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A carta que não houve

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É um dos episódios mais vergonhosos da história do jornalismo: em 1978, a El Gráfico (uma revista que um dia existiu na Argentina*), publicou o que seria uma carta escrita pelo jogador holandês Krol, finalista do Mundial, para sua filha.

“Mamãe me contou que outro dia você chorou muito porque alguns amiguinhos te disseram coisas muito feias que estariam acontecendo na Argentina. (…) É mentira, aqui tudo é tranquilidade e beleza. (…) Não se assuste ao ver fotos da nossa concentração com soldadinhos de verde ao nosso lado. Eles são nossos amigos, nos cuidam e nos protegem”.

É tétrico: a Argentina vivia sob uma ditadura militar que custou a vida de pelo menos 8 mil pessoas.

Krol, é claro, jamais escreveu essa coleção de bobagens. Sua assinatura foi roubada do press kit da seleção da Holanda, que trazia autógrafos de todo o elenco. Tratou-se de uma das mais brilhantes peças de marketing político endossada justamente por quem deveria nos proteger dessa espécie de estrume.

*A El Grafico tinha os maiores jornalistas do país e morreu duas vezes: naquele dia 13 de junho de 1978 e duas décadas depois, quando foi abatida pela crise do jornalismo impresso e praticamente se transformou numa revista-laboratório de faculdade.

O mea-culpa de O Globo

Muito importante o editorial do jornal O Globo no qual o veículo admite que ter apoiado o golpe militar de 1964 foi “um erro”.

“Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura”, começa o texto, um produto da era da transparência total – imposta pelo avanço tecnológico.

Mais. “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

Palmas.

Quando dois concorrentes se complementam

Aconteceu na sexta-feira: tema de editorial da Folha de S.Paulo foi simultaneamente matéria em seu principal concorrente, O Estado de S.Paulo.

A Folha criticou a proibição de acesso público aos processos nos quais Dilma Rousseff foi ré durante a ditadura.

Exemplificou com o caso americano, onde candidatos (seja a qual cargo for) estão expostos a todo tipo de escrutínio e muitas vezes abrem espontaneamente seus arquivos pessoais. É cultural e considerado normal.

Ao mesmo tempo, Patricia Campos Mello, no Estadão, detalhou como funciona essa devassa consentida nas vidas dos postulantes a cargos públicos.

Uma feliz complementação.