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E agora, Buffet?

Depois de comprar 28 jornais nos últimos 15 meses nos Estados Unidos, o multimilionário Warren Buffet, em carta aos acionistas de sua empresa, diz que continuará a fazê-lo mesmo admitindo que “a circulação, faturamento publicitário e lucro do setor jornalístico como um todo estão destinados a cair”.

À parte o romântico “eu amo jornais” no texto, Buffet apresenta os reais motivos de seu investimento: a aposta na mídia regional, o bom e velho conceito hiperlocal que, dizemos há anos, parece ser de fato a saída mais interessante para um produto que perdeu a primazia de ser o arauto do noticiário.

“Se você deseja saber o que está acontecendo em sua cidade – notícias sobre o prefeito, impostos locais ou o resultado do time de futebol americano da escola secundária -, não há substituto para um jornal local que esteja fazendo bem o seu trabalho. Um leitor pode facilmente se entediar depois de ler dois parágrafos sobre as tarifas canadenses ou os desdobramentos políticos no Paquistão, mas uma reportagem que fale sobre ele e seus vizinhos será lida até o fim”, pontua a carta.

Porém Buffet não menciona um aspecto crucial (e óbvio) para se fazer “bem o seu trabalho” em jornalismo hiperlocal: é preciso jornalistas. Não há agências de notícias ou sites na internet cobrindo o time de várzea de seu bairro e oferecendo material pronto para republicação a respeito da quitanda da esquina.

Portanto, diferentemente do mau jornalismo de caráter nacional (onde cabeças são cortadas impiedosamente, e as redações se desidratam dia após dia), para apostar no hiperlocal é preciso contratar repórteres e editores.

Buffet irá na contramão do mercado?

 

O exemplo de um jornalista de verdade

A primeira vez que fui a Santo André, em abril de 1992, foi para uma entrevista de emprego no Diário do Grande ABC, que viria a ser meu empregador pelos oito anos seguintes.

Ali pude conviver com Fausto Polesi, um dos fundadores do jornal, que morreu nesta semana aos 81 anos.

Não é preciso puxar pela memória para lembrar o quanto este homem, um jornalista de alma e corpo, valorizava um aspecto fundamental para o exercício da profissão: a independência.

Ex-presidente do clube de futebol da cidade, Polesi jamais me fez um pedido relacionado à cobertura do time nos cinco anos em que comandei a editoria de Esportes do jornal.

Nos anos 90, o Diário viveu sua época de ouro, abrigando uma geração brilhante de jornalistas como Vera Magalhães (hoje repórter especial da Folha de S.Paulo), Antonio Prada (diretor do portal Terra para a América Latina), Cuca Fromer (diretora editorial do Diário de Guarulhos), Edson Rossi (diretor de conteúdo da Elemídia) e Claudio Souza (editor de Carros do UOL) _paro por aqui apenas para não me alongar, a lista é extensa.

Dá muita saudade daquela redação. O jornal era respeitado, rivalizava com os “grandes da capital” em várias coberturas, tornou-se uma referência e atraiu vários talentos.

A propósito, aquela entrevista de emprego que introduziu o DGABC em minha história foi feita por Reinaldo Azevedo, outro que relata o compromisso incondicional do doutor Fausto (e seu indefectível terno branco) com a imparcialidade.