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Uma visita ao jornal mais vendido do Brasil

Nesta semana tive o prazer de conhecer a redação do jornal mais vendido do Brasil (303.269 exemplares, em média, em março): o Super Notícia, de Belo Horizonte, para quem muito jornalista torce o nariz por puro preconceito.

Claro, o Super é um fiel representante do jornalismo que pejorativamente chamamos de popular (mas cuja procura e tiragem justificam plenamente a alcunha, não?). É um Notícias Populares de nosso tempo que nem de longe recebe a veneração de seu parente paulistano distante _e já extinto.

Com o tripé crime-futebol-mulher (e boas pitadas de serviço), o diário (que no sábado festejou 8 anos de vida colocando na capa um garoto da mesma idade nascido em 1º de maio de 2002, quase que simultaneamente ao jornal) é um exemplo da importância da edição e da sabedoria em reempacotar conteúdo.

A equipe é enxutíssima: são nove pessoas na linha de frente, sendo um editor, cinco fechadores e três repórteres funcionando num pedacinho da redação que também abriga outros jornais do grupo, como o generalista O Tempo e o semanário Jornal Pampulha.

Reaproveitar conteúdo dos outros veículos da casa é uma das chaves do sucesso da publicação, que tem uma empatia extraordinária com seu público (não são raros os casos de leitores que ligam primeiro para a redação, e só depois para a polícia).

Outro detalhe que ajuda a explicar o sucesso (além do preço, R$ 0,25, que surfa na onda de prosperidade das classes C, D e E, essas recentemente convertidas em leitores de jornal) é a estratégia de distribuição: o Super está onde você puder imaginar (supermercados, drogarias, padarias e bancas, claro).

Também há os famosos “anabolizantes”, que vão de coleções de miniaturas a camisas de futebol.

O fato é que o jornal é um fenômeno que a própria academia vem tentando entender (são diversas as teses de mestrado dissecando sua fórmula).

Um viva ao editor Rogério Maurício, com quem conversei rapidamente. E longa vida ao Super Notícia.

Agradeço ainda às acolhidas calorosas de Luiz Tito, vice-presidente do grupo Sada (que edita os jornais mineiros citados), Lúcia Castro, editora executiva, e Michele Borges, secretária de redação.

Leitores ajudam jornal a fotografar cadáveres

O jornal popular equatoriano Extra está utilizando uma extensa rede de colaboradores não remunerados (leia-se: seus próprios leitores) para driblar uma proibição que quase põe fim ao próprio jornal.

Desde 2008, uma lei federal proíbe que a polícia ou o IML permitam o acesso de fotógrafos de veículos jornalísticos aos cadáveres.

Para o Extra, que sempre exibiu cenas de crimes na sua primeira página (indefectivelmente ao lado de modelos desnudas), foi o princípio do fim.

A publicação, porém, segue publicando defuntos com protagonismo em suas páginas. Como? Graças aos leitores, que avisam a redação, via internet e telefone, quando se deparam com um presunto fresco.

Desta forma, jornalistas do periódico estão conseguindo chegar às cenas dos crimes antes dos policiais _flagrando o morto.

É sensacionalismo, mas de resultados: o Extra, com uma tiragem estimada em 210 mil exemplares, é o jornal mais vendido do Equador.

Quem tem medo do jornalismo popular?

Luiz Carlos Duarte, diretor de redação do Agora São Paulo, e Octavio Guedes, que ocupa cargo similar no carioca Extra, foram os convidados do programa Notícia em Foco, que semanalmente leva jornalistas à CBN para discutir o futuro da profissão.

Interessante ouvir o diálogo entre eles, em alguns momentos tão diferente, em outros, bem parecido. Sobre os jornais gratuitos, por exemplo, enquanto Duarte se aferra à logística de distribuição e garante ter mais penetração do que Destak e Metro, Guedes aponta para o bolso e mostra preocupação com essa concorrência _a verdade é que a instabilidade do câmbio e da economia como um todo atrasarão novos investimentos nesta área.

Ambos os jornalistas comandam jornais populares, segmento em que o preconceito e a desinformação grassam na mesma proporção de patinadas editorais e forçadas de barra.

Foi, enfim, uma conversa bem interessante e reveladora sobre as estratégias e pontos de vista de dois jornais bem posicionados em seu nicho.