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Jornalismo financiado sofre mas está otimista nos EUA

Os números ainda são ruins, mas jornalistas que trabalham em startups voltadas para a comunicação nos EUA estão otimistas com o que pode acontecer nos próximos meses – é o que mostra pesquisa do Pew.

Das 172 instituições ouvidas, nunca é demais lembrar que duas já ganharam o Pulitzer. E, importante, que praticamente todas ainda estão em busca de um modelo de negócios sustentável.

 

Pra não dizer que não falei da Campus Party

Pra não dizer que não falei da Campus Party (mais uma vez não fui, os únicos eventos desorganizados que ainda frequento _ainda que a dose tenha sido reduzida drasticamente_ são jogos de futebol), repasso a impressão que o El Pais teve ao participar de alguns debates no sábado.

Primeiro, que a performance de Alfredo Manevy, secretário-executivo do Ministério da Cultura, encantou os espanhóis. Claro: num momento em que a Espanha discute rígida regulamentação para troca de arquivos e direitos autorais, Manevy (chamado na matéria de “ministro interino com ar hippie”) equiparou a internet a serviços essenciais como água e luz e defendeu a cópia digital de obras como um antídoto para baixa tiragem de livros, edições esgotadas e a falta de hábito de frequentar bibliotecas.

“Com a internet essas pessoas poderiam conhecer a cultura. Incluímos, nos últimos anos, 40 milhões de pessoas na classe média. Não podemos traí-las fechando-lhe as portas. Este não é um país de 40 milhões de piratas, mas de gente que tem vontade de aprender”, disse Manevy na Campus Party deste ano.

Nesse campo, Laurence Lessig tem muito a dizer. Ele é um dos criadores do sistema creative commons, que tenta pacificar a relação entre autores e público, e acha que o Brasil é o país mais importante do mundo para o futuro da cultura digital _eu acho que China e Índia vêm antes.

Mas Lessing tem uma capivara gravíssima: defende que o jornalismo seja financiado com dinheiro público “porque cumpre uma finção social. Sem imprensa livre e com jornalistas formados é impossível entender a democracia”, discursou.

Imprensa livre financiada com dinheiro público? Jornalistas formados? Gente, do que esse cara está falando?

Somos todos dependentes das grifes da web

Rafael Sbarai, 23 anos, é um prodígio. Poucas pessoas analisam tão bem os meandros da web (e sua implicação no jornalismo), em português, como ele. E faltam textos em português sobre o assunto. Pessoas, escrevam mais!

Rafael não tem esse problema. Ele e três colegas têm dado, no blog De Repente,  excelentes pistas de quem somos e para onde vamos _e, claro, aquela pitada pessoal do ‘para onde deveríamos ir’.

Conversei com ele numa brecha da rotina corrida de quem é repórter e editor de mídia social no site da maior revista brasileira, Veja. O assunto: monocultura do Google, jornalismo participativo, grandes grifes da web. E, sobre elas, a constatação: temos dados pessoais demais abrigados sob o guarda-chuva dessas empresas poderosas. Leia a seguir a íntegra da conversa, via mail.

O Google é eficiente, talvez sua característica mais admirável, mas qual o risco de ficarmos todos dependentes dele? Somos usuários de serviços que foram, estão sendo ou serão anexados pela companhia de Brin e Page (e agregados).A monocultura me incomoda, mas lutar contra ela exige mover montanhas. A web reproduz exatamente as disputas de poder fora dela…

A questão de dependência na web transcende o Google. Hoje, somos dependentes de Twitter, Facebook e Google. Muitas das nossas informações pessoais estão armazenadas em um grande banco de dados. E isso me preocupa muito. A exposição não divulgada em rede, porém centralizada em um único ambiente. Risco todos nós temos. O lado positivo desta história é a possibilidade de personalização de serviços e recursos, um dos princípios que a internet sempre teve.

Sobre indexação de conteúdos, acho isso o máximo. Indo para nosso lado jornalístico, você percebe qual executivo de jornal sabe o que é uma distribuição de informação. O Murdoch levantou uma bandeira em 2009, de apropriação de conteúdo, e mostrou sua força. Mas quem sai perdendo é ele, por ter um jornal mais centralizado e menos distribuído. Ponto para o NYT, que adota parcerias com o Google, como o Living Stories.

É duro falar sobre isso, mas ainda é maioria o conteúdo ruim produzido pelo público. Já foi pior, verdade, mas ainda é ruim. A ex-plateia ainda está muito preocupada em replicar conteúdo do mainstream? Que parcela dessa audiência colaborativa percebeu que na verdade é capaz de pautar os meios se usar as novas plataformas para se mobilizar?

Infelizmente vivemos já uma época da bolha da colaboração e do que se considera web 2.0. Não sou adepto deste termo (Nota do Webmanario: eu tampouco, é um rótulo marketeiro) e ele é reflexo do processo de mkt que envolveu a colaboração e o jornalismo. A plateia – ex-consumidora de informação – é extensa e está sob diversos formatos. E isso depende muito do contexto cultural.

Fico admirado com a política colaborativa de produção de conteúdo dos norte-americanos, chilenos e sul-coreanos, por exemplo. Totalmente diferente do Brasil. Enquanto aqui sinônimo de jornalismo colaborativo era estar em uma página principal de um portal com notícias requentadas pelo mainstream, lá fora o “cidadão-repórter” pensa em um contexto local e de grande caráter de prestação de serviço. É só ver alguns bons casos do iReport, apesar de que ele recebe maior destaque quando há uma notícia falsa. A questão deste formato é como saber filtrar isso. No iReport, não há este filtro, mas há uma hierarquização de notícias. Quem faz isso com maestria é o bom e velho OhmyNews.

Muito se fala hoje no Spot.us, um outro modelo que é bem discutido nos nossos blogs. Mas ainda o vejo com certo cuidado. Um “jornalismo financiado”, antes de tudo, é intencional.

YouTube, Twitter e Wikipedia: conte-me seus amores e seus horrores por essas três marcas (e ferramentas) que estão eternizadas na história da internet.

Nunca parei para fazer uma reflexão sobre os três modelos. Dos três, o que menos uso é o Youtube. Isso é fato. Nunca gostei de compartilhar conteúdos áudiovisuais. Me considero muito amador neste segmento. Apesar de muita coisa boa em seu “acervo”, aprecio mais Videolog e Vimeo. São formatos com cara mais profissional e com um menor filtro de coisas nonsense.

A Wikipedia é um mecanismo poderosíssimo, discutível e uma das fontes preciosas que conseguem acompanhar diariamente a evolução da sociedade com os usos tecnológicos.

O Twitter é o símbolo da economia da informação e o peso que o conhecimento e “estar ligado” provoca em uma sociedade interconectada. Muito se fala em sua busca em tempo real (já estamos no 2º período da busca em tempo real – a primeira aconteceu com o crescimento dos blogs e a indexação do Technorati), mas o que mais aprecio na ferramenta é a criação de uma linguagem totalmente distinta e que permita colocar muitas pessoas em uma conversa a partir do @. Sem você saber, você foi citado por uma ou outra produção (digo no nosso caso: jornalistas e/ou blogueiros). Esse retorno é o mais fantástico.

Gosto também dos termos que usam para desempenhar funções: saem de cena os falsos “amigos”; entram os ‘seguidores’ e ‘seguidos’. A palavra seguir pressupõe escutar, acompanhar e, acima de tudo, respeitar, o que falta e muito na web em geral.

Outra movimentação destacável é que o Twitter comprovou a tese da queda da audiência de uma página principal de portal/site. É o percurso de tornar-se menos centralizado e mais distribuído. O que mostra a eficiência e a premissa de Paul Baran com seus nodos distribuídos, centralizados e descentralizados. Muito da história do jornalismo on-line está em três imagens que mais parecem astrofísica ou química, mas delimita um belo universo jornalístico. O que dá pra deixar de conclusão sobre esses três formatos é como a tecnologia e internet SEMPRE conectou pessoas e não computadores.

Jornalismo financiado pelo público chega à grande imprensa

O jornalismo financiado pelo público finalmente chegou à grande imprensa. Cerca de 100 doadores colaboraram com dinheiro para que se concretizasse reportagem de Lindsey Hoshaw, publicada pelo New York Times, sobre a catástrofe ambiental provocada pelo lixo numa região bem específica do Oceano Pacífico.

A proeza é do Spot.us, organização sem fins lucrativos que aposta na ideia de que os leitores são os maiores interessados no trabalho jornalístico e, logo, teriam interesse em bancar reportagens.

Foi a entidade, criada por Dave Cohn após ganhar uma bolsa de US$ 370 mil, quem intermediou a negociação com o Times e garantiu a publicação da matéria numa vitrine privilegiada.

O jornalão se interessou de imediato pela reportagem, mas, como sempre, desde que não metesse a mão no bolso.

É um grande dia para os que acreditam, como eu, em novos modelos de financiamento para o combalido jornalismo.

Leitores se mobilizam para salvar seus jornalistas

Leitores abraçaram a causa dos jornalistas do Rocky Mountain News

Leitores abraçaram a causa dos jornalistas do Rocky Mountain News

ATUALIZAÇÃO: Acaba de rolar a coletiva do povo do Rocky Mountain News. Com o apoio de três empresários, 30 ex-funcionários do extinto jornal tocarão um site noticioso on-line, o Indenvertimes.com. O modelo escolhido, porém, sugere um novo fracasso: o conteúdo será fechado e espera-se que, até abril, o produto consiga reunir 50 mil assinantes para ser ampliado. É muito otimismo.

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Hoje, a partir das 14h (horário de Brasília), vamos conhecer o destino de parte da redação do Rocky Mountain News, jornal de quase 150 anos que encerrou suas atividades (em papel e on-line) definitivamente há três semanas com uma emotiva última edição que teve cobertura ao vivo no microblog e virou um documentário no melhor estilo chora-leitor.

Até onde se sabe, um grupo expressivo de leitores influentes (entre os quais há políticos, empresários e o próprio xerife de Denver) encabeça o projeto “Quero meu Rocky“, que convocou entrevista coletiva para anunciar “uma nova visão baseada em 150 anos de tradição”, como propaga seu slogan. Traduzindo: o reaproveitamento de parte da equipe do RMN, mas agora apenas em ambiente digital.

É mais uma movimentação de leitores que se mobilizam para manter vivo, de alguma forma _via de regra apenas na internet_ seu jornal favorito, despedaçado pela incapacidade administrativa de compreensão ao ambiente tecnológico e à transformação pela qual passou o modelo de negócios ultrapassadíssimo do jornalismo impresso.

Isto é jornalismo financiado, cujas experiências estão pipocando mundo afora.

Simultaneamente, no My Space, começou a fazer barulho uma comunidade portuguesa que propõe às pessoas a compra de um jornal por dia como forma de amenizar as perdas (de faturamento e leitores) que este tipo de produto experimenta especialmente no hemisfério Norte _entre nós e todos os emergentes, se as coisas não andam às mil maravilhas, ainda estão longe de se transformar em colapsos de corporações com dezenas de décadas de existência.

No manifesto assinado por Afonso Pimenta, o Movimento a Favor da Imprensa Escrita Paga destaca aspectos como “O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.”

Ainda os micropagamentos: você doaria dinheiro ao seu jornal?

Eu tentei, mas eu não consigo: nesta semana está absolutamente impossível fugir do assunto micropagamentos, a surreal proposta de uma coisa já utilizada na Web (e reprovada) agora ressuscitada para, dizem os seus defensores, salvar os jornais impressos.

Steve Outing pensa exatamente o mesmo e escreveu, na Editor&Publisher, um texto bacana nos lembrando, de novo, que cobrar do internauta “é contra a natureza da Internet e não funcionou” quando testado. Em vez de salvar, essa política vai terminar de pregar o caixão dos morubindos impressos.

Cobrar por conteúdo é uma insanidade. A taxação sobre produtos e ferramentas especiais e/ou personalizadas, aí sim, não tem contraindicação. Mas, no momento, o que se quer com o microcropagamento é voltar a um estado de coisas que foi rechaçada no começo da rede.

Em vez disso, Outing cita o exemplo do Kachingle, um arrecadador de doações para sites _aliás outro modelo de negócios que está sendo seriamente discutido nos EUA.

Você doaria dinheiro para o seu jornal não morrer?

Mais propostas para salvar o jornalismo impresso

Cresce o movimento, especialmente nos Estados Unidos (onde o jornal está pela hora da morte), por uma mudança radical no modelo de negócios para tentar a salvar a indústria. É sinal de que chegou-se ao fundo do poço.

 Agora é a vez da prestigiosa Time (ela também com a circulação a despencar a olhos vistos) sugerir uma política de micropagamentos por conteúdo premium, o que não é exatamente uma ideia original, mas pouco colocada em prática.

Enquanto isso, engatinham _e com experiências quase marginais_ os testes de jornalismo financiado nos EUA. Ao mesmo tempo, já há quem resista na rede (e não em papel, que tem um custo exponencialmente superior) com base em doações de seus usuários.

A conversa desemboca naturalmente na transformação das empresas jornalísticas em entidades sem fins lucrativos, o que as capacitaria a receber verbas governamentais e doações de instituições como fundações _exatamente como funcionam as universidades na América.

Esse debate vai longe. E esbarra

A ética e o jornalismo financiado

Mais um texto disseca as experiências de jornalismo financiado nos Estados Unidos, mas não fala nem uma palavra sobre o possível conflito ético dos experimentos.

Digo possível porque a questão surgiu e me pareceu válida. Foi numa conversa com os atuais trainees do jornal Folha de S.Paulo. A simples menção de que havia pessoas pagando por reportagens suscitou um “gente, mas isso não pode, é matéria paga”.

Pois é. David Cohn e Leonard Witt também não pensaram nisso. São deles os dois projetos mais auspiciosos na área, como já contei aqui outro dia.

Apenas para recapitular: Dave comanda o Spot Us, projeto em que cidadãos da região metropolitana de San Francisco sugerem uma pauta e fazem uma vaquinha para pagar um jornalista e um editor/revisor para concretizar a reportagem.

Feita a matéria, Dave ainda batalha a venda dos direitos exclusivos para algum grande veículo. Se não rolar, paciência: o dinheiro do público, ao menos, já bancou os gastos e a remuneração do freelancers contratados.

Witt, criador do jornalismo representativo, pensou diferente: tem um jornalista trabalhando numa pequena comunidade de 17 mil moradores. A idéia é que o profissional funcione como uma espécie de policial do quarteirão, ou seja, conhecido e respeitado pela comunidade, a quem afinal dará voz por meio de reportagens. Também é  remunerado pelos “pauteiros” _os leitores.

Jornalistas receberem dinheiro (ou outro tipo de contribuição) de leitores já é uma realidade nos Estados Unidos, e não apenas por causa dos projetos de Cohn e Witt. É comum autores de blogs, por exemplo, ganharem livros ou mesmo doações em espécie das pessoas que habitualmente acompanham seu trabalho.

Por aqui, o tema ainda é um tabu. Mas há quem, há tempos, recorra ao expediente, como Pedro Doria, dono de um dos melhores e mais acessados blogs do país.

Se as experiências prosperarem nos EUA, vamos ouvir falar muito mais disso nos próximos meses. Oportunidade para discutir se, afinal, o financiamento público ao exercício do jornalismo esbarra em algum preceito ético da profissão.

Não me parece que, no conceito geral, seja o caso.

Projeto testa jornalismo financiado nos EUA

Uma escola ao lado da sua casa conturba o trânsito, cometendo ilegalidades como fechar a rua com cones ou permitir fila dupla. Você já procurou as autoridades municipais responsáveis pela fiscalização, mas nada foi feito. Qual a solução? Contratar jornalistas para apurar o fato e confrontar as autoridades, exigindo uma providência.

David Cohn, 26, acreditamente piamente nisso, a que deu o nome de jornalismo financiado pela comunidade (ou simplesmente “crowdfunding journalism”, na língua original). Cohn está torrando uma bolsa de US$ 340 mil no Spot Us, a sua resposta para a crise do jornalismo tradicional.

A idéia não deixa de beber um pouco no jornalismo representativo preconizado por Leonard Witt, e já abordado neste Webmanário. Tão pouco é inédita: ao lado de Jay Rosen, respeitável professor da Universidade de Nova York e um dos maiores pensadores do novo jornalismo, Cohn tocou, no ano passado, o Assigment Zero, projeto com o mesmo conceito que não decolou _a prova é seu site, ainda no ar, que apresenta um cenário de terra arrasada que evidencia a ausência de pessoas dispostas a bancar reportagens.

Desta vez, Cohn _bolsista da Knight Foundation_ conta com o “modelo Obama” para fazer sua idéia acontecer. Explico: ele se espelha nas milhares de pequenas contribuições que o candidato do Partido Democrata à sucessão de Bush amealhou no decorrer da campanha. “Eu não sou Bill Gates, mas posso doar US$ 10”, disse ele ao New York Times.

Algumas questões importantes se colocam de antemão: estaria o público disposto a pagar por jornalismo? Alguns estudiosos (e experiências anteriores) já sentenciaram que não. Fosse no Brasil, eu assinaria embaixo a petição dos pessimistas, mas o cenário norte-americano (que inclui uma crise bem mais severa dos meios tradicionais, em especial do jornal impresso) é único e, positivamente, se há um lugar onde esse projeto tem chance de vingar é lá.

Outro aspecto que me preocupa com relação aos planos do hiperativo Cohn: suas reportagens serão publicadas aonde? Inicialmente, apenas em seu próprio site. Um alcance, convenhamos, minúsculo se o que se pretende é mobilizar autoridades e conseguir mudanças efetivas no status quo do cotidiano.

Cohn diz que está buscando parcerias com outros veículos para dar maior dimensão ao material produzido por sua equipe de jornalistas. Mesmo que não consiga, e sendo otimista, é crível pensar que a exposição num único site na Web seja capaz de, dependendo da profundidade do tema, sensibilizar a quem de direito.

O problema mais grave do jornalismo financiado é a possibilidade de o poder econômico estabelecer uma agenda própria de investigação jornalística. Contra isso, Cohn diz que seu Spot Us limita a contribuição individual a 20% do custo de uma investigação, além de escolha rigorosa das pautas a serem seguidas. Nada que não possa ser burlado por uma coisa chamada dinheiro.

A idéia, porém, é interessante e merece ser acompanhada.