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João do Rio

Se você não conhece João do Rio, deveria. E agora há um belíssimo motivo com o lançamento do livro “Cartas de João do Rio: a João de Barros e Carlos Malheiros Dias”, obra da pesquisadora Cristiane d’Avila editada pela Funarte.

Além de suas angústias pessoais, revelam-se nas páginas do trabalho projetos de revistas e as agruras cotidianas de um jornalista no início do século 20.

João do Rio é uma espécie de precursor do “new journalism” (anos antes do movimento notabilizado nos Estados Unidos por Wolfe e Capote, entre outros), adotando técnicas literárias no dia a dia do ofício jornalístico.

É um dos personagens mais importantes para quem pretende entender a construção da identidade do jornalismo brasileiro.

A ficção no jornalismo

Acredite, há quem defenda o uso da ficção no jornalismo.

Não sei muito o que dizer, mas lembro de aula do curso de Gêneros Jornalísticos, que ministro na pós-graduação em Jornalismo Esportivo na Faap.

Tem lá um espaço para discutir os adoráveis mentirosos do novo jornalismo.

Apesar de quase o tempo todo estar contra, tem horas em que capitulo.

Repórter entrevista gato e reconstitui acidente de trânsito no Chile

Imagine cobrir um acidente de trânsito e ser capaz de resgatar, passo a passo, o comportamento e a percepção do gato causador da capotagem _que deixou quatro feridos, dois deles em estado grave.

Foi o que fez um repórter do Diario de Aysén, de Coyhaique, na Patagônia chilena. A matéria dele deixa claro: o cara sabia exatamente o que fazia e “pensava” o felino ao atravessar inocentemente uma avenida e cruzar o caminho de um Jeep Cherokee.

“O gato escutou o motor do carro, à distância, rompendo o silêncio, chegando cada vez mais rápido. Então, assustado, decidiu daquilo que parecia ameaçá-lo. O motorista do carro mal viu a negra silhueta que cruzava o seu caminho”, diz a reportagem, que informa em primeira mão: “O gato, do outro lado da rua, girou a cabeça e observou por um segundo o jardim da praça destruído, com as flores espalhadas pelo chão, e desapareceu”.

Senhores, esse repórter entrevistou o gato. É um fenômeno.

PS: Capaz de os defensores do jornalismo literário (essas duas palavras que não se bicam) acharem legal. O webfanzine Disorder já decretou o autor da pérola “o pior jornalista do Chile“.

Ruy Castro disseca Gay Talese

Gay Talese esteve na Flip e, aparentemente, provocou furor neste sábado num debate ao vivo. Bombou na web, e não é por menos: o cara tem história para contar.

Aliás, o jornalista Mauricio Stycer registrou essa faceta do repórter-escritor americano. “Mario Sergio Conti faz perguntas. Gay Talese conta historias, mas não responde nada. Cansativo”, “tuitou” ontem Stycer_quem fez o melhor resumo da participação de Talese na Flip, ao menos no Twitter.

Mais notícias sobre Gay Talese e a Flip

Mas antes ele tinha falado bobagem embarcando na carona da morte de Michael Jackson. Ruy Castro, sempre solerte, não deixou passar e opinou com propriedade na Folha de S.Paulo de ontem.

“Será que, antes do new journalism, toda a imprensa escrevia mal?”

O problema é que Talese disse que a imprensa matou MJ. E quando Talese diz, supõe-se uma ciranda de consulta ao entorno dos personagens de suas notícias.

“Talese terá ouvido isso de Michael, do psiquiatra, da enfermeira ou da babá do artista? Ou será uma suposição?”, arremata o brilhante Ruy.

Pois é, nem há nada a acrescentar.

“Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado”, diz Gay Talese

Em entrevista a Sylvia Colombo publicada neste sábado pela Folha de S.Paulo (só para assinantes), Gay Talese, 77 anos admite que fala “como um velho da profissão”.

Expoente do new journalism (movimento que empurrou a não ficção em direção à literatura), Talese diz que os jornais ajudaram o valor-noticia a despencar para zero ao liberarem seus conteúdos on-line. “É preciso cobrar pelo que se publica. Porque se trata de uma tentativa de encontrar a verdade necessária para a sociedade, e que tem um preço”.

O escritor se esquece que o conteúdo, agora, não é distribuído apenas por quem o produz. Ele é compartilhado na rede. Pelo seu próprio público. A cada dia mais rápido e por mais canais. É uma situação que não se pode mais deter. Se você não o disponibiliza sem ônus, alguém o fará.

Mas Talese (autor de célebres reportagens travestidas de obras literárias) mostrou conhecer muito bem a noção de filtragem, fundamental nestes tempos de informação tão abundante. “Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado. A internet está cheia de lixo”, afirma, com razão, ainda que a frase pareça da lavra de Andrew Keen, o ex-crítico número um da web.

Mas como, então, evitar o gradual desinteresse do público pelas publicações impressas? “Não sei”, encerra Talese.