém deveria se sentir lesado pela campanha Kony, mas certamente é preciso parar para pensar de que forma nos engajamos em qualquer coisa que apareça on-line, sem o menor critério ou informação. Isso sim é gravíssimo e aponta para a existência de uma gigantesca massa de manobra altamente manipulável.

Pense nisso.

ATUALIZAÇÃO: Na Folha de S.Paulo de hoje, Nizan Guanaes fala do fenômeno Kony 2012 sob o ponto de vista da publicidade – um evidente case de sucesso.

O dia em o IG criou a data da notícia boa. Era 11 de setembro de 2001…

ATUALIZAÇÃO: o Good News Network resiste, festeja 15 anos (isso significa que iniciou suas operações em 1997, nos primórdios da operação comercial da internet). Já a Companhia da Boa Notícia, nem tanto (respira por aparelhos…).

A história das boas notícias rendeu. Em seu blog, e por coincidência, Sérgio Dávila comentou no mesmo dia sobre o Good News Network, cuja audiência cresceu 45% desde que começou a crise econômica.

Recapitulando: já há quem recomende aos jornais que criem seções ou invistam numa agenda positiva para recuperar leitores, cansados de desgraças, crimes e patifaria.

Inevitável alguém lembrar (não me conformo como é que eu esqueci) do “Dia da Boa Notícia” que Nizan Guanaes tentou instituir no portal IG. A data escolhida, 11 de setembro de 2001.

A efeméride seria comemorada assim: a capa do produto destacaria apenas noticiário otimista, edificante, social e feliz. A data foi anunciada com pompa pelo portal na véspera, que prometia um festival de boas notícias em sua capa ao usuário no dia seguinte.

Já na madrugada, o plano começou a fazer água: era assassinado o prefeito de Campinas, Toninho do PT, numa ação ligada a sequestro que até hoje jamais foi bem explicada. A capa do IG ignorou _a notícia sobre o crime, claro, foi jogada na lista de últimas normalmente.

Até que chegou 9h45, hora de Brasília, e um avião atingiu uma torre do World Trade Center. A capa do IG, impávida. Mas decidiu-se por acordar a chefia. Veio 10h03. Outro avião, outra torre. A prisão do “Dia da Boa Notícia” colapsou o site, que só abandonaria o propósito perto do meio-dia, quando notou que o mundo estava de fato acabando e só ele, porque tinha tomado a decisão errada no dia errado, ignorava o Armagedon em sua entrada mais nobre (até então), a home page.

Louco saber que, dois meses depois, Diléa Frate _por mais de 20 anos diretora dos talk-shows de Jô Soares e que mantinha, como até hoje, um site chão de fábrica com apenas notícias positivas  (ou bizarras)_ dava uma entrevista comentando o caso. É absolutamente insano.

“No dia 11 de setembro aconteceu uma coisa interessante. O portal do iG elegeu o dia como sendo “O Dia da Boa Notícia” e nós fomos escolhidos para ser a estrela do portal. Fizeram uma entrevista comigo muito parecida com esta aqui e íamos enviar boas notícias durante o dia todo. Foi um desafio, mas conseguimos nos safar: Choveram emails de pessoas confraternizando com o site e dizendo que não agüentavam mais aquele massacre de baixo-astral americano, com várias notícias que omitiam a verdade e massacravam um assunto. E nós conseguimos uma nova saída editorial no boa notícia: a partir da seção de Opinião, fizemos um apanhado crítico do que havia acontecido e projetamos que uma guerra não seria solução. A manchete desse dia no site foi: “DEU A LOUCA NO MUNDO!” E a partir de então, todos os dias, colocamos na parte superior do site um banner com uma arte de campanha pela Paz.”

Esse é um exemplo extremo, claro, mas definitivo para compreender que agendas e amarras e predisposições não fazem parte da rotina jornalística. Podem, no máximo, se resumir a seções ou pequenas notas. Jamais orientar a linha editorial de um produto noticioso.