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Atenção, Jakob Nielsen está falando

Mestre Jakob Nielsen sai da tumba para apresentar mais um informe sobre usabilidade.

Desta vez, o “ómi” critica a distribuição de conteúdo por páginas de Internet escolhidas a dedo. E o recado é claro para quem edita: o uso de uma palavra, num pé de lista de notícias qualquer, pode fazer a diferença.

Combatido (ainda bem), Nielsen ainda dá as cartas.

Jornalismo cidadão atira para todo lado

A participação da “ex-audiência” no jornalismo (o principal assunto sobre a profissão agora e pelas próximas duas décadas) ainda é heterogênea e sem critérios.

Uma análise detalhada do site coreano Ohmynews, bastante citado como a experiência mais bem sucedida de jornalismo colaborativo, evidencia claramente que não há rumo. Às vezes, valoriza-se o diferencial para escancarar a alardeada ruptura com a grande imprensa (que doravante quero chamar de mainstream, posso?). Noutras, concorre-se pobremente com ela.

Projetos participativos em português, então, são ainda mais inanimados. O Wikinotícias, com média de oito textos (ou notas?) publicados por dia e administrado por cães de guarda de sua própria comunidade, ainda é inqualificável.

Estruturado de forma diferente (há a mediação profissional sobre o trabalho do amador), o Brasilwiki aparenta ter mais solidez. Porém sofre do mesmo mal do site asiático, sua confessa fonte de inspiração.

Ao anunciar, em sua fundação, que “cada cidadão é um repórter” e que sua plataforma era claramente uma oposição ao mainstream, o Ohmynews explicitou que manchetes como a desta madrugada são seu business.

No caso, um texto pessoal impressionista, com incômodo nariz de cera, mas um ótimo diferencial do noticiário da grande mídia: um cara contando que a cidade inglesa em que viveu, Dewsbury, tem o inacreditável poder de atrair tragédias. Foram vários os casos Isabella Nardoni no município. O mais recente (nem tão fresco assim, é do início de fevereiro…) é citado en passant pelo autor no oitavo parágrafo.

No dia em que as autoridades do Banco Mundial previram que a incontrolável alta dos preços dos alimentos vai provocar guerra e fome no mundo (NOTA: eram as manchetes de CNN e BBC por toda tarde/noite/madrugada deste domingo para segunda), não havia uma única notícia relacionada ao tema na trincheira do Ohmynews.

Tudo bem, se a missão da experiência é deixar de lado o hard news e incentivar sides ou análises.

Mas um passeio aleatório a outro setor do site, o canal de esportes, faz a incongruência saltar os olhos. É o caso do texto que conta as vitórias de Serena Williams e Nikolay Davidenko no Masters de Miami _ainda por cima publicado três dias após o fim do torneio.

Ou o relato da partida Colo Colo x Boca Juniors, com direito a descrição de lances e ficha técnica, tal qual centenas de outros produzidos pela grande mídia no mesmo dia.

Peralá: mas a colaboração é ou não é de hard news? É o que o usuário quiser, então? Cadê a mediação?

Aos experimentos pro-am de jornalismo colaborativo falta uma figura indispensável à tarefa profissional de coletar/filtrar/divulgar dados: a pauta, o roteiro de temas de interesse premente.

Um projeto que contemple a seleção de temas semanais/diários a serem abraçados pelos colaboradores, dentro de suas possibilidades, é factível. Quem não puder se comprometer a fazer, que não manifeste o desejo de desenvolver um texto. Agindo antes, os mediadores poderão obter resultados melhores.

De cara, isso é a solução para a vontade incontrolável de vestir um cachecol ao abrir sites como Ohmynews ou Brasilwiki, quase sempre dissociados do dia-a-dia em suas manchetes (mas, em suas listas de notícias, reféns dele).

E o papo ainda nem chegou à catastrófica colaboração oferecida pelos portais noticiosos.

Os malfadados blogs

Tenho profunda ojeriza à palavra blog. Não exatamente à palavra, mas ao que ela foi reduzida pelas instituições e pessoas que enxergam ali apenas um palco para exibir e expressar seu brilhante pensamento vivo, deixando de lado todos os preceitos que norteiam a plataforma (a não ser, por impedimento técnico, a ordem cronológica inversa de publicação, item que por si só não basta para que se ganhe o carimbo).

Uma pesquisa divulgada ontem vai exatamente ao encontro do que eu estou falando. A Ball State University rastreou as patacoadas autodenominadas blogs de 360 jornais norte-americanos. E o resultado, pífio, revela que a presença na Internet por meio desse modelo se deu basicamente por causa de modismo.

É aquele fenômeno sobre o qual já discorri outro dia (“ei, alguém falou que isso é bacana, precisamos ter isso urgente!”).

Além de ignorância sobre suas potencialidades, os jornalistas que assumiram blogs nos veículos analisados também demonstraram desprezo à participação do usuário (80% jamais responderam a indagações de seus leitores _que mesmo assim, em 60% dos casos, reincidiram em seus comentários).

O levantamento apontou ainda que nada menos do que um quarto dos blogs foram atualizados de forma deficiente ou simplesmente seus responsáveis nunca mais foram vistos on-line.

Não duvido que os dados da pesquisa de Ball State com jornalistas políticos inseridos no mainstream se enquadrem perfeitamente numa fatia bem considerável de toda a blogosfera.

O Technorati, maior ferramenta rastreadora de posts, diz que existem hoje 113 milhões de blogs no mundo (120 mil são criados por dia, ou 1,4 por minuto). Porém cerca de 50% são logo abandonados (e olha que, nesse critério, o Technorati é bem benevolente: considera “ativo” um blog que tenha sido atualizado pelo menos uma vez em 90 dias, o que é uma catástrofe sob qualquer ponto de vista).

Não por acaso essa avalanche de descaso deleita o polêmico Andrew Keen, autor do irascível “The Cult of the Amateur” (livro-referência sobre a participação da “ex-audiência” na sociedade atual).