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Conteúdo pago: crônica de uma morte anunciada

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Como se aproxima rapidamente a hora em que alguns dos principais jornais do mundo voltarão a cobrar por conteúdo (não deve passar do início do ano que vem, num movimento que inclusive pode ser considerado cartelização e, posteriormente, vetado), chega em boa hora pesquisa do site Paid Content que, como o nome diz, defende o tiro no pé e o suicídio de se cobrar por aquilo que há anos é de graça e, mais, que se pode encontrar em qualquer lugar na internet.

Mas enfim, o site perguntou o que as pessoas fariam se, de repente, a página de notícias preferida delas passasse a cobrar por conteúdo.

Bem, as respostas estão no quadro acima. Destaco que só 5% aceitariam pagar assim, na boa. E olha que esse levantamento foi feito na Grã-Bretanha. Aposto que, fosse no Brasil, a adesão ao conteúdo pago seria ainda menor.

 Aproveitando o assunto, vale muito a pena ler (e ouvir, pois o áudio está disponível também) mais um pouco das opiniões de Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, sobre o assunto.

A frase emblemática deste colóquio: “Deixem mil flores para substituir os jornais, mas não criem um paredão pago em torno de um bem público”.

Levantamento relaciona queda do PIB global a iniciativas de cobrança por conteúdo on-line

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Muito oportuno o levantamento de Ramón Salaverría, que usando dados do FMI _e bastante conhecimento sobre a vida pregressa da internet_ estabeleceu uma relação entre PIB global e iniciativas de cobrança por conteúdo on-line, como a que assistimos agora, desde 1996.

À ela, Salaverría deu o nome de Lei do Pagamento por Conteúdos On-line, cuja premissa básica é: “o número de iniciativas para implantar conteúdos pagos em meios digitais é inversamente proporcional à evolução do PIB nos países ocidentais”.

O gráfico elaborado por ele (e que você vê acima) é lapidar para comprovar a tese.

Salaverría deixa ainda a pergunta: recuperada a economia após o crack do subprime, desistirão os grandes grupos jornalísticos (que pediram ajuda até do Google) da nova investida monetarista contra o que os usuários da web há anos estão acostumados a ter de graça?

Como convencer seu leitor a pagar por notícias? Pergunte a um psicólogo

Como convencer as pessoas a pagar por conteúdo que há anos está disponível de graça na internet, caso de notícias? Pergunte a um psicológo.

Steve Outing fez exatamente isso: perguntou a B.J. Fogg, professor de Stanford especializado em tecnologia persuasiva (também conhecida como captologia), que técnicas os donos de jornais deveriam utilizar para ter êxito nessa difícil tarefa.

Fogg é, provavelmente, o único profissional que oferece respostas para o hercúleo propósito de mudança do comportamento humano _que é, basicamente, o que pretendem os jornalões com sua risível e impraticável proposta de cobrar pelo que é de graça, e continuará sendo (mesmo construído um muro pago, o conteúdo seguirá sendo distribuído livremente pela rede).

Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debatem o jornalismo

A convite da CBN, Clóvis Rossi e Eugênio Bucci debateram os destinos do jornal impresso (e, consequentemente, do jornalismo) no programa Notícia em Foco, que vai ao ar sempre às segundas, às 19h.

O tema foi a sustentabilidade do negócio jornal.

Bucci imagina um mundo em que as empresas jornalísticas serão sustentadas “pelo menos em parte” por seus leitores. Motivo: manter a independência do veículo (quer dizer então que até hoje ela nunca existiu de fato?). Rossi diz que uma mudança desse tipo levaria mais tempo do que os anos que ainda têm a viver _ele tem 66.

O tema nada mais é do que um desdobramento do micropagamento, a bobagem lançada nos últimos meses como um último apelo pela grande imprensa _especialmente a dos EUA e Europa, esta sim verdadeiramente ameaçada de extinção. Mais do que o micropagamento, a doação (ainda inviável, por questão cultural e burocrática, no Brasil).

Sobre a produção jornalística colaborativa on-line, o colunista e repórter especial da Folha de s.Paulo deu um exemplo bizarro. “Se um blog me recomendasse, digamos que no dia 14 de setembro do ano passado, que eu investisse em ações do Lehman Brothers, quem eu iria processar?” (a falência do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, é apontada como um dos estopins da crise financeira global).

Não entendi, porque eu tampouco teria respaldo jurídico para processar um jornalão que fizesse o mesmo.

Ou teria?

Bucci, professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e com um vasta experiência no mainstream como jornalista, bateu muito na tecla do financiamento público do jornalismo _pelo público, não pelo poder público.

Falou-se também do polêmico blog Fatos e Dados, com a qual a Petrobras decidiu vazar conteúdo de reportagens ainda em andamento. Seu pleno direito, diga-se de passagem. A argumentação, por sinal, é excelente.

Até o microblog, quem diria, foi parar na conversa. “O meu papel não é gritar que caiu um avião. É dizer porque caiu o avião”, encerrou Rossi. “Contando calmamente, no ouvido do leitor”.

A falsa mobilização da ex-plateia

O falso anúncio dos leitores no NYT

O falso anúncio dos leitores no NYT

O engajamento da audiência (ou melhor, da ex-plateia) definitivamente mudou o fazer jornalístico. Não só mudou como, em alguns casos, o influenciou diretamente, criando ruídos contestatórios e evidenciando que seu poder não é mais o mesmo.

Só que muitas vezes essa audiência serve a interesses, inclusive de governos que, nas sombras, agem bancando seus devaneios.

A ONG “For the Next Generation” voltou a fazer barulho ontem, ao publicar no New York Times um anúncio que repara um mapa publicado pelo jornal _a questão é toda política e envolve o nome de um quase golfo entre as Coreias, China e Rússia, além do país que lhe dá o nome mais usado.

O NYT escreveu Mar do Japão, o ONG briga pelo uso de Mar do Leste. Daí a provocação.

Não foi uma novidade: em 2005, a entidade publicou anúncio semelhante no The Wall Street Journal. É seu modus operandi.

No caso mais recente, ela diz que foram 94.966 doadores que bancaram o anúncio, cujo valor não foi revelado (mas gira em torno de US$ 60 mil), quase todos coreanos.

Aqui se trata de massa de manobra, não de uma manifestação espontânea da ex-plateia. Apenas para que os registros de uma conduta induzida e politizada não sejam confundidos com a legítima participação do público no jornalismo formal.

O conteúdo pago e o mal que ele faz

Até mesmo a informação econômica, a única pela qual as pessoas estão dispostas a pagar sem compartilhar, está na berlinda.

Esse ex-leitor do The Wall Street Journal conta os motivos.

E ainda há quem enxergue na cobrança on-line uma saída para o jornalismo formal.

Pode tirar o cavalo da chuva.

“O jornal é um blog que deixa tinta nas suas mãos”

Presidente da Newspaper Association of America (NAA), John Sturm submeteu-se ao constrangimento de participar do humorístico de TV The Colbert Report, que mimetiza a linguagem dos telejornais para fazer piada.

Nos Estados Unidos, a situação dos jornais impressos não tem graça nenhuma. Após fechamentos de veículos em Denver e Seattle, nesta semana o Chicago Sun-Times (há anos capengando) quebrou de vez e agora tenta a recuperação judicial.

As declarações de Sturm ao comediante retratam exatamente o momento do jornal impresso nos EUA (e também na Europa). A claque ri do que deveria chorar. O presidente de NAA cita, com cara triste, que os jornais americanos têm milhões de visitantes on-line, e não cobram nada pelo conteúdo.

“Existe muita informação de graça”, diz Sturm. Sim, é o tal do compartilhamento. Não adianta se fechar em copas: seu conteúdo será distribuído por admiradores, não por piratas. Não tem jeito.

O final do vídeo, uma brincadeira de criança entre humorista e entrevistado, chega a corar Sturm. E quem vê.

É toda uma caricatura do fim de uma era.

ATUALIZAÇÃO: Ontem, no mesmo programa, foi a vez de Biz Stone ironizar/ser ironizado. A diferença é que ela comanda um empreendimento bem sucedido (o Twitter). Então, as piadas são sempre mais engraçadas.

A sociedade não precisa de jornais, mas de jornalismo

Cresceu, nas últimas semanas, a discussão sobre a cobrança por conteúdo jornalístico na internet, por sinal uma grande bobagem que já foi testada e reprovada nos primórdios da web.

E não adianta comparar com o iTunes _afinal, notícia é perecível, ao contrário da música, executada milhares de vezes (logo, seu valor é imensamente superior).

Mesmo assim, me responda: você conhece alguém, no Brasil, que paga ao iTunes por música diante de tanta oferta gratuita? Um louco, talvez.

Daí aparece Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York (o lugar para se aprender jornalismo hoje no mundo), contando que em 1993 uma investigação antipirataria identificou uma série de torneiras que vazavam, de forma ilegal, o protegido conteúdo da popular coluna humorística que Dave Berry publicava no jornal Miami Herald.

A força-tarefa achou muita coisa, desde material na usenet (espécie de avó da internet), a listas de e-mail com mais de 2 mil destinatários e até um garoto de 14 anos que copiava as colunas porque adorava Barry e queria “que mais gente lesse o que ele escreve”. Isso há 16 anos.

“Quando uma criança ameaça o seu negócio não porque te odeia, mas porque te ama, você tem um grave problema”, disse a Shirky Gordy Thompson, que na época era executivo dos negócios on- line do New York Times.

Pois é exatamente este grande problema que está encarando o jornalismo de frente. Por mais que você se feche em copas e exija moedinhas para liberar pílulas de conteúdo, ele estará circulando livremente na web por outras vias. Várias. Milhares. E principalmente por pessoas que acham o seu trabalho o máximo. Elas pagariam apenas para ter o prazer de distribuí-lo na rede, sem auferir qualquer lucro.

“A habilidade do público de compartilhar conteúdo não vai cair. Pelo contrário, se expandirá cada vez mais”, diz Shirky. É essa certeza que torna absolutamente inócuo qualquer modelo escorado em cobrança do usuário.

Jornais não vendem papel. Vendem notícia. Sobre isso, Shirky _autor do principal livro sobre a sociedade em rede em 2008, Here Comes Everybody_ é definitivo.

A sociedade não precisa de jornais. Ela precisa de jornalismo“.

Mark Deuze, professor de jornalismo e novas mídias, também fala sobre o assunto em post recente de seu blog.

Público banca mais uma experiência no jornalismo

Começou mais uma experiência de jornalismo financiado pelo leitorado nos Estados Unidos (as outras, que você já conhece, são o Spot.Us e o Jornalismo Representativo).

Jornalistas demitidos de impressos que fecharam as portas ou estão moribundos no Arizona criaram seus próprios veículos on-line para tocar a vida. E o Heat City trabalha com o conceito de microdoações para fazer pautas pinçadas entre sugestões do público _exatamente como funciona o Spot.us.

Vamos acompanhar e ver no que dá. Uma coisa é certa: a cultura da doação é americana. Não cola no resto do mundo.

Por uma imprensa sustentável

Dois textos debatem hoje o assunto do momento: a sustentabilidade da indústria jornalística.

Na Salon, Gary Kamiya dá números do desastre ( o prejuízo dos jornais americanos foi o maior da história em 2008 ) mas lembra que, na era da publicação pessoal, as notícias estão circulando como nunca.

O problema, com o fim da imprensa “formal”, é que imediatamente a blogosfera e o jornalismo no ciberespaço acabariam _ou eles não reproduzem e vivem a reboque dos veículos tradicionais?

No Huffington Post, Jack Myers é mais auspicioso: ele oferece a possibilidade de doar dinheiro para publicações que estejam, de alguma forma, trabalhando e compartilhando boas idéias e modelos de negócios que ajudem a perpetuar o negócio.

Afinal, a crise não é exatamente dos jornais, mas do jornalismo. E, sem ele, a democracia perde um pilar importante.