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Projetos mulmídia que extrapolam o jornalismo (e nos dão ótimas ideias)

Você está procurando referências sobre grandes trabalhos multimídia (ou seja, a aposta em narrativas que incluam foto, vídeo, áudio e o que for) e não sabe onde encontrar?

Pois bem, o Multimidiashooter selecionou dez exemplos de tirar o fôlego (um deles, a reportagem “Cáli, a cidade que não dorme”, já havia sido recomendado aqui recentemente).

Ah, nem todos os projetos são jornalísticos. Melhor ainda: há tempos a criatividade anda caminhando longe das redações _exemplos da publicidade ou do design sempre nos dão ideias ótimas).

Casos como o da Economist, em que uma série de profissionais mostra seu ambiente de trabalho, o lugar onde têm mais inspirações.  Verdadeiramente sensacional.

Desfrute.

O jornalismo que transcende o papel

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Um veículo modesto, bem longe da badalação do homônimo rico e congêneres; Uma ideia de trazer conceitos mais vanguardistas ao surrado jornalismo nosso de cada dia. É o que basta.

O El Pais, de Cáli (terceiro maior jornal da Colômbia), inaugurou um canal para, segundo o próprio periódico, impactar a audiência “a nível gráfico, visual e jornalístico”.

Basicamente, propostas de novas narrativas jornalísticas. Um nome pomposo, que tenho usado sempre, mas que significa apenas deixar um pouco de lado a ditadura do texto e explorar outros recursos da web (todos, como vídeo, áudio, grafismos etc). A fórmula aqui é até surrada (a história de 11 personagens da noite calenha), mas isso pouco importa.

Se o El Pais daqui faz, com a estrutura que você já pode imaginar, a gente também consegue. Nem que seja pelo institucional, é obrigatório ter experiências assim em nossos veículos.

E há gente bastante importante no Brasil que, infelizmente, ainda está com o pé no freio quando a conversa vai para esse lado de fazer algo que transcenda (e ao mesmo tempo valorize mais) o papel.

O retrógrado entrave sindicalista

Perguntei a Leonardo Dresch (a cabeça por trás da produção multimídia do jornal O Globo) por que os fotógrafos de jornais não se engajam no mix de conteúdos e, falando objetivamente, abracem a produção dos vídeos nossos de cada dia.

Falei disso há pouco tempo, e houve polêmica porque faltou o “fotógrafos de jornais” em meu discurso.

“A construção narrativa quem faz melhor é o réporter”, disse Dresch, que também é fotógrafo.Eu rebato com “mas são profissionais de imagem, deveriam se interessar por essa fronteira”.

Dresch levanta outro aspecto, este sindical: a organização que representa os fotógrafos é, em sua percepção (e compartilho isso), mais forte que a entidade de classe dos jornalistas. “Entidade de classe”, para dizer a verdade, é o termo certo.

Mas daí me lembro de Ronaldo Bernardi e seu incrível registro do mundo animal que levou um ano da apuração à concretização. Lembra? Claro: é aquele vídeo da tartaruga que ataca e come uma pomba.

A constatação óbvia é que os afinados com o discurso sindicalista estão ficando pra trás.

Honduras, o golpe e a desnutrição infantil

Enquanto o mundo assiste, atônito, à disputa pelo poder em Honduras (com direito a um fato novo, o regresso do presidente deposto e agora aboletado na embaixada brasileira), a produtora multimídia Tracy Boyer acaba de concluir o documentário “Honduras and the Hidden Hunger“.

O trabalho trata de um projeto transnacional para amenizar a desnutrição infantil no país da América Central, apontado pelo Banco Mundial como o terceiro mais pobre da região.

Leia mais notícias sobre a situação política em Honduras

Boyer conta que filmava em Honduras quando ocorreu o golpe que depôs Manuel Zelaya e, a partir daí, teve inúmeras dificuldades, principalmente por causa dos apagões frequentes e duradouros de energia, que comprometeram a autonomia de seus equipamentos de filmagem.

Isso sem contar as dificuldades naturais de um trabalho que envolve o registro de sofrimento, dor e angústia. Muito pesado.

A reportagem multimídia, nota-se, não tem a apresentação glamourosa de outros trabalhos do gênero (e, também diferentemente deles, valoriza o texto). Tem problemas de edição, design, áudio e programação.

Mas serve para a gente lembrar que sempre há um povo por trás de disputas políticas.

O dia em que o jornalismo cidadão foi notado

Nova York arrasada: foto do acervo do museu que lembra o maior acontecimento jornalístico de todos os tempos _e também o mais registrado por não jornalistas na história

Nova York arrasada: foto do acervo do museu que lembra o maior acontecimento jornalístico de todos os tempos _e também o mais registrado por não jornalistas da história

É consenso acadêmico que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, mais especificamente os que tiveram o World Trade Center como alvo, são o evento mais registrado de todos os tempos. Foi o momento em que todos os olhos do mundo estavam voltados para aquelas duas torres glamourosas que, de repente, ruíram.

“Dizem que 11/9 foi o acontecimento mais registrado digitalmente em nossa história. E nós estamos convidando as pessoas a nos ajudar a contar essa história”, conta Alice Greenwald, diretora do museu que recordará a data _e que será inaugurado apenas em 2012.

Porém já está no ar, sob a chancela da curadoria do novo museu, um site provisório com centenas de registros dos ataques, num belo exemplo de convivência pro-am _material profissional e amador mesclado, jornalistas e testemunhas contando juntos um fato histórico que mudou a humanidade.

O museu tem um projeto, o Make History, que conclama os cidadãos a encaminhar registros que, seja por descuido, esquecimento, falta de iniciativa ou luto familiar, estejam depositados em algum cartão fotográfico ou disco rígido.

O material que já está no ar é muito bom e nos relembra, fortemente, o dia em que o jornalismo cidadão foi notado. É um momento decisivo para o que viria a acontecer ao próprio jornalismo nos anos seguintes.

A coleção tem registros não mostrados na televisão, como restos de corpos, uma poltrona de avião, fotos de família. Arrasador.

Mas um museu sempre quer mais relíquias.

Nada mais adequado que recorrer a quem melhor cobriu o fato _o cidadão, atônito diante do cataclisma.

Jornalismo on-line forja ‘paquistaneses da web’

Eles ganham pouco, trabalham muito e reclamam de preconceito. A constatação sobre as condições de trabalho no jornalismo on-line é na França, mas bem poderia ser no Brasil.

Texto publicado na segunda-feira pelo Le Monde acendeu uma interessante polêmica no país ao mostrar que as redações francesas na internet esbarram numa série de problemas. O autor da reportagem avança o sinal e chama seus profissionais de “paquistaneses da web” _escravizados e aprisionados horas a fio diante de um computador.

“Fazemos texto, foto, vídeo, enquetes. Daí, quando vamos pedir aumento, a resposta é sempre a mesma: ‘a internet não dá dinheiro'”, fala uma redatora ouvida na matéria.

Longas jornadas de trabalho, soldo insuficiente, tarefas como copiar e colar incessamente notícias, ambiente de trabalho insalubre e ausência de práticas jornalísticas (como apuração e checagem) são apenas alguns dos questionamentos.

Todos estes problemas existem no jornalismo on-line brasileiro. Inclusive o preconceito: nos jornalões, é hábito ouvir gente do impresso desdenhando os colegas da versão on-line, como se o trabalho que fizessem fosse menor.

Além disso, em algumas empresas, a equipe on-line fica confinada em buracos, praticamente esquecida.

Como na França, aqui ganha-se mal e trabalha-se muito. E em péssimas condições, com gente exigindo a publicação imediata de notícias que nem sequer foram checadas.

É uma geração igualmente mal paga e aprisionada ao computador (sabia que via de regra o jornalista de on-line almoça sozinho porque não há como a redação descer junta para comer _quem atualizaria o site?)

É, nós também temos os nossos paquistaneses da web.

O poder material de um jornal impresso

O papel é mais importante do que o que está escrito nele? Há quem acredite piamente nisso, como se das páginas de um veículo impresso emanasse uma espécie de autoridade moral e social que, por si só, tornasse melhor e mais combativas as informações expostas ali.

Há tempos a Ana Estela, do Novo em Folha, ensaia falar sobre o tema. Enfim saiu.

“Os impressos, por vários motivos _materialidade física, permanência, edição gráfica, circulação geográfica e demograficamente conhecida_, têm um papel de espaço público e de agente político que os on-line não têm (ainda, pelo menos)”, diz a Ana, que é editora de Treinamento da Folha de S.Paulo (registre-se: que dá bastante ênfase ao jornalismo multimídia).

Daí eu fico pensando se aspectos sociológicos e antropológicos podem se sobrepor a questões práticas como o cardápio de um veículo, seja ele uma rádio, uma TV, um site na internet ou mesmo um jornal ou revista, que andam tão em baixa (sempre importante repetir, muito mais no Hemisfério Norte do que aqui).

É fato que o jornal em papel é uma instituição até mesmo da democracia. Mas essa condição, como estamos assistindo, não é suficiente para evitar sua extinção. É por isso que zelar pelo jornalismo, independentemente da plataforma, é uma tarefa mais importante agora do que contemplar o poder que se esconde por trás de linhas e imagens impressas.

A animação a serviço do jornalismo

Escrito, dirigido, animado e sonorizado por Jonathan Jarvis, a animação “The Crisis of Credit Visualized” é mais uma peça inspiradora para quem está pensando, por exemplo, em maneiras de usar a web como complemento do noticiário estático em papel.

Só vendo mesmo para entender o que uma boa ideia pode fazer pelo jornalismo.

A propósito: este post dá boas dicas de como casar som e imagem.

O incrível vídeo da tartaruga que ataca uma pomba

Vou postar este vídeo antes que eu esqueça. Mostra uma tartaruga, no melhor estilo National Geografic, atacando, afogando e comendo uma pomba num parque de Porto Alegre.

Foi feito pelo fotógrafo Ronaldo Bernardi, de Zero Hora, jornal onde passei uns dias na semana passada trocando impressões sobre as novas demandas do jornalismo na era do avanço tecnológico desenfreado.

Para obter essa imagem, houve primeiro uma apuração entre os frequentadores do parque, que lhe contaram a história. Mas, da apuração ao vídeo, exatamente um ano se passou.

A persistência foi premiada: Ronaldo é fotógrafo. Mas, antenado com o novo contrato da profissão, também produz vídeos e faz reportagens. Ah, ele fotografa também. E bem.

É a cara do novo jornalismo.

Uma foto que paga toda a cobertura

O recado da polícia colombiana ao Grêmio, flagrada por um repórter de papel (Foto: Leandro Behs/Agência Zero Hora)

O recado da polícia colombiana ao Grêmio, flagrada por um repórter de papel (Foto: Leandro Behs/Agência Zero Hora)

Dizer que o jornalismo multitarefa exige apenas pequenas intervenções para um jornalista de meio impresso não é mantra, é a realidade.

Falei muito sobre isso ao participar de aula dos colegas Ana Brambilla e André Pase, na Famecos, a agradável faculdade de Comunicação da PUC-RS (sobre este papo, conto mais em breve).

Nesta quarta mesmo, na Zero Hora (principal jornal do Sul do país, onde passo uns dias trocando experiências de convivência entre equipes on-line e de papel), ocorreu um exemplo claro. Leandro Behs, enviado especial do jornal impresso a Tunja (Colômbia), flagrou uma mensagem deixada pela polícia local ao Grêmio _que lá jogou, perdeu dez gols (dois deles sem goleiro) e venceu o Boyacá Chicó por 1 a 0 pela Libertadores.

Em aceitável português, uma faixa assinada pela polícia local saudava a equipe brasileira e proclamava que vigiava o Estado mais seguro da Colômbia. Foi um protesto pícaro, porque antes de jogar em Tunja os dirigentes do Grêmio (esse bando de trapalhões amadores) criaram um clima constrangedor e desnecessário (vá direto ao infográfico).

Sem desviar de seu caminho, mas atento à paisagem, o repórter não só viu a faixa como parou para fotografá-la. Difícil, né? Aquela mesma câmera digital que jornalistas carregam a tiracolo e adoram usar para registrar a própria intimidade (como cenas de boteco), mas resistem a aplicar no trabalho.

Pequena intervenção que rendeu uma das matérias mais acessadas do site gaúcho e, de quebra, uma foto exclusiva ao jornal. Em resumo: pagou a viagem do enviado à Colômbia.

ATUALIZAÇÃO: a edição impressa de Zero Hora NÃO publicou a foto. Erraço.