Arquivo da tag: Milícias do RJ

E a responsabilidade do jornal?

A Polícia carioca diz ter identificado os torturadores de equipe de reportagem do jornal “O Dia”, capturados em 14 de maio enquanto faziam matéria especial sobre a milícia armada que tomou conta da favela do Batan, no Rio.

Reforço minha dúvida: e a responsabilidade de “O Dia”, como é que fica? Você acha seguro autorizar que três funcionários criem personagens, façam papel de polícia e infiltrem-se por duas semanas numa comunidade subjugada por um grupo paramilitar?

Não, nem a melhor matéria pode sobrepujar o bom-senso.

A repórter era experiente em cobertura de polícia, e o fotógrafo adorava retratar o morro. O motorista até agora não se entende porque foi exposto. Se ele não desempenhava esse papel na missão, por que foi incluído na representação?

Hoje, a vidas destas três pessoas, quase interrompida por um ato de barbárie, está paralisada. Vivem como foragidos num país do continente, enquanto suas famílias temem _com toda justificativa_ pela própria segurança.

Eu imagino como deve ter sido a concepção dessa pauta, o debate dentro da redação, a logística, o envolvimento dos protagonistas.

Óbvio, ninguém foi obrigado a nada. Mas é fato que não se pode bancar uma aventura dessas, há um limite para o exercício da jornalismo. “O fato, ocorrido há duas semanas, só foi divulgado agora para garantir a integridade física dos envolvidos”, diz Alexandre Freeland, diretor de Redação de “O Dia”, em nota oficial.

“Garantir a integridade física dos envolvidos”, na minha língua, é impedir desvarios.

Equipe de reportagem é torturada em favela do RJ

ATUALIZAÇÃO: Três anos depois, o fotógrafo Nilton Claudino relatou todo o drama à revista Piauí

Repórter, fotógrafo e motorista do jornal carioca “O Dia” foram brutalmente torturados quando faziam reportagem sobre o o poder das milícias _grupos formados por militares que gradualmente estão expulsando traficantes de favelas da cidade, mas impondo ainda mais terror aos moradores.

A agressão ocorreu no dia 14 de maio na favela do Batan, invadida há pouco menos de um ano. O jornal tornou a história pública neste sábado, dizendo ter sido cauteloso para preservar a integridade física de seus funcionários e as investigações policiais.

Tim Lopes não pode ser apenas uma ocorrência num site de busca. Definitivamente, jornalista não possui treinamento em operações especiais. Coincidência macabra: é amanhã, 2 de junho, o aniversário de seis anos do assassinato do produtor da TV Globo.

A questão aqui é: quem autorizou a permanência de uma equipe de profissionais, por 14 dias, numa comunidade sob fogo cruzado (expulsa da favela, a ADA tenta a todo custo restabelecer sua hegemonia)?