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O manipulador

Ele desmascarou uma série de repórteres preguiçosos e desatentos, da grande imprensa ao blog de fundo de quintal. Ele é Ryan Holiday, um mentiroso contumaz que escancarou a falta de credibilidade do jornalismo que cai no conto de qualquer um.

Sua história está no livro “Acredite, Estou Mentindo – Confissões de Um Manipulador das Mídias“.

Fora de pacote de desonerações do governo Dilma, indústria jornalística é incluída aos 45 do segundo tempo

Num primeiro momento, a presidente Dilma Rousseff deixou as empresas jornalísticas de fora da desoneração da folha de pagamento, que reduzirá de 20% da folha de pagamento para até 1% do faturamento a contribuição ao INSS para 15 setores, teoricamente incrementando sua capacidade de investimento.

Na sexta-feira, ampliou as benesses da medida para outros 14 setores, entre eles a indústria jornalística – para os retardatários, porém, só a partir do ano que vem.

A justificativa oficial para o veto inicial menciona que a indústria jornalística (assim como outros 18 setores então barrados) não apresentou “as estimativas de impacto e as devidas compensações financeiras”.

Na prática, isso significa que o governo duvida da potencial das companhias jornalísticas em fazer novos investimentos.

Como já tratamos aqui, a presidente conhece bastante bem a realidade desse mercado. A ajuda, nesse caso, poderá vir de outra forma.

O estado da mídia em 2013

Estabilidade no meio papel, audiências menores na TV… resumido em infográfico em espanhol, o State of Media 2013, tradicional levantamento do Pew Research.

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Reinações de Garotinho

O deputado federal Anthony Garotinho, líder do PR na Câmara e ex-ficha-suja (segundo o TSE, que reformou decisão de instância inferior), tem dedicado em seu mandato especial atenção à mídia.

Nesta semana, apresentou projeto de lei que desobriga empresas estatais a publicar balanços, editais e fatos relevantes (jargões do economês) em jornais de grande circulação.

Se aprovado, o PL representará um duro golpe nas já combalidas finanças do jornalismo impresso. Estima-se que um único balanço (e são ao menos cinco anuais, fora as outras modalidades de comunicados públicos) possa custar até R$ 800 mil num jornal como o Valor, que reúne a maior parte desse tipo de anúncio legal e é uma propriedade compartilhada por dois dos maiores grupos de mídia do país (Folha e Globo).

Em outra frente, Garotinho capitaneia proposição para estabelecer o rito sumário de direito de resposta. “Desde muito tempo sou vítima de mentiras e difamações expostas por alguns meios de comunicação que me perseguem”, afirma.

É bem verdade que a internet e sua capacidade de armazenamento e organização de banco de dados parece ser, hoje, a plataforma mais adequada para se exibir informação cuja motivação básica é a transparência.

No caso do direito de resposta, há a falsa percepção de que existe um vácuo jurídico desde que o STF considerou a Lei de Imprensa inconstitucional, em 2009. Não é verdade: nossa Constituição trata de forma límpida sobre o tema.

 

Um Proer da mídia?

Na sexta-feira, revelei aqui que o governo brasileiro tem procurado a indústria editorial extremamente preocupado com a saúde financeira do setor – e que, na outra mão, empresas importantes “em estado pré-falimentar” (segundo emissário do próprio governo) acenaram pedindo socorro.

Num momento em que (ainda) se discute o controle social da mídia, bandeira do partido que governa o país há uma década, imaginar que o governo, e não a sociedade, ponha a mão no bolso para garantir a atividade jornalística não deixa de ser um paradoxo.

O Brasil já usou dinheiro público (e muito, quase R$ 38 bilhões em valores da época) para capitalizar mais de 70 instituições financeiras nos anos FHC, no programa que ficou mais conhecido pela sigla, Proer.

O BNDES (de onde sairia o eventual crédito agora) esteve metido no complicado processo de negociação da dívida que quase levou NET, Globo.com e Editora Globo à falência no início da década.

A grita foi grande, mas o banco público fez mais do que emprestar dinheiro à holding da família Marinho: tornou-se sócio de uma das empresas, o que se mostrou, anos depois, um péssimo negócio. A Editora Abril, para se livrar com vida da aventura da TVA, também foi assídua frequentadora dos corredores do banco.

Naquele momento, a mídia nacional já havia cortado 17 mil empregos e acumulava dívidas de R$ 10 bilhões. Consequência da farra do dólar e a desvalorização do real, que transformou compromissos contraídos na moeda americana em contas impossíveis de se pagar.

O debate de 2004 – ir ou não ir ao BNDES – pode estar se repetindo nove anos depois, e sem a desculpa do câmbio. O que é, certamente, muito mais grave.

As pessoas manipulam tanto quanto a mídia formal

A manipulação da mídia (nas palavras de Noam Chomsky), decálogo que se enquadra perfeitamente na manipulação da mídia social (nas minhas palavras).

Este texto fecha a lista dos dez mais lidos em 2012 no Webmanario.

Leituras

Rita Figueiras presta um excelente serviço ao debate com o artigo “Intelectuais e redes sociais: novas media, velhas tradições”, publicada no volume 6 da Matrizes, revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo.

No texto, a pesquisadora defende que as redes sociais – do outro lado da moeda questionadas pela qualidade da informação ali distribuída, via de regra considerada pífia – são “lugar onde intelectuais encontram espaço para exercerem o seu papel de consciência reflexiva da sociedade contemporânea”, ou seja, um espaço público que efetivamente pode ter relevância.

Na mesma edição, Henry Jenkins dá o ar da graça com o artigo “Lendo criticamente e lendo criativamente”, que cumpre bem o papel de discutir a fan fiction e sua possível utilização em sala de aula.

Mas tem mais: em “As estratégias dos grupos de comunicação na alvorada do Século XXI”, Jean-Yves Mollier traça um panorama bacana da questão das fusões e a intromissão de grupos de midia no mercado editorial.

O cerco à mídia na Argentina

A discussão sobre a Ley de Medios e o cerco à imprensa “independente” na Argentina está pegando fogo.

Para quem trabalha com jornalismo, é impossível achar normal o que está acontecendo no vizinho. Amanhã, e nesse aspecto ainda bem que temos Dilma na presidência, pode ser a gente…

 

 

A manipulação da mídia (social)

Começou a circular, de novo, texto de Noam Chomsky (que reproduzo abaixo) no qual ele elenca o que seriam “dez estratégias de manipulação da mídia”.

É importante lembrar que em mídia social acontece exatamente a mesma coisa, ou seja, a manipulação não é uma prerrogativa de grandes corporações.

Ao contrário, grupos de ativistas cibernéticos têm seguido com louvor a cartilha de Chomsky – e acham que a gente não percebe isso. Triste um mundo onde os que denunciam manipulação são altamente manipuladores.

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos

Quando Orwell se virou no túmulo

No documentário “Orwell Rolls in his Grave” (Orwell está se virando no túmulo), de 2003, o diretor Robert Kane Pappas analisa as relações entre mídia, governo e empresas – e faz uma previsão sombria para a internet, que então se consolidava como uma nova mídia.

A rede é apresentada como ‘a próxima a ser manipulada’.

Mas senta que lá vem história: são três horas de filme. Pega a pipoca aí e manda bala, por que é bem interessante.