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Aprisionados

Há alguns problemas com relação ao Instant Articles, programa pelo qual o Facebook colocou pra dentro da plataforma nove importantes players produtores de conteúdo jornalístico, dando sequência ao seu malévolo plano de se transformar no único site que os usuários da rede deverão acessar – hoje, mais de 90% das pessoas que têm acesso à internet já passam por ali diariamente.

O conflito mais grave é ético: sendo o Facebook um ambiente que censura conteúdo, como produtos jornalísticos podem considerar fazer acordo com Zuckerberg – a troco de 30% de tudo o que for vendido em publicidade em cada artigo?

A questão de fundo, e a que considero mais importante, é filosófica: precisamos mesmo estar dentro do Facebook, sob seu controle?

E o jornalismo, heim?

Polêmica à vista: o crítico de mídia Jack Shafer afirmou, numa entrevista recente, que o jornalismo nunca foi tão acurado. Seu ponto: nunca foi tão fácil checar uma informação em tempos de bancos de dados fartos e acessíveis a um clique.

A sensação, porém, é que há mais erros. Mas isso, convenhamos, acontece porque confirmar as notícias também se tornou uma tarefa quase universal.

É o cão correndo atrás do rabo?

A publicidade móvel avança

Previsões para 2015 colocam a publicidade em dispositivos móveis na crista da onda, com um crescimento de até 65% – ok, a base é menor, então o incremento via de regra é espantoso mesmo.

De toda forma, 2014 já foi um ano auspicioso para o meio. Uma ameaça ao jornal?

O fim das entrevistas na portaria

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Abro o jornal e me deparo com a seguinte notícia:

“O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, instruiu os seguranças do ministério a não permitir que repórteres, fotógrafos e cinegrafistas fiquem na portaria do prédio durante a sua chegada.”

Notícia?

Por que diabos isso deve ser comunicado ao público? Talvez para que ele saiba as condições precárias em que a notícia muitas vezes é obtida?

Entendo ainda que a determinação do ministro possa ser vista como um cerceamento ao exercício da profissão. Mas não é o caso, obviamente.

As relações entre fonte e jornalista precisam de algumas mínimas regulamentações de convivência. É salutar.

Charlie Hebdo eterno

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Os criminosos que perpetraram a chacina do semanário francês Charlie Hebdo, que inspirou gerações de jornalistas-cartunistas pelo mundo (como a nossa turma de O Pasquim), não sabem o que fizeram.

Na tentativa de calar, notabilizaram e globalizaram uma mensagem que tem o desprendimento, muito antes da liberdade, como o maior trunfo.

Mais Charlies Hebdos virão. E o original ingressou numa santificada galeria. Certamente não era isso que queriam os matadores.

ATUALIZAÇÃO: Para ilustrar o que escrevi acima, o advogado do Charlie Hebdo informou nesta quinta que a próxima edição da publicação (moribunda como vários outros impressos e estagnada em 60 mil exemplares) terá 1 milhão de cópias.

Em busca da credibilidade perdida

Não é só a Petrobras: o jornal japonês Asahi Shimbum, um dos maiores do mundo (põe todos os dias nas ruas cerca de 10 milhões de exemplares), criou o
“The Committee for Restoration of Trust and Resuscitation.”

Em resumo, busca desesperadamente reaver a sua credibilidade perdida após a descoberta de uma série de passos em falso em coberturas importantes como o tsunami seguido de crise nuclear de Fukushima, em 2011.

Nem é preciso dizer que presidente e diretoria caíram depois que veio a público que o ombudsman do jornal havia sido censurado justamente por criticar seus acidentes de trabalho.

A publicidade, o jornalismo e Cuba

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Tenho uma relação muito especial com Cuba – é um dos lugares onde mais aprendi com as pessoas. A notícia de que o isolamento imposto pelos EUA pode estar chegando perto do fim me traz de novo a sensação que tive desde a primeira vez que coloquei meus pés na ilha. Ela irá precisar de tudo durante e após a transição, inclusive de comunicação e jornalismo.

Minha amiga Flavia Marreiro, a brasileira que melhor conhece Cuba, escreveu um artigo bastante interessante sobre o assunto. Enquanto no mundo todo o modelo de jornalismo sustentado pela publicidade está em xeque, ele jogará um papel crucial na redemocratização cubana – onde a publicidade privada é proibida.

Vale ler e entender outros desafios que o país têm daqui por diante.

Tiros na corrupção

Num ano em que o holofote sobre a corrupção está mais aceso do que nunca, impossível não lembrar a tragédia protagonizada por Budd Dwyer – secretário do Tesouro do estado da Pensilvânia que, diante das câmeras, se matou após condenado por supostamente receber propina de US$ 300 mil para autorizar a contratação de um serviço público.

Dwyer foi deputado e senador, mas se notabilizou na vida pública como o implacável chefe do tesouro estadual que descobriu – e conseguiu que fossem devolvidos aos cofres estaduais – uma farra de gastos pessoais do governador Dick Thornburgh, no começo dos anos 80. A festa incluía servidores fazendo supermercado e conduzindo os filhos do mandatário, entre outras coisas.

Partiu de Thornburgh, já sem mandato, o início das investigações contra Dwyer, a partir de uma denúncia anônima. Jamais se comprovou que o tesoureiro recebeu o dinheiro, mas o simples fato de ter admitido a possibilidade de suborno (o que aparecia na versão de uma testemunha que, anos depois, disse ter mentido) foi suficiente para sua condenação.

Em 22 de janeiro de 1987, Dwyer reuniu a imprensa, leu uma nota oficial, entregou envelopes com mensagens para familiares a seus auxiliares e sacou, para espanto geral, uma arma que colocou na boca e disparou. Tudo ao vivo, sem cortes, nas cinco maiores emissoras de TV dos EUA.

O caso até hoje é usado como exemplo da falta de escrúpulo da mídia – não pela transmissão ao vivo, mas pela exploração das imagens nos dias seguintes em jornais e telejornais e também pelo fato de cinegrafistas e fotógrafos continuarem a trabalhar mesmo diante do cadáver de Dwyer.

O filme “Honest Man” revê essa trajetória e afirma, com relatos atuais, que Dwyer era inocente e foi perseguido pelo governador que fiscalizou. O suicídio estaria relacionado à ruína das finanças da família, dizimadas no custoso processo judicial. Uma história e tanto.

A relação entre jornalismo e RP

Na era da convergência dos campos da comunicação, estudo do Instituto Reuters joga alguma luz na relação entre jornalismo e RP – concluindo que o jornalismo depende cada vez mais do trabalho de RP, que depende (por causa dos novos canais oferecidos pela tecnologia) cada vez menos do jornalismo.

O jornalismo passou longe

Em fevereiro de 2009 escrevi que um hipotético fim da imprensa formal significaria que a blogosfera (ainda não eram os tempos das redes sociais bombando) acabaria logo em seguida porque, afinal, “ela reproduz e vive a reboque dos veículos tradicionais”.

Levantamento feito agora pela Folha de S.Paulo durante as eleições de 2014 dá números a essa tese.

“Na amostra coletada pelo jornal, 61% dos compartilhamentos de links por usuários vieram de conteúdo publicado na mídia profissional em jornais, portais, TVs, rádios, sites de notícias locais ou imprensa internacional”.

O que há de sobra nas redes sociais é opinião. Jornalismo, que envolve principalmente apurar informações, como todos nós sabemos, ainda passa longe dos sites de relacionamento.

A questão de fundo é: e deveriam passar? Ou estamos falando apenas de relacionamento?

O propósito da Folha ao fazer levantamentos do tipo (não é o primeiro nem será o último) é mostrar de alguma forma que a mídia formal tem relevância. Parece ser uma disputa inútil: no final das contas, as pessoas sempre irão ganhar.

Então, o negócio é se juntar a elas.