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E o jornalismo encosta na literatura

Falei sobre jornalismo literário esta semana na Faap e passagens das vidas de Truman Capote e Hunter S. Thompson foram bastante comentadas. Inevitável lembrar dos filmes que retratam parte de suas vidas.

Ah, o resumo da conversa: apesar das literatices, o gênero foi uma importante contribuição para o jornalismo moderno. E sua vertente gonzo, o ápice de porralouquice do ofício.

Repórter entrevista gato e reconstitui acidente de trânsito no Chile

Imagine cobrir um acidente de trânsito e ser capaz de resgatar, passo a passo, o comportamento e a percepção do gato causador da capotagem _que deixou quatro feridos, dois deles em estado grave.

Foi o que fez um repórter do Diario de Aysén, de Coyhaique, na Patagônia chilena. A matéria dele deixa claro: o cara sabia exatamente o que fazia e “pensava” o felino ao atravessar inocentemente uma avenida e cruzar o caminho de um Jeep Cherokee.

“O gato escutou o motor do carro, à distância, rompendo o silêncio, chegando cada vez mais rápido. Então, assustado, decidiu daquilo que parecia ameaçá-lo. O motorista do carro mal viu a negra silhueta que cruzava o seu caminho”, diz a reportagem, que informa em primeira mão: “O gato, do outro lado da rua, girou a cabeça e observou por um segundo o jardim da praça destruído, com as flores espalhadas pelo chão, e desapareceu”.

Senhores, esse repórter entrevistou o gato. É um fenômeno.

PS: Capaz de os defensores do jornalismo literário (essas duas palavras que não se bicam) acharem legal. O webfanzine Disorder já decretou o autor da pérola “o pior jornalista do Chile“.

A poesia a serviço do jornalismo (!?)

Juan Ruiz Cruz, um dos fundadores do inquieto jornal espanhol El Pais, esteve na Folha de S.Paulo nesta semana conversando com a redação.

Quem conta é a Cristina Moreno de Castro, toda prolífica no Novo em Folha, um blog de verdade sobre ensino do jornalismo e mídia.

Não fui e explico o motivo: era das 19h às 20h, justamente o meu pico de fechamento…

Curioso que Cruz citou a poesia como um caminho para escrever melhor. A capacidade de sintetização do gênero é exemplar, em sua opinião. Eu, que nunca tinha pensado nisso, acho um disparate. Mas, quem sabe. Vale avaliar.

“Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado”, diz Gay Talese

Em entrevista a Sylvia Colombo publicada neste sábado pela Folha de S.Paulo (só para assinantes), Gay Talese, 77 anos admite que fala “como um velho da profissão”.

Expoente do new journalism (movimento que empurrou a não ficção em direção à literatura), Talese diz que os jornais ajudaram o valor-noticia a despencar para zero ao liberarem seus conteúdos on-line. “É preciso cobrar pelo que se publica. Porque se trata de uma tentativa de encontrar a verdade necessária para a sociedade, e que tem um preço”.

O escritor se esquece que o conteúdo, agora, não é distribuído apenas por quem o produz. Ele é compartilhado na rede. Pelo seu próprio público. A cada dia mais rápido e por mais canais. É uma situação que não se pode mais deter. Se você não o disponibiliza sem ônus, alguém o fará.

Mas Talese (autor de célebres reportagens travestidas de obras literárias) mostrou conhecer muito bem a noção de filtragem, fundamental nestes tempos de informação tão abundante. “Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado. A internet está cheia de lixo”, afirma, com razão, ainda que a frase pareça da lavra de Andrew Keen, o ex-crítico número um da web.

Mas como, então, evitar o gradual desinteresse do público pelas publicações impressas? “Não sei”, encerra Talese.