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Blogar serve para que?

Blogar saiu de moda, e faz algum tempo eu falava exatamente sobre os “diários pessoais” na web com o professor André Rosa (o Marmota, na blogosfera), um precursor desta plataforma.

Assim, conversamos sobre as mudanças que o avanço tecnológico trouxe para a profissão. Rosa (que ministra cursos ligados à web no Comunique-se) é definitivo: o desdém pelas novas mídias está deixando para trás os jornalistas que não querem se ocupar delas.

Você é uma das primeiras pessoas de meu entorno a “ter um blog”, isso deve ter sido em 2000, um pouco depois da pré-história. O que você acreditava que faria na época com aquela ferramenta e como enxerga a transformação pela qual passou o relato cotidiano em ordem cronológica reversa, que já foi até padrão em home page de site noticioso importante?
Foi em 2002, já na “idade da pedra polida”. Já naquela época, duas coisas me chamaram atenção. A primeira: não vou precisar mexer em códigos HTML e FTP num serviço de hospedagem gratuito para atualizar um site. A segunda: podia usar este espaço como “válvula de escape”, para textos que não tinha razão de escrever onde trabalhava. Com o tempo, percebi que esta facilidade em publicar trouxe outros objetivos à baila, desde a busca por reputação (técnica, literária, entre outros temas…) até a tal “monetização”. Com outros impactos visíveis, como empresas perdendo dinheiro diante de comentários maldosos de consumidores na rede, o blog definitivamente deixou de ser visto como “diário virtual”. Ainda sobre essa transformação, dá pra enxergar uma curva, quase como uma parábola: um início de descobertas, uma explosão até o auge e, finalmente, uma queda no volume de usuários, passada a euforia. Agora, quem ainda mantém blogs são aqueles que ainda os consideram úteis. E é curioso como este mesmo ciclo está acontecendo agora com o Twitter, não? E vai se repetir com a próxima tecnologia que irá mobilizar um grande número de usuários no futuro, graças a sua facilidade…

O jornalista é, antes de tudo, um teimoso? Essa coisa de “eu conheço quem sabe” nos dá um incremento exponencial no muxoxo ao contato com novas tecnologias, como se pudéssemos recuperar o tempo perdido no período de uma ligação para algum guru de mídia?
Quanto a teimosia, não tenho dúvidas! Mas não sei ao certo se isso reflete na relação dos jornalistas com tecnologias. Tanto é que muitos profissionais pioneiros na web tiveram que lidar com provedores de conexão discada, servidores de hospedagem, scripts gratuitos, entre outras “gambiarras” capazes de resolver problemas como narrações ao vivo, fóruns de debates, chats com convidados… Entre outras coisas que hoje são indispensáveis em qualquer cobertura. Por um lado, é evidente que nem todo jornalista precisa entender todas as tecnologias, e historicamente isso nunca foi um “problema” – quem trabalha em jornal terá mais dificuldades para lidar com TV, por exemplo. Agora, optar pelo desdém da rede neste cenário implica outro ônus, que vai além do simples uso das ferramentas: entender a mudança de lógica, que está mexendo com a profissão. Talvez isso não se resolva com um telefonema (ou e-mail) a um especialista.

O que o avanço da tecnologia fez com o jornalismo que nós ainda não percebemos claramente? Digo, quais devem ser nossas prioridades num mundo em que pessoas, instituições e governos conversam entre si, sem a nossa mediação?
Essa é a pergunta do milhão, Alec. Tem um paper do Nic Newman que traz um balanço interessante do movimento das mídias sociais, ressaltando as eleições do Irã como um desses exemplos a serem analisados com calma. Esse mesmo documento traz uma observação óbvia, mas que ultimamente anda me incomodando um pouco. Ele lembra que, nos últimos 15 anos, tivemos três fases distintas envolvendo ferramentas de publicação e seu uso pelo mainstream, especialmente os sites de notícia: os quadros de aviso num primeiro momento; os blogs num segundo; e finalmente os sites de relacionamento e outras ferramentas, como Twitter, Facebook. E estas fases se sobrepõem, o que representa um volume sem precedentes na participação das pessoas, dentro ou fora destes sites de notícia. O que ainda não percebemos claramente é de que forma essa profusão de mensagens, muitas vezes fragmentadas, repetitivas ou mesmo irrelevantes, poderão fazer sentido. O desafio do jornalista não está apenas em filtrar e encadear estas mensagens – como muitos já sugerem, tornar o profissional um “gatekeeper” constante – mas em desenvolver um ambiente que represente uma “quarta fase”, dentro desta linha sugerida pelo Nic Newman. Meu palpite é a de que, para isso, serão priorizadas questões como a própria relevância destas participações. Mas é só um palpite, lógico.