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O Spotlight britânico

‘Attacking the Devil’ (disponível na Netflix) é uma espécie de Spotlight britânico. O documentário reconstrói a primeira grande campanha de um jornal do Reino Unido, liderada pelo editor Harry Evans, que revelou a barbárie provocada pela prescrição de medicamentos a base de talidomida, outro triste legado do nazismo.

Evans colocou à disposição do assunto a equipe Insight, editoria de investigação do Sunday Times (ainda hoje o jornal mais vendido do país), para expor ao público os horrores da má-formação de crianças cujas mães se submeteram a tratamentos com o uso da talidomida – então prescrita como ‘milagrosa’ contra os enjoos das primeiras semanas de gravidez.

Disclaimer: Evans é, ele próprio, uma das vítimas (sua filha foi afetada pela substância).

O trabalho do grupo de jornalistas desafiou a justiça britânica, que havia colocado o tema em sigilo – o que impedia, na prática, sua divulgação pelos jornais – e evidentemente chocou a Grã-Bretanha, jogando luz nos procedimentos nada íntegros da indústria farmacêutica.

A propósito, a editoria Insight existe até hoje, colecionando outros grandes furos no currículo.

A morte da investigação?


Nunca gostei do termo “jornalismo investigativo” porque, a princípio, todo jornalismo deveria ser dedicado à investigação.

Agora, 40 anos depois do furaço de Bob Woodward e Carl Bernstein (os dois cidadãos na foto acima) que levou um presidente a renunciar, há quem considere a investigação em extinção.

O problema não é jornalístico, mas gerencial.

Investigar exige tempo – que significa dinheiro – e dinheiro, muito dinheiro. Tirar um repórter de suas atribuições diárias para mergulhar num trabalho de meses a fio (normalmente são nesses casos que surgem os grandes furos) não parecem mais atrair os departamentos de RH das empresas jornalísticas.

Escrevendo para o Washington Post, Leonard Downie Jr é bem pessimista com relação ao tema.

África do Sul torna crime jornalismo investigativo

Reproduzo matéria publicada ontem pelo jornal “O Estado de S. Paulo”.

Preocupante, mas distante do tal “controle social da mídia” que, sabiamente, a presidente Dilma Rousseff engavetou em nosso país.

“O Parlamento da África do Sul deixou de lado objeções de líderes históricos da luta contra o apartheid e aprovou ontem, com maioria esmagadora, uma nova lei de sigilo que, segundo críticos, foi elaborada para proteger a elite corrupta do país do jornalismo investigativo. A nova legislação determina, por exemplo, pena de até 25 anos de prisão aos responsáveis pela publicação de informações de Estado consideradas sigilosas.

O partido governista Congresso Nacional Africano (CNA) usou sua maioria para garantir a aprovação por 229 votos a favor e 107 contra. Opositores da Lei de Proteção da Informação afirmaram que tentarão derrubá-la na Corte Constitucional, assim que o presidente Jacob Zuma sancionar o texto, como é esperado.

O críticos da nova lei, entre eles Nelson Mandela e o arcebispo Desmond Tutu, batizaram a sessão parlamentar de ontem de “terça-feira das trevas”, em alusão a uma lei similar contra a liberdade de imprensa aprovada nos anos 70, sob o apartheid.

Tutu, que recebeu o Nobel da Paz em 1984 por seu papel decisivo na luta contra a segregação racial, afirmou que, para os sul-africanos, “é vergonhoso pedir que aceitem uma lei que pode ser usada para tornar ilegais as denúncias e o jornalismo investigativo”.

Jornalismo investigativo e financiamento público

O jornalismo investigativo está vivo ou morto?

Nosso amigo Paul Bradshaw aponta o financiamento público (em especial, do público) como o principal patrocinador da prática no futuro.

A bem da verdade… todo jornalismo deveria ser investigativo.

Jornalismo investigativo e internet provocam mudança real

Na semana passada escrevi que a “onda verde” e o crescimento de Marina Silva, associado à campanha sobre o aborto (e contra Dilma Rousseff), tinham passado a sensação de que a internet, enfim, provocara algum tipo de ruído eleitoral com resultado concreto nas urnas.

Faltava, para isso, a realização de uma pesquisa que apontasse o que os indícios mostravam, comentei.

Pois a pesquisa foi feita, pelo Datafolha, e detectou que não apenas a internet triunfou na reta final da campanha presidencial, mas também o jornalismo investigativo _este, aliás, em maior grau.

Convenhamos, o jornalismo investigativo também chega ao eleitorado via web, o que significa um bônus para a rede.

Um dos recortes do levantamento dá conta de que os fatos que levaram à queda da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra (sucessora de Dilma), e também o escândalo do acesso a dados sigilosos na Receita Federal tiveram mais impacto na mudança de votos do que os temas religiosos.

O Datafolha também perguntou aos eleitores (mais de 3,5 mil em todo o país) se eles haviam recebido algum tipo de mensagem eletrônica que desabonasse algum candidato.

Num universo de 56% do eleitorado brasileiro que acessam a internet, 14% disseram ter recebido correntes com boatos de toda espécie.

Porém foi a investigação jornalística quem teve papel mais importante na mudança do voto, ou seja, na alteração concreta de uma situação real.

As duas informações são auspiciosas, de toda forma.

O atestado de óbito do sindicato dos jornalistas de SP

É hoje que o sindicato dos jornalistas de São Paulo assina seu atestado de óbito: a entidade, que já há anos servia apenas como um plano odontológico e estava morta como representante de uma categoria, abriga nesta quinta-feira uma manifestação contra a imprensa.

É isso mesmo, eu não estou louco nem bêbado: o sindicato, que deveria defender a classe, abre suas portas para um grupo de entidades interessadas em denunciar a “baixaria nas eleições” e o “golpe midiático”, seja lá isso o que for.

Na prática, trata-se de mais uma tentativa de calar e constranger a imprensa livre e combater o jornalismo investigativo _eles se esquecem de que o ministro mais importante do governo, o da Casa Civil, teve de deixar o governo justamente por conta destas investigações.

É o fim patético de um sindicato que já tinha sido destruído pela desconexão entre sua direção e a realidade.

Que não descanse em paz.

Mais sobre o jornalismo investigativo de qualidade…

…que também é o tema da coluna deste domingo da ombudsman da Folha de S.Paulo. Para refletir.

Os jornalões estão em guerra

Vazamento de informações sigilosas não estão apenas na ordem do dia da política brasileira, mas também do jornalismo internacional.

No momento, New York Times e Wall Street Journal, dois dos mais importantes jornais do mundo, estão em pé de guerra por causa de métodos nada éticos para obter informação _caso de alguns veículos de propriedade de Rupert Murdoch, dono do WSJ.

Permito-me reproduzir texto de Kenneth Maxwell publicado ontem pela Folha de S.Paulo. É o resumo da ópera.

“No mundo da mídia impressa, há uma batalha monumental em curso entre o “New York Times”, de Arthur Sulzberger, e o “Wall Street Journal”, de Rupert Murdoch.

Para Murdoch, o “New York Times” representa tudo o que ele mais odeia no jornalismo, e o empresário parece determinado a desafiar e a solapar o seu grande rival. Murdoch é notório pelas suas guerras jornalísticas, especialmente no Reino Unido, onde controla o “Times” e o “News of the World”. Mas a disputa entre o “Wall Street Journal” e o “New York Times” promete ser a maior das batalhas.

O mais recente episódio começou com uma reportagem investigativa de Don Van Natta Jr., Jo Becker e Graham Bowley, publicada pelo “New York Times” com o título “O ataque do tabloide: as escutas de um jornal londrino contra os ricos e famosos”.

A Scotland Yard identificou a origem de escutas usadas contra família real e chegou a Clive Goodman, antigo repórter judicial, e Glenn Mulcaire, antigo investigador particular, que também trabalhava para o jornal “News of the World”.

Os dois haviam obtido as senhas necessárias para ouvir as mensagens de voz dos príncipes Andrew e Harry. O “New York Times” alegou que repórteres do “News of the World” também invadiram as caixas de mensagens de voz de centenas de celebridades, funcionários do governo e astros dos esportes britânicos.

Tanto Goodman como Mulcaire foram demitidos e aprisionados. O “New York Times” acusou, no entanto, que a Scotland Yard não levou adiante as investigações sobre pistas que sugeriam que o “News of the World” estava conduzindo operações de escuta contra cidadãos de maneira rotineira.

O foco estreito da investigação permitiu que o “News of the World” e sua companhia controladora, a News International, de Murdoch, atribuíssem o caso às ações de um jornalista. Tanto Goodman como Mulcaire abriram processos contra o “News of the World” -os dois casos foram encerrados por meio de acordos extrajudiciais. O editor do “News of the World” no período em questão, Andy Coulson, também se demitiu. Hoje é diretor de comunicações na equipe do primeiro-ministro David Cameron.

A revista “Vanity Fair” afirmou nesta semana que assistir à disputa era como “ver uma briga entre os Corleone e a família Tenembaum”. Na segunda-feira, John Yates, comissário assistente da polícia londrina, disse que, “se surgirem novas provas, que justifiquem novas investigações, é isso o que faremos”.

Cinco minutos com Bob Woodward

A jornalista Vera Magalhães sempre me diz que a expressão “jornalismo investigativo” é um engano.

Claro, todo jornalismo é investigativo. É a essência do próprio trabalho.

Mas ainda há esse nicho, e os que vivem de falar dele.

Como Bob Woodward, repórter que ao lado de Carl Bernstein derrubou um presidente tendo a profissão e o Washington Post como armas.

Bob revela num vídeo bacana alguns detalhes que ele considera fundamentais para o tal “jornalismo investigativo”.

Nada muito distante do jornalismo propriamente dito, viu.

Conan, o repórter investigativo

Imagine se Conan, o Bárbaro, fosse repórter investigativo. E encontrasse personagens avessos a respostas claras e assessores de imprensa especialistas em impor obstáculos (sem contar os chefes).

O povo do Wagner & Beethoven imaginou.

E a @kikacastro foi quem viu no Novo em Folha.