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Público banca mais uma experiência no jornalismo

Começou mais uma experiência de jornalismo financiado pelo leitorado nos Estados Unidos (as outras, que você já conhece, são o Spot.Us e o Jornalismo Representativo).

Jornalistas demitidos de impressos que fecharam as portas ou estão moribundos no Arizona criaram seus próprios veículos on-line para tocar a vida. E o Heat City trabalha com o conceito de microdoações para fazer pautas pinçadas entre sugestões do público _exatamente como funciona o Spot.us.

Vamos acompanhar e ver no que dá. Uma coisa é certa: a cultura da doação é americana. Não cola no resto do mundo.

Projeto testa jornalismo financiado nos EUA

Uma escola ao lado da sua casa conturba o trânsito, cometendo ilegalidades como fechar a rua com cones ou permitir fila dupla. Você já procurou as autoridades municipais responsáveis pela fiscalização, mas nada foi feito. Qual a solução? Contratar jornalistas para apurar o fato e confrontar as autoridades, exigindo uma providência.

David Cohn, 26, acreditamente piamente nisso, a que deu o nome de jornalismo financiado pela comunidade (ou simplesmente “crowdfunding journalism”, na língua original). Cohn está torrando uma bolsa de US$ 340 mil no Spot Us, a sua resposta para a crise do jornalismo tradicional.

A idéia não deixa de beber um pouco no jornalismo representativo preconizado por Leonard Witt, e já abordado neste Webmanário. Tão pouco é inédita: ao lado de Jay Rosen, respeitável professor da Universidade de Nova York e um dos maiores pensadores do novo jornalismo, Cohn tocou, no ano passado, o Assigment Zero, projeto com o mesmo conceito que não decolou _a prova é seu site, ainda no ar, que apresenta um cenário de terra arrasada que evidencia a ausência de pessoas dispostas a bancar reportagens.

Desta vez, Cohn _bolsista da Knight Foundation_ conta com o “modelo Obama” para fazer sua idéia acontecer. Explico: ele se espelha nas milhares de pequenas contribuições que o candidato do Partido Democrata à sucessão de Bush amealhou no decorrer da campanha. “Eu não sou Bill Gates, mas posso doar US$ 10”, disse ele ao New York Times.

Algumas questões importantes se colocam de antemão: estaria o público disposto a pagar por jornalismo? Alguns estudiosos (e experiências anteriores) já sentenciaram que não. Fosse no Brasil, eu assinaria embaixo a petição dos pessimistas, mas o cenário norte-americano (que inclui uma crise bem mais severa dos meios tradicionais, em especial do jornal impresso) é único e, positivamente, se há um lugar onde esse projeto tem chance de vingar é lá.

Outro aspecto que me preocupa com relação aos planos do hiperativo Cohn: suas reportagens serão publicadas aonde? Inicialmente, apenas em seu próprio site. Um alcance, convenhamos, minúsculo se o que se pretende é mobilizar autoridades e conseguir mudanças efetivas no status quo do cotidiano.

Cohn diz que está buscando parcerias com outros veículos para dar maior dimensão ao material produzido por sua equipe de jornalistas. Mesmo que não consiga, e sendo otimista, é crível pensar que a exposição num único site na Web seja capaz de, dependendo da profundidade do tema, sensibilizar a quem de direito.

O problema mais grave do jornalismo financiado é a possibilidade de o poder econômico estabelecer uma agenda própria de investigação jornalística. Contra isso, Cohn diz que seu Spot Us limita a contribuição individual a 20% do custo de uma investigação, além de escolha rigorosa das pautas a serem seguidas. Nada que não possa ser burlado por uma coisa chamada dinheiro.

A idéia, porém, é interessante e merece ser acompanhada.

O tal do jornalismo representativo

Uma empresa, um sindicato ou até mesmo um grupo de cidadãos contrata um jornalista para que ele paute e investigue temas de interesse dessa comunidade específica. Com base em suas reportagens, este grupo se sente mais forte para pressionar os governantes.

Em linhas gerais, é essa a idéia do jornalismo representativo, defendido pelo professor norte-americano Leonard Witt como uma possível saída para a crise de credibilidade por que passa a profissão.

Witt postou até um vídeo para explicar, com detalhes, sua idéia sobre a novidade.

Ainda não há literatura em português sobre o assunto, bastante recente. Prometo me debruçar sobre ele para, além de compreendê-lo, estabelecer uma conceituação. A idéia parece interessante, ainda mais nos EUA. Explico: pessoas no Brasil com as quais comentei o tema reagiram com uma indagação. “Ué, mas assessoria de imprensa não existe exatamente para isso?”

Deveria existir _não conheço assessoria que faça reportagem investigativa, normalmente é puxação de saco explícita mesmo. Mais: nos EUA, as funções de assessoria de comunicação são atribuições exclusivas de profissionais de relações públicas (o que está absolutamente correto, no Brasil sim é que houve distorção).