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As lições de um filme sobre uma entrevista

Sim, é verdade: em se tratando de cinema, eu estou sempre atrasado.

Mas é necessário discorrer, pelo menos em algumas linhas, sobre coisas que vi em Frost/Nixon e que me deixaram com a certeza de que o filme é o melhor sobre jornalismo que já assisti.

A história do encontro do apresentador de tv britânico David Frost com o ex-presidente norte-americano Richard Nixon, apenas quatro anos após sua renúncia, tem inúmeras referências bastante úteis sobre e para a profissão.

A mais importante delas é exibir a arte da reportagem entrevista.

É assim: fútil e despreparado, Frost passa três dos quatro dias que teria com Nixon ouvindo lorotas e causos do presidente. Sem interromper. Chega a ser desesperador.

Quando percebe que tem sua última chance, ele (ajudado pelo diligente produtor que o acompanhou na empreitada e tinha bem mais tutano do que ele), se debruça sobre documentos e, por dentro do assunto, consegue provocar a fúria de Nixon.

Consequentemente, obtém ótimas declarações que colocariam a entrevista, no final das contas, entre as mais importantes da história.

Este vídeo mostra um trecho da entrevista original, não do filme, e tem um pouco disso tudo (das divagações, do entrevistado que não interrompe e, finalmente, de um homem acossado que explode ao ser acuado com perguntas desconfortáveis).

É inspirador. E uma lição de alguns meandros da profissão que muitas vezes passam despercebidos _como a importância do trabalho em equipe e a pré-produção, esta a melhor amiga de qualquer atividade jornalística.

Coisas de cinema e de jornalismo

Para quem gosta de cinema e jornalismo, Danielle Vieira está ampliando o acervo de seu blog sobre o tema, tantas vezes citado aqui por nós no decorrer do ano passado.

O Novo em Folha também tem uma lista bastante extensa.

A conclusão segue a mesma: a representação da profissão pela sétima arte está longe de ser fiel, além de muitas vezes insistir numa glamourização que não existe mais.

O dia em que Bush morreu

Só agora consegui ver o filme britânico “Death of a President“, forrado de imagens reais, citações e linguagem jornalística. Para quem não sabe do que se trata: Chicago, 19 de outubro de 2007. Após discurso em evento do Clube Econômico de Chicago, o 43º presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, é alvejado mortalmente na frente do luxuoso Sheraton da cidade. A película é dirigida por Gabriel Range.

Construído em linguagem de documentário (ou seja, baseado em “entrevistas” dos principais personagens), o filme me fez lembrar um antigo chefe que (erradamente, claro) se deliciava ao fechar uma reportagem com um (para o repórter) aterrorizador “Mas este cara não fala nada? Fala sim!” dito enquanto “esquentava” as aspas dos entrevistados.

“Death of a President” tem, em vários momentos, as declarações que nós, como jornalistas, pedimos a Deus. Só mesmo numa produção roteirizada para elas serem tão perfeitas. As pessoas não são espirituosas a ponto de conceber frases tão boas. Pelo menos, não durante todo o tempo.

O grande detalhe é que Range, antes de cineasta, é jornalista. Ele se formou na Universidad de Cardiff, no País de Gales, e chegou a trabalhar regularmente na profissão.

Só isso explica o uso, na média, tão adequado da linguagem jornalística no filme (lembra quando eu falei que publicitário, ao imitar a gente, é um desastre?).

Pois é, não são só os publicitários. Em geral, o cinema é um péssimo lugar para se ver nossa profissão reproduzida. A experiência de Range salvou essa.

A morte do escudeiro maltrapilho

Falamos deles outro dia, quando abordamos a representação do jornalista no cinema, e ontem morreu Dith Pran, fotógrafo cambojano que era o protótipo do escudeiro leal, maltrapilho e disposto a morrer para ajudar seu parceiro jornalista. Um personagem que virou clichê nos filmes dos anos 80, mas que neste caso era verdadeiro.

Pran foi tradutor e faz-tudo do jornalista do The New York Times Sydney Schamberg, enviado ao Cambodja em 1975 para cobrir o golpe que colocou no poder o marxista sanguinário Pol Pot. Como conhecia os atalhos, Pran levou o repórter americano a locais onde se acumulavam caveiras e corpos (como mostra este documentário).

Impedido de deixar o país (só Schamberg pôde sair do Cambodja, e lamentou para o resto da vida ter deixado o amigo para trás), Pran foi preso e torturado por quatro anos, até que se conseguiu passar por um iletrado camponês (o regime de Pol Pot matava as pessoas que pareciam esclarecidas) e fugiu para os EUA, onde acabou contratado pelo NYT e criou uma fundação para ajudar as famílias das vítimas do genocídio.

Da cama do hospital, onde lutava contra o câncer, Pran deu uma entrevista ao NYT poucos dias antes de morrer.

É uma coincidência, já que na quarta passada, e também de câncer, morria Philip Jones Griffiths, fotógrafo que teve papel importante na Guerra do Vietnã.

Cidadão Kane no Unifai

Nesta sexta (28/3), no período da aula de Edição II, vamos exibir Citizen Kane (com legendas em português). Além de, provavelmente, tratar-se do maior filme já concebido e rodado, é o maior filme sobre jornalismo jamais realizado.

É a história de Charles Forster Kane, fictício magnata da imprensa idealizado por Orson Welles _que negou até a morte ter se inspirado no verdadeiro William Randolph Hearst, este sim magnata de carne e osso.

Difícil dissociar Kane e Hearst: “Rosebud“, por exemplo (nome que permeia a trama), seria o apelido que o ricaço deu à periquita da segunda mulher…

O Jornalismo no Cinema 3

Houve um tempo (que durou pelo menos uma década, infelizmente) em que o jornalismo, para Hollywood, só era digno de virar filme se contasse as agruras de um correspondente numa zona de conflito. Um cara empoeirado, fudido da vida, condenado a viver eternamente longe de casa, sem banho, cheirando a… vocês sabem.

Esse cara normalmente era fotógrafo (e sempre empunhando a máquina de forma equivocada, reparem), cobria desavenças bélicas no Terceiro Mundo e desenvolvia amizade fraternal com seus intérpretes/guias _estes, sempre empapados em suor, paus pra toda obra e capazes de arriscar a vida por uma reportagem. Às vezes, quando a guia era mulher ou a repórter da agência concorrente atraente, ainda rolava um algo mais.

Assim é O ano em que vivemos em perigo (The Year of Living Dangerously, 1982), ambientado na Indonésia do ditador Sukarno, com o regime à beira do colapso (1965, portanto). Ganhou um Oscar.

Os gritos do silêncio (The Killing Fields, 1984) repetiu a fórmula, mandou o enviado ao Cambodja, fez a platéia chorar e faturou três estatuetas.

Em 1986, El Salvador, o martírio de um povo (Salvador) relata como um frila beberrão e fracassado aproveita a guerra civil no país centro-americano para tentar relançar sua carreira. Aqui, além do amigo fiel suado, tem a coleguinha cheirosinha e instigante também.

Essas representações também têm responsabilidade pelo fato de tantos jornalistas empregados hoje na grande mídia considerarem, pra valer, que a profissão só faz algum sentido se o repórter viaja. Para eles, ser repórter em São Paulo é chato…

Ainda fazem filmes assim, é incrível. Harrison’s Flowers, de 2000, é sobre um fictício fotógrafo que acaba ferido e fica entre a vida e a morte na guerra da Bósnia. A mulher dele, a bela Andie McDowell, ultrapassa todos os obstáculos e tenta localizar e socorrer o amado. A coisa mais chata a superar é o personagem de Adrian Brody, que interpreta um fotógrafo da AP. Como todo fotógrafo, ele é conceitual, se orienta pela luz e dá todos _absolutamente todos_ os conselhos errados. Pela Andie, minha paixão da adolescência (meu deus, com quantos anos então estará essa mulher?), veja o trailer (quem descobrir o nome desse filme em português me avisa?):

O Jornalismo no Cinema 2

Esse é um filmaço, como se diz por aí: Todos os homens do presidente (All the president’s men, 1976).

Reconstitui todos os acontecimentos que levaram à renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, com ênfase no trabalho de investigação jornalística dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein _que se tornariam célebres.

Outra coisa legal é a representação das pressões que um jornalista recebe no exercício da profissão. Aqui isso é mostrado de forma bem crível.

O Jornalismo no Cinema 1

Como nesta sexta o assunto é o texto A dupla falta do editor de jornal, das nossas amigas professoras Beatriz Marroco e Christa Berger, vamos lembrar um pouco nesta semana das representações de editores, repórteres e do trabalho jornalístico no cinema _citado, afinal, no texto em questão.

O óbvio é sempre começar com Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), então vamos iniciar por Quase Famosos (Almost Famous, 2000).

Além da trilha sonora pra lá de legal (é difícil errar tendo o começo dos 70 como ambiente…), conta as agruras de um moleque de 16 anos que cobriu uma turnê de uma bandinha hype para a prestigiosa revista “Rolling Stone”. Mostra relação editor-repórter, e num tempo em que máquina de escrever e telefone com disco (e não teclado) eram o máximo.

É a história dos primórdios de Lester Bangs, um cara que revolucionou a cobertura musical. Ele morreu de overdose por uso de drogas em 1982.