Arquivo da tag: modelo de negócio

Notícias do pós-jornalismo industrial

C.W.Anderson, Emily Bell e Clay Shirky assinam um importante artigo/manifesto [PDF] recém divulgado pela Universidade de Columbia (EUA) que analisa o que os autores chamam de “adaptação do pós-jornalismo industrial” ao avanço tecnológico.

O estudo (sim, há entrevistas com profissionais e amadores) parte de cinco premissas: 1) O jornalismo é relevante (mas os autores pontuam que nem todo jornalismo é); 2) O bom jornalismo sempre foi subsidiado; 3) A internet destruiu o modelo de financiamento publicitário; 4) Reestruturação dos processos é um movimento obrigatório; 5) Há várias oportunidades de fazer bom trabalho de formas diferentes.

O paper é focado no jornalismo praticado nos EUA (por exemplo, decreta a falência do modelo de paywall e micropagamentos, que mal começou a ser testado por aqui) e faz um movimento ousado no sentido de tirar o New York Times do bojo da discussão. Assim, o jornalão é enquadrado numa categoria com um único integrante: o New York Times.

A exceção é importante para que trabalhos como Snow Fall, que consumiram seis meses e o suor de 17 profissionais, não passe à posteridade como um modelo do que deve ser feito pelas novas gerações.

O LinkedIn de R$ 13 bi e seu desafio: atrair o usuário nos momentos de ócio

Sabia-se havia meses que a abertura de capital do LinkedIn seria um estrondo.O lançamento das ações da rede social das relações de trabalho só colocou um preço no negócio de Reid Hoffman: R$ 13 bilhões.

Faz sentido o debate sobre uma provável nova bolha das pontocom, mas não pelo que aconteceu na quinta-feira.

Não é o LinkedIn o símbolo da supervalorização de ideias cujo maior capital é o potencial futuro. Ele é um dos personagens desse jogo.

Ainda temos de descobrir como ganhar dinheiro de verdade com a multidão que usa esse tipo de serviço _100 milhões, no caso do site de Hoffman (o líder Facebook tem 670 milhões de consumidores).

De interface pouco amigável e funcionalidade prática discutível, o LinkedIn de R$ 13 bilhões (que tinha a perspectiva de captar modestos R$ 285 milhões) assusta mais por outro motivo: como torná-lo atraente a ponto de a gente acessá-lo quando não está pensando em trabalho?

Baseado na experiência forrada de lazer e futilidade da rede social número um (sim, falo dele, o Facebook),  Hoffman terá de tirar vários coelhos da cartola.

Você sempre quis ter um jornal? A hora é essa

Tem louco pra tudo: na Inglaterra, o Newspaper Club oferece a possibilidade de imprimir seu próprio jornal a um custo bastante reduzido (364 euros por 300 cópias).

Poderíamos identificar aí um nicho interessante para o jornalista: produzir edições direcionadas a eventos tão diversos quanto casamentos, shows de rock, espetáculos esportivos.

A ideia parece boa, mas se encaixa só em produtos gratuitos _que exigem uma belíssima estratégia de venda de publicidade para prosperar.

Logo, de volta à estaca zero.

Convergência para quem precisa

A convergência de conteúdos não é uma receita que serve para todos. Assim como nem todo mundo quer/gostaria/pode desempenhar multitarefas multimídia.

É uma sensação que me acompanha há tempos. Antes de fazer, você precisa saber o que e como fazer.

O professor holandês Piet Bakker reforçou a ideia num encontro recente em Barcelona (inclui slides).

Para ele, a convergência (ou seja, pensar e entregar conteúdo planejado em conjunto, mas para várias plataformas) é apenas mais um modelo de negócio, não uma religião que deve ser seguida a qualquer custo.

“A integração de redações sem um modelo de negócio definido e uma maneira de convencer as redações certamente não é a solução ideal. Ao contrário, pode levar a mais gastos, um processo lento de tomada de decisões, descontentamento na equipe e, consequentemente, prejuízo financeiro”.

Bem por aí.

Leia também: Nós não precisamos de manchetes

A culpa é das agências de notícias?

Essa é, disparado, a justificativa mais original que já li para a crise dos jornais impressos nos Estados Unidos. Para Paul Farhi (que é repórter do Washington Post), a culpa é da Associated Press, a boa e velha AP, mais antiga agência de notícias do mundo.

O raciocínio, exibido na American Journalism Review, é simples: ao vender seu serviço para portais on-line, a AP matou os impressos. O autor chega a perguntar “porque comprar uma cópia do New York Times se a versão da AP para assuntos nacionais e internacionais já foi distribuída em toda parte” _como se um jornal se resumisse a textos pasteurizados de agências.

A conclusão é que a AP deveria “ter ficado com a família” e se mantido fiel a jornais, tvs e rádios parceiros de longa data.

O texto é longo, mas tem o mérito de analisar o modelo de negócio dos portais e também das agências noticiosas, que hoje distribuem de graça seu conteúdo em sites próprios mas incrivelmente conseguem ser remuneradas pelos veículos que usam seu material.

É um caso raro e que merecerá a nossa atenção em breve.

A monetização do jornalismo

Em pleno domingo de Carnaval, cerca de 350 pessoas discutiram os novos rumos do jornalismo no Chicago Journalism Town Hall.

O evento teve acompanhamento via microblog e se propôs a discutir, inicialmente, propostas de monetização que possam ajudar o jornalismo (o americano, em especial) a sair da crise.

A conversa acabou girando sobre novas tecnologias e possibilidades que o jornalismo pode aproveitar na Web. Tudo muito em cima do caso de Chicago, mas várias ideias (reunidas pelo Kiyoshi Martinez) podem prosperar em outras regiões.

A questão que não devemos perder de vista é encontrar novos modelos de negócios para que nossa profissão consiga sobreviver com saúde financeira à era da conversação e da publicação pessoal.

Aqui, uma visão mais conservadora do evento.  Aqui, o debate em áudio.