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Jornalismo amazônico

De João Pereira Coutinho, hoje na Folha: “A única coisa que o jornalismo “tradicional” tem a temer não é o fim do papel; é o fim dos leitores.”

Em pauta, a análise da compra do Washington Post por Jeff Bezos.

Você é um ex- jornalista de papel?

Você acha que, na maioria das matérias, um ou dois parágrafos bastam para contar a história? Ou que frequentemente uma boa infografia vale mais do que um texto?

Bem, talvez você seja um ex-jornalista de papel. Confira outros 154 sintomas dessa síndrome compilados por John L. Robinson.

A visão do Estadão nos Anos 70

Não deixa de ser uma fina ironia: foi a visão de novos negócios, ainda nos anos 70, do grupo que edita o jornal O Estado de S. Paulo (envolto numa crise insolucionável que parece espreitada por um trágico epílogo) que, com todos os sobressaltos, é responsável pela sobrevivência de seu principal produto, o jornal impresso – ao Jornalistas&Cia, a direção da empresa tentou dar algumas respostas para esse difícil momento.

A conta aqui é simples: pioneira como agência noticiosa e, posteriomente, com base em outros serviços agregados, a Agência Estado, fundada em 1970, responde hoje por quase 80% do faturamento de todo o grupo. É de onde sai o dinheiro que financia os outros departamentos, notadamente jornal e rádio, ambos deficitários.

É uma demonstração de que a ousadia e o passo à frente da concorrência podem ser determinantes para a sobrevivência de um negócio. Ainda que estejamos falando de um modelo que luta a duras penas para seguir existindo, é inegável que aquele passo, há mais de 40 anos, foi crucial.

Em tempo: o TRT (Tribunal Regional do Trabalho) suspendeu as cerca de 50 demissões ocorridas na semana passada em O Estado de S. Paulo por conta de nova reformulação (ou “redesenho”). Hoje as partes devem se reunir no tribunal numa audiência de conciliação.

E agora, Buffet?

Depois de comprar 28 jornais nos últimos 15 meses nos Estados Unidos, o multimilionário Warren Buffet, em carta aos acionistas de sua empresa, diz que continuará a fazê-lo mesmo admitindo que “a circulação, faturamento publicitário e lucro do setor jornalístico como um todo estão destinados a cair”.

À parte o romântico “eu amo jornais” no texto, Buffet apresenta os reais motivos de seu investimento: a aposta na mídia regional, o bom e velho conceito hiperlocal que, dizemos há anos, parece ser de fato a saída mais interessante para um produto que perdeu a primazia de ser o arauto do noticiário.

“Se você deseja saber o que está acontecendo em sua cidade – notícias sobre o prefeito, impostos locais ou o resultado do time de futebol americano da escola secundária -, não há substituto para um jornal local que esteja fazendo bem o seu trabalho. Um leitor pode facilmente se entediar depois de ler dois parágrafos sobre as tarifas canadenses ou os desdobramentos políticos no Paquistão, mas uma reportagem que fale sobre ele e seus vizinhos será lida até o fim”, pontua a carta.

Porém Buffet não menciona um aspecto crucial (e óbvio) para se fazer “bem o seu trabalho” em jornalismo hiperlocal: é preciso jornalistas. Não há agências de notícias ou sites na internet cobrindo o time de várzea de seu bairro e oferecendo material pronto para republicação a respeito da quitanda da esquina.

Portanto, diferentemente do mau jornalismo de caráter nacional (onde cabeças são cortadas impiedosamente, e as redações se desidratam dia após dia), para apostar no hiperlocal é preciso contratar repórteres e editores.

Buffet irá na contramão do mercado?

 

Menos publicidade nos jornais

Um em cada três executivos de publicidade nos EUA prevê que gastará menos com a mídia jornal neste ano.

É por isso que o financiamento público do jornalismo (ou seja, pago pelos leitores) é a notícia de 2013.

Circulação de jornais impressos aumenta – graças ao digital…

Não valeu: a ANJ anunciou com pompa que a circulação dos jornais brasileiros cresceu 1,8% em 2012.

Estaria tudo ótimo se dentro desse número não tivessem sido incluídas as edições digitais – que, juntas, representaram 3,2% dessa mesma circulação total.

Ou seja: a entidade patronal está recorrendo a uma maquiagem para dourar a pílula do jornalismo impresso.

Google ganha concurso de publicidade impressa

ad_googleO jornal norte-americano USA Today (aquele responsável pela introdução da linguagem da TV e textos cada vez menores no jornalismo impresso) bancou um concurso com  US$ 1 milhão de prêmio para estimular a criatividade das agências de publicidade que produzem anúncios para o veículo.

O resultado? Quem ganhou foi o Google, provavelmente um dos principais responsáveis pela necessidade de se estimular a criatividade em produtos impressos, com a peça que você aqui, produzida por seu laboratório de criatividade.

Alguma dúvida de que fomos atropelados inexoravelmente?

O zelador da qualidade jornalística

Voltei das férias com a leitura da primeira coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo em 2013. Em resumo: dá dois exemplos de textos mal-escritos no jornal e sentencia: “…com o surgimento do noticiário on-line, espera-se que o impresso sirva de esteio da qualidade jornalística. Se é para ler “qualquer coisa” rapidamente, fiquemos na internet, onde há fartura e gratuidade.”

Só um porém: o timing do jornal, ainda que evidentemente muito maior que o do jornalismo on-line, não me parece adequado para que supostamente se arvore o papel de esteio da qualidade jornalística.

De resto, é isso aí.

Boas notícias no jornalismo impresso

Nem tudo é notícia ruim no jornalismo impresso: nesta semana, a redação do New York Times conseguiu aprovar importantes benefícios para os jornalistas, como a concessão de bônus anual e definição sobre reajuste salariais para os próximos anos.

A direção do jornal diz, inclusive, que o plano aprovado é superior aos benefícios pagos aos executivos da empresa.

É ver para crer.

Como assim, vendemos papel?

A partir das 10h de amanhã, Victor Navasky faz palestra na ESPM (rua Joaquim Távora, 1.240, em São Paulo).

Ex-editor da combativa (e de oposição) revista The Nation, Navasky é assertivo ao garantir que o jornalismo na internet não pode substituir uma revista de opinião como a que a ajudou a notabilizar e qulificar nas três décadas em que trabalhou por lá.

“O papel da pequena publicação de opinião, numa sociedade democrática, é realizar o jornalismo interpretativo na extensão que for necessária, explorar ideias intensivamente, não nessas frases curtas. Estamos na era do Twitter e do jornalismo tecnologizado, e as pessoas dizem que a crítica da imprensa está on-line. Mas você a recebe em mensagens de 140 caracteres”, exagera o jornalista.

A web (ou os aplicativos, seus derivados) é apenas um suporte, que comporta do livro aos 140 caracteres. Ali fazemos o jornalismo que queremos fazer. Sem amarras. É isso que parece ainda não ter sido compreendido.

Por Navasky, é compreensível: à beira dos 80 anos, ele é de pelo menos duas gerações atrás e viu todo esse avanço tecnológico aparecer de repente – eu próprio, com metade da idade, passei parte da minha existência num mundo cuja única tela era da TV.

Admitir que o jornalista não vende papel é um passo para entender como nossa vida mudou.